6 de dezembro de 2014

EDOUARD MANET E SUA (PRETERIDA) GENIALIDADE

Cires Pereira


Madame Manet - 1873 - Óleo sobre Tela - 
100,3 X 78,4 cm
O pintor francês Edouard Manet (1832-1883) é considerado o maior precursor  do impressionismo francês. Sua esposa Suzanne leenhoff chegou a ser retratada uma meia dúzia de vezes, em 1873 deixou pela metade um destes retratos. Graças à esta sua "negligência" tem sido possível compreender sua refinada técnica. 

Manet primeiramente esboçou a figura e fundo valendo-se de traços largos, em seguida, virou-se para o detalhamento da face de Suzanne Leenhoff (1830-1906), deixando inacabadas as mãos e a parte inferior de seu dorso.


Nas pinceladas que contornam a silhueta de Suzane tem-se a dimensão do que haveremos de encontrar nas obras dos "impressionistas", como por exemplo "Le Moulin de la Galette" de Renoir, "A primeira bailarina" de Degas e "Nascer do Sol" de Monet.

A importância da obra de Edouard Manet para a história da arte em geral e para o impressionismo em particular foi, recentemente, comprovada com o arremate de um de seus quadros mais significativos "A Primavera" por mais de 65 milhões de dólares. Os quadros "A primavera" e "O outono", foram feitos entre 1881 e 1883 como partes integrantes da sequencia "As quatro estações", mas sua morte em 1883 impediu a realização desta sequencia.

Almoço na Relva -1863
Dez anos antes, em 1863, Edouard Manet passou a despertar muita atenção em razão de uma injustiça cometida pelos críticos de arte ao excluírem um de seus trabalhos no Salão de Paris. A tela "Almoço na Relva" de 1863 foi exposta no "Salão dos Recusados", espaço que havia sido criado pelo Imperador Napoleão III após pressão dos artistas deixados de fora da mostra oficial. “Almoço na Relva” chocou o público por trazer uma mulher nua ao lado de homens vestidos – uma mulher atual, ao invés de musas clássicas. 

Além da polêmica em relação ao tema, Edouard Manet abandona as orientações acadêmicas ao trazer formas simplificadas, traços mais tênues e uma proposital falta de relevo às figuras, tornando a obra inaceitável para os críticos da época. Para alguns analistas esta obra tornou-se uma espécie de "obra-conceito" que, dentre outras, deu origem ao movimento impressionista.

"EXECUÇÃO DE MAXIMILIANO"

O Salão de  Paris de 1866 novamente o preteriu, na ocasião Edouard Manet apresentara outro quadro "O pífaro". As razões destas recusas tornaram-se então mais claras, Manet era preterido mais em razão de sua ousadia estética do que por alguma ofensa à moral pública. Por contas destas rejeições, Manet decidiu organizar sua própria exposição e, entre um quadro e outro, eis que se desponta sua obra mais conhecida: a "Execução de Maximiliano"

O quadro "A Execução de Maximiliano" de 1867 é uma espécie de protesto político do artista que se juntou a outros franceses na crítica ao governo de Napoleão III por ter sido negligente com Maximiliano de Habsburgo. Maximiliano foi o interventor escolhido pelos governos europeus, liderados pela França, para assumir o lugar do presidente mexicano Benito Juarez então destituído por não honrar pagamentos das dívidas que os seus antecessores haviam feito. Os nacionalistas mexicanos, liderados por Benito Juarez, resolveram executar Maximiliano logo após sua queda e o restabelecimento do governo Juarez em 1867. 

"A execução de Maximiliano" inspirou-se em um outro quadro do pintor espanhol Goya de 1814 intitulado “Os Fuzilamentos do Três de Maio”, no qual o espanhol registra  o massacre dos revolucionários madrilenos, ocorrido em 1808 pelas tropas napoleônicas que haviam ocupado a Espanha. Manet, que havia visto e se encantado com esta obra numa visita ao Museu do Prado, em Madri, em 1865, optou por homenagear Goya e, em certo sentido, criticar a postura anexionista e belicosa marcantes das monarquias restabelecidas pelo Napoleão em 1804 e pelo seu sobrinho Napoleão III em 1851. A obra foi banida pelas autoridades francesas durante a vida do pintor. Ainda hoje são conservadas em museus estrangeiros, neste momento pode ser vista no Museu de Mannheim na Alemanha. 

Edouard Manet sempre deixou evidente suas convicções republicanas numa França que ainda nutria alguma ilusão com a monarquia, ainda que estivesse França sob os cuidados bonapartistas. Edouard Manet foi vítima da intolerância política do Segundo Império Francês muito provavelmente pelo fato de ter sido um dos mais eloquentes críticos da "farsa de Louis Bonaparte", valendo-se de um quadro que, mais do que ter retratado um caso de regicídio no México, contribuiu para abalar  a autoridade de Napoleão III. Três anos mais tarde, em 1870, Napoleão III recém derrotado pelas tropas alemãs e desgastado politicamente, abdicou e a República, pela terceira vez, foi proclamada na França. 

A injustiça não tardou muito para ser reparada, dois anos antes de morrer Edouard Manet teve sua obra devidamente reconhecida pelos críticos e autoridades francesas, a partir de 1881 suas obras não teriam mais que passar por nenhum crivo para serem expostas no Salão de Paris como "hors concour".

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