ENEM 2015: ANÁLISE DOS NÚMEROS E A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO "JEITINHO BRASILEIRO"

Cires Pereira

O INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas), órgão vinculado ao Ministério da Educação divulgou no dia 13 de janeiro de 2015  as notas obtidas pelos mais de seis milhões de estudantes em todo o Brasil. Trata-se de uma importante amostra sobre o Ensino Médio no Brasil.

O critério usado pelo INEP para o ranqueamento das escolas de ensino médio com alunos participantes no ENEM é a média aritmética das notas obtidas na prova objetiva. Prova constituída pelas seguintes áreas do conhecimento: Ciências Humanas, Ciências da Natureza, Matemática e Linguagens e Códigos, logo a nota de redação não entra neste cálculo. Ainda não encontrei alguma argumentação convincente para esta não inclusão. Vale destacar que a prova de redação é a única em que o candidato expressa seu conhecimento e suas compreensão pelo discurso escrito que, a meu ver, é uma das formas mais eficazes para a aferição do conhecimento. Neste processo avaliativo que é, em última análise, seletivo a mais eficaz e elementar forma de avaliação se restringe a uma redação, muito pouco e injusto.

Outra distorção lamentável é a distribuição quantitativa das questões no conjunto da prova, novamente ainda não encontrei uma argumentação convincente para uma prova com 45 testes de matemática enquanto Biologia, Física, Química se limitam a 15, pois as três constituem a prova de Ciências da Natureza . Distorção ainda maior quando verificamos a prova de Ciências Sociais constituída  por 70 % de questões de História e Geografia e 30 % de questões de Sociologia e Filosofia.

Sabe-se que as escolas do Ensino Médio utilizam o ENEM como referencial, logo tendem a construírem os seus planejamentos tendo como bases esta distribuição (reitero distorcida) e no grau de profundidade e nível de dificuldade das questões, geralmente aquém do que tem sido ministrado em sala de aula. Portanto há um descompasso entre o ENEM e a realidade do Ensino Médio, logo é absolutamente temerário avaliar a realidade do ensino médio no Brasil tendo o ENEM como referência principal. Muita coisa precisa mudar, mas pra isso é preciso que o MEC abra e estimule este debate desde que disposto a também mudar.

AO BALANÇO:



Dos quase 6,2 milhões de candidatos que fizeram a redação, 1,2 milhão não conseguiram 30 % de aproveitamento e quase o dobro deste montante (2,26 mi) teria que, igualmente, refazer seus estudos por não ter alcançado a média em  Redação. Este "retrato" deveria orientar as escolas e os professores para uma nova estratégia para o ensino da compreensão e construção de textos.


Pelas médias obtidas nas demais provas (testes): uma primeira conclusão que se tem diz respeito ao grau de dificuldade das provas: a prova de ciências humanas foi a mais fácil e a prova de Matemática, a mais difícil. Fiz questão de republicar este quadro para abordar um tema bastante controverso, para isso observem o quadro que se segue.


INSTITUCIONALIZAÇÃO DO "JEITINHO BRASILEIRO"


O ENEM se constituiu também numa espécie de "Supletivo do 2º Grau", pois dos  9.519.827 inscritos, 997.131 se inscreveram para obterem a certificação do Ensino Médio, lembrando que somente quem já completou 18 anos tem o direito à esta certificação. Dos quase 6,2 mi de candidatos que compareceram, 631.071 compareceram para tentar as notas mínimas. Apenas 67.254 presentes conseguiram o mínimo para a certificação: 450 pontos nas quatro áreas do conhecimento e 500 pontos na prova de redação. Todas estas notas mínimas encontram-se abaixo das médias.

Eis ai um absurdo que, a rigor, premia aqueles que não conseguiram concluir o 2º grau por motivos diversos que não cabe neste texto investigar, pois precisam obter 45 % de aproveitamento nos testes e 50 % de aproveitamento na prova de redação, percentuais inferiores aos cobrados e à média obtida pelo universo de presentes nestas provas, comumente, nas séries do Ensino Médio por todo o Brasil nas escolas públicas e privadas.

Registo que não sou contrário ao uso do ENEM pra certificação, desde que as médias aferidas sejam o limite pra obtenção desta certificação. Muito precisa ser feito para melhorar a educação brasileira, em particular o processo avaliativo. Este precisa ser minimamente honesto, do contrário continuaremos exultando melhorias pontuais nos números como argumento (pobríssimo) do avanço, quando na verdade continuamos derrapando na "lama" que desejávamos extinguir.

Com a palavra, o MEC...
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