15 de dezembro de 2014

O AVANÇO DO TERRORISMO PELO MUNDO

CIRES PEREIRA
 
Na última Assembleia Geral das Nações Unidas, ocorrida no final de setembro de 2014, O Brasil, como era de praxe, foi o primeiro a fazer uso da palavra. Dilma, na condição de Chefe de Estado e de Governo do Brasil, deixou muito clara a posição do seu governo no tocante ao avanço da violência no Oriente Médio, Ásia e norte da África envolvendo governos constituídos e grupos radicais jihadistas como a Al Qaeda, o Boko Haram e o Estado Islâmico. Dilma condenou o recrudescimento das reações bélicas desproporcionais ou assimétricas empreendidas pelos governos para combater dissensões internas (Síria e Ucrânia) ou combater grupos radicais e nações adversárias (Rússia, EUA, Israel). 


Para o governo do Brasil é imperativo que se explore todo o arsenal diplomático antes de fazer uso da força militar. A ação militar projeta mais violência além de vitimar indefesos e inocentes. Exemplo disto a operação militar israelense na Faixa de Gaza que ceifou mais de três mil indefesos moradores.

Lamentou a impotência da comunidade internacional em impedir o avanço do terrorismo na Nigéria (Boko Haram) e nas regiões da Síria e do Iraque com o "Estado Islâmico". Dilma frisou que, após esgotadas as alternativas diplomáticas, a reação militar deve ser equilibrada procurando evitar ou reduzir ao máximo a morte de inocentes e indefesos. As ações militares tem sido perpetradas por um consórcio de nações sob o comando da OTAN/EUA na Síria e no Iraque contra o "Estado Islâmico".

Dilma ressaltou que os ataques podem produzir uma estabilidade no curto prazo mas deixa rastros e cicatrizes de difícil contorno e resolução em médio e longo prazos. Por fim deixou clara a posição do governo do Brasil favorável ao avanço e aprofundamento das negociações diplomáticas e à reformulação do CSNU (Conselho de Segurança das Nações Unidas) no sentido deste tornar-se um instrumento legítimo para as negociações multilaterais e o arbitramento de litígios que eventualmente apareçam.

Como este posicionamento ocorreu durante as eleições (as mais acirradas desde 1989), os oposicionistas não mediram palavras para atacarem o governo, alguns mais empedernidos chegaram a dizer que o governo defendia o terrorismo internacional. O Jornal "O Globo", em editorial intitulado “Palanque em Nova York”, acusou a presidente de usar o “vestido vermelho PT” na ONU e de se colocar ao lado de “sectários muçulmanos, que adotam costumes medievais”. Merval Pereira em sua coluna publicou um artigo intitulado “Uso indevido”, onde escreveu ter sentido “vergonha alheia” pelo discurso de Dilma. Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência posicionou-se totalmente contrário à postura do governo na Assembleia Geral valendo-se da seguinte afirmação: “a presidente propõe negociar com um grupo que está decapitando pessoas", esta não é a política externa que consagrou o Brasil no cenário internacional".

Em hipótese alguma o governo quis ser indulgente com os militantes do E.I. Para o nosso governo a mais adequada solução é a captura, o desarmamento e o julgamento dos capturados em tribunais nacionais e internacionais, neste caso por crime contra a humanidade. Os bombardeios aéreos, ainda que permitidos pelos governos da Síria (até então deslegitimado pelo governo dos EUA), certamente custariam muitas vidas de inocentes aprisionados pelo Estado Islâmico. Esta situação lança uma "cortina de fumaça" sobre o espúrio regime ditatorial de Bashar al-Assad que trava uma guerra contra forças internas apoiadas pelos EUA. Uma guerra que já suprimiu mais de uma centena de milhares de vidas.

O governo do Brasil estava também muito preocupado com a jurisprudência, pois chancelar uma ação militar como significa aceitar outras no futuro, mesmo sem motivos pouco ou nada nobres. Toda a operação na Síria contra o Estado Islâmico ainda não foi debatida pelo Conselho de Segurança da ONU. Seria cômodo para o Brasil abdicar de sua tradicional posição contrária à ação armada, pois o "Estado Islâmico" tem sido muito truculento e avesso a quaisquer negociações. Dilma preferiu assumir o risco. O Brasil não objetaria a uma intervenção armada dos "Capacetes Azuis", como ocorreu no Haiti em razão da guerra civil, caso as negociações não avançassem.

Passados dois meses o balanço feito pelos analistas sinaliza não um recrudescimento do terrorismo no mundo, exatamente o que tinha sido previsto pelo governo brasileiro  em seu posicionamento na Assembleia Geral da ONU. Todo os esforços bélicos (tecnológicos, materiais e humanos), com ou sem autorização do Conselho de segurança da ONU, tem sido  insuficientes para estancarem as ações destes grupos. Senão vejamos:
Segundo o Jornal britânico The Guardian o mês de novembro registrou mais de 664 ações terroristas ligadas aos grupos jihadistas, principalmente no Iraque e na Síria onde atua o EI, na Nigéria (Boko Haram) e no Afeganistão (Al Qaeda) matando 5.042 pessoas, ou seja uma média de 168 mortos por dia. Os dados do The Guardian, fornecem uma perspectiva sobre o custo humano, intensidade, dimensão e distribuição geográfica de um fenômeno que conquistou manchetes e conduzido agendas políticas e de segurança em todo o mundo.
Em dezembro o quadro continua dramático
Dia 01 (Afeganistão): Atentado suicida perpetrado pelos Talebans (vinculado à Al Qaeda) num funeral deixou nove mortos na província de Baghlan
Dia 02 (Quênia):  Militantes do grupo Shebab, vinculado à Al Qaeda, mataram 36 pessoas no nordeste do país.
Dia 04 (Chechênia - Rússia): Rebeldes que lutam pela autonomia da Chechênia, mataram 16 pessoas na capital Grozni.
Dia 11 (Afeganistão):  Dois atentados suicidas, um dos quais contra o centro cultural francês de Cabul, causaram pelo menos sete mortos e cerca de 30 feridos.
Dia 13 (Síria): A auto-proclamada força policial do Estado Islâmico na Síria decapitou quatro homens na cidade síria de Homs, que teriam sido flagrados "blasfemando contra o islamismo".
Dia 14 (Iraque): Quatorze soldados iraquianos capturados pelo Estado Islâmico foram decapitados em Ramadi, capital da província de Al Anbar em poder do EI. 
Dias 14 e 15 (Austrália): Na cidade de Sydney um terrorista, provavelmente vinculado ao Estado Islâmico (há na Austrália mais de uma centena de pessoas cooptadas pelo EI), mantém dezenas de pessoas num "café situado na região central.

Negociar com os lideres e grupos mais moderados e reforçar os órgãos diplomáticos multilaterais e predisposição em ceder são as melhores armas para isolar o radicalismo até eliminá-lo por inanição são as estratégias mais adequadas para tornar o planeta mais plural e tolerante. A ONU,  os governos, as corporações privadas e a sociedade global deveriam se sensibilizar mais diante de apelos de bom senso, como aqueles feitos pelo Brasil na última Assembleia Geral da ONU.

Abaixo análise de todo o discurso feito por Dilma na Assembleia Geral da ONU de setembro 2014:http://www.escritaglobal.com.br/2014/09/analise-do-discurso-de-dilma-na-69.html?q=ONU
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