JE SUIS AHMED !

Cires Pereira


Ahmed é uma das vítimas do atentado ocorrido ontem em Paris. Ahmed era muçulmano e, como policial, havia sido designado para o bairro onde se situa o escritório e a redação da Revista Charlie Hebdo. Morreu tentando proteger a sociedade francesa, responsável maior pela preservação do Estado de direito democrático e das liberdades individuais e coletivas, incluindo a liberdade de imprensa. Ahmed não é cristão, não é "francês da gema", não cartunista famoso, por isso não é tão lembrado e reverenciado como estão sendo os cartunistas.

A lembrança e a reverência a Ahmed Merabet, mais do que as demais vítimas, se justificam para, desde já, combater um nefasto desdobramento de situações como estas: o islamofobismo. Na França, assim como ocorrera nos EUA pós 2001, na Espanha pós 2004 e na Inglaterra pós 2005, é provável que haja um recrudescimento da discriminação e segregação de homens, mulheres e crianças muçulmanas. 

Insisto na tese de que a sociedade humana é constituída por boas e más pessoas, independentemente de seus credos religiosos, da cor de suas peles, de sua origem e de sua condição econômica. O que ocorreu neste fatídico dia 07 de janeiro foi uma ação covarde de pessoas más, independentemente de serem adeptas ou não do islamismo.

Não compactuo com a pertinência, forma e essência da Revista Charlie Hebdo, mas defendo o direito dela de se expressar como de quaisquer outros meios de comunicação. As balas cuspidas dos fuzis covardes eliminam inocentes e indefesos, por esta razão imploro por um pouco mais de comedimento dos provocadores, sobretudo nos momentos em que a diplomacia e o diálogo perdem terreno para armamentos, fardas e coturnos.

Devemos rechaçar de forma enérgica o terror que tem se espalhado pelo mundo ceifando indefesos. As armas mais adequadas para este combate é a compreensão das causas e o diálogo. Trata-se de uma tarefa delicada e difícil, pois ainda é pequeno o percentual da mídia e imprensa dispostas a contrariarem conveniências de alguns governos e de setores da economia que lucram e crescem com este clima de insegurança e animosidade. 

Senão vejamos, o que teria movido o semanário alemão "Diet Zeit" a publicar um dia após o atentado em Paris uma pesquisa feita com os alemães em novembro de 2014, na qual 57% dos entrevistados consideram o islamismo uma ameaça? Nesta mesma pesquisa 24% dos alemães defendem a proibição de imigrantes muçulmanos no país. Vivem atualmente na Alemanha quatro milhões de muçulmanos, a maioria constituída por turcos e curdos.

Compreensão e diálogo são duas substâncias constitutivas de um elixir capaz de isolar intolerantes, de toda e qualquer espécie, cor e credo, até que estes pereçam pela inanição de aderentes às suas causas.
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