ENEM: É PRECISO REPARA-LO!

Professor Cires Pereira - Novembro 2014


Os estudantes que participam do Exame Nacional do Ensino Médio precisam saber dos regulamentos do processo. Hoje em dia, a nota do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) é utilizada em vários casos, seja no acesso às instituições de ensino superior ou até mesmo na obtenção do certificado de conclusão do ensino médio.

Comandado pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o "exame", até 2009, servia apenas para avaliar o nível de aprendizado dos alunos que concluíam os estudos. Após 2009 os estudantes passaram a usar os seus desempenhos nas provas para participarem dos processos seletivos do "Programa Universidade para Todos" (ProUni) e do "Sistema de Seleção Unificada" (SISU). Para que tenhamos uma noção do alcance do ENEM, sete milhões inscreveram-se na edição de 2013 do ENEM. Em 2014 mais de oito milhões de inscritos para as provas que aconteceram nos dias 08 e 09 de novembro de 2014.

Muitas instituições de ensino superior (grande maioria) já aderiram ao ENEM, são poucas as instituições refratárias ao ENEM. Quase todas as instituições mantidas pelo governo federal já participam, algumas ocupam todas as suas vagas valendo-se deste exame. É uma boa ideia o ENEM, contudo precisa de reparos urgentes. Esperamos que se torne uma política de Estado e que sempre esteja acima dos interesses deste ou daquele governo, até o momento nenhum dos principais candidatos à presidência da república ousou colocar-se contra o ENEM.

Da forma como se encontra, o ENEM é juridicamente desigual, pedagogicamente equivocado e politicamente burocrático e antidemocrático.

Para torná-lo juridicamente igual, pedagogicamente correto e politicamente democrático, portanto para colocá-lo a altura do Estado de Direito Democrático e alinhado com os que se encontram a frente deste mesmo Estado e à altura das merecidas e justas demandas da sociedade são imperativos alguns reparos.


Cinco Grandes Reparos
1) Data de realização das provas deveria ser nos meses de dezembro ou janeiro, jamais em outubro ou novembro. A justificativa é muito simples, nem todos os participantes terão concluído o programa curricular até o mês de novembro, especialmente os participantes que estão concluindo a 3ª série do Ensino Médio nas escolas públicas. A rede pública tem uma programação pouco flexível para os seus alunos, nelas são raras as aulas de complementação do programa em turno diferente. Para os alunos da 3ª série que estudam à noite, esta conclusão é impossível. Tratando-se de um concurso público para a seleção nas escolas públicas, o princípio da igualdade de oportunidades não está sendo respeitado. É inaceitável como o MEC e o INEP desrespeitam este princípio com a devida leniência Ministério Público Federal.
2) Exceto a "redação" todas as questões do ENEM encontram-se na forma de testes, isto quer dizer que o candidato só disserta na prova de redação. Este formato permite que vagas menos concorridas  sejam preenchidas por candidatos cuja habilidade dissertativa não pode ser comprovada. Muitos novos universitários, persistindo este grave erro seletivo, terão ingressado na universidade apenas "chutando" todas as questões testes e escrevendo qualquer coisa na prova de redação quem não implique em zero. 
3) O desequilíbrio das provas: a prova do Enem  tem a pretensão de abranger os conteúdos das disciplinas ministradas ao longo das três séries do Ensino Médio, contudo esta meta jamais será cumprida enquanto houver uma distribuição quantitativa anacrônica, senão vejamos: Matemática, com 45 questões; Língua Estrangeira com 5 questões, Sociologia, com  média de 6 questões e Filosofia com média de 7 questões*. É preciso que esta distribuição seja revista reduzindo a quantidade de questões para a Matemática e aumentando para as Línguas Inglesas, Sociologia e Filosofia. Penso que todas as disciplinas deverão ter por volta de 15 questões. É igualmente necessário que, em pelo menos 1/4 delas, leve-se em conta a transdisciplinaridade. 
* Provas do ENEM 2011, 2012, 2013 e 2014
4) Tempo de realização das provas: nesta edição de 2014 não foram raras as reclamações dando conta de que o tempo não foi suficiente, considerando o tamanho dos enunciados, o grau de profundidade das questões e os temas abordados. Os candidatos que tiveram uma boa preparação acabem sendo prejudicados. Algumas questões precisaram ser rapidamente realizadas induzindo aos erros que o candidato bem preparado, comumente, não comete. Esta é uma situação em que a avaliação pune quando deveria premiar o bom ou bem preparado candidato. Uma hora adicional pra cada dia de prova parece-me absolutamente razoável, ainda que o ideal fosse provas em pelo menos três dias seguidos.
5)Não há um canal entre os realizadores da prova e a sociedade que permita o diálogo com vistas à alteração de um gabarito ou a anulação de alguma questão. Alegam os realizadores que as questões foram intensamente estudadas e que não há margem para erros. Mas os erros continuam, gabaritos oficiais apresentam discordâncias com os gabaritos feitos por professores do Ensino Médio de todo o país. Contudo o INEP não "arreda o pé" no gabarito apresentado, pois a primeira e última palavra são do INEP. É imperativo que este diálogo seja aberto e que a sociedade civil tenha o seu direito de discordar devidamente restabelecido.
Urge uma mobilização da sociedade civil, sobretudo dos potenciais participantes dos próximos ENEMs, para que as autoridades revejam estes pontos e outros. Reitero que o ENEM é uma boa ideia e deve continuar, desde que reparos sejam feitos. Por enquanto é preferível o formato tradicional dos processos seletivos como aqueles que continuam sendo adotados pela UNESP, UNICAMP e FUVEST.

Selecionam melhor, dialogam com a sociedade, dispondo-se a reverem seus gabaritos, e garantem o princípio da igualdade de oportunidades. Eles dificilmente acontecem antes do final de novembro, assegurando o princípio da isonomia para os estudantes que estão concluindo o Ensino Médio, as provas são divididas entre questões testes e questões discursivas e o tempo de realização das provas tem sido suficiente. 

Comentários

Cires Pereira disse…
'Luiz Miranda escreve:

Professor, já discuti alguns pontos desses ano passado, e insisto: não concordo com nenhum ponto levantado pelo senhor, todos são de propósito.

1. O ENEM é a fronteira entre o ensino médio e o superior. Mas o processo de seleção em si tem uma duração considerável, entre aplicação, correção, e seleção. E tanto a escola superior quanto a média começam seus calendários ao mesmo tempo. A realidade do senhor é a do ensino médio, mas tem mais do que isso. Alguém tem que se adaptar ou ser sacrificado. E nessa historia quem "paga" a conta é o ensino médio, não tem como mudar a data do ENEM sem alterar TODO o calendário do ensino superior, o que causaria ainda mais efeitos colaterais. Simples.

2. O senhor está sendo leviano ao criticar o TRI. Contra fatos, não há argumentos. O TRI tem uma SUPER base estatística, é aceito mundialmente de forma natural. Não entendo a insistência em dizer que ele não tem base. 2 semana a trás o senhor falava em virada eleitoral quando as pesquisas mudavam 1 ponto, e agora vem tirar um mérito de um método com base estatística infinitamente mais elaborada que as pesquisas eleitorais? Não faz o menor sentido. Se questões abertas fosse realmente tão melhores, o que explica que TODOS os exames do porte do ENEM fogem delas? Temos que lembrar que vivemos em um mundo real, onde o "como fazer" é tão importante quanto a teoria.

3. O ensino médio brasileiro precisa de uma reforma urgente. Hoje ele é um remendado de muitas matérias e conteúdos, dificultando a vida das escolas e engessando as grades horarias. O senhor sabe disso melhor do que eu. Não que sociologia, filosofia, artes e afins não sejam importantes, mas voltamos ao "como fazer" de novo. O Colégio Nacional consegue ter essa estrutura. mas 95% das escolas brasileiras não consegue. Uma prova do enem com questões de "Línguas Inglesas, Sociologia e Filosofia" não condiz com a realidade brasileira.

4. O tempo não é pouco: a prova é feita para ser extensa. O TRI precisa disso. O critério "resistência" é tão valido quanto "profundidade de conhecimento", mas a escola "tradicional" teima em não aceita-lo. Além disso, uma prova extensa é muito mais coerente com o nosso ensino médio entupido de conteúdos, não concorda? Esse é o melhor exemplo do tanto que é importante conhecer o ENEM antes de faze-lo. Bem preparado é o aluno que sabe que a prova vai ser longa e vai preparado para isso. Bem preparado é o aluno que antes da prova senta e pensa: "o que o ENEM quer de mim?". Na minha opinião e experiência, quem pensa está MUITO mais preparado para o ensino superior ( e o mercado de trabalho) do que aquele aluno que apenas estuda sistematicamente, sem analisar sua situação. É uma utopia querer esse grau de maturidade de um aluno do ensino médio? Sim, mas nada vai mudar sozinho. O ENEM tem toda uma filosofia por trás, e é muito inteligente, por sinal.

5. E mais uma vez voltamos ao "como fazer". No que se refere a correção da redação, o ENEM dá MUITO mais direitos do que qualquer um vestibular ou processo seletivo que eu fiz. 6 milhões de pessoas fizeram a prova do enem esse fim de semana. É quase a população da segunda maior cidade do Brasil. Nós dois sabemos que se dá espaço, vão ter milhares de pessoas que vão querer tirar proveito da história. O senhor pode pensar no melhor do ensino no Brasil, mas muitos vão pensar em outros melhores.

Não esperava tal postura do senhor, pelo menos não em relação aos pontos 2, 4 e 5. O senhor tem MUITO mais vestibulares de experiencia que eu, devia dar mais valor nos avanços.
Cires Pereira disse…
Cires Responde a Luiz Miranda

SOBRE O ENEM: Carta ao amigo Luiz Miranda

Oi Luiz Miranda obrigado pelos apartes, tentarei responde-los, alguns confesso que tens razão. Antes de qualquer coisa concordo com o conceito, a pertinência e as intenções do ENEM (sempre fui contrário aos “bairrismos”, pois penso que um amapaense deve ter as mesmas oportunidades que tem um uberlandense quando disputam uma vaga na UFU e vice-versa), tal concordância por si só já me credencia a sugerir reparos.
O ENEM por se tratar de um processo seletivo universal e unificado sempre terá meu aplauso o que não quer dizer que ele não precise de reparos como os supracitados em meu texto. Mesmo não sendo "expert" no assunto, penso que minha experiência de 22 anos como docente no Ensino Médio e nos Pré-vestibulares me credencia a, pelo menos, sugerir reparos.

Vamos aos pontos:

1) “Você diz alguém tem que se adaptar ou ser sacrificado”( ... )“e quem paga a conta é o ensino médio”( ...) nunca “o ensino superior”. Ora Luiz você claramente reconhece que alguém neste formato perde e tem que ser o ensino médio e nunca o ensino superior e ainda sentencia “simples”. O que sugeriu é muito grave, pois aplica um dito popular eticamente repreensível “meu pirão, eu vi primeiro”, em outras palavras danem-se os outros. Saiba que em todas as séries do Ensino Médio é estabelecido um mínimo de 200dias letivos, logo é quase impossível que as aulas possam começar antes do final de janeiro, logo é inimaginável que a programação seja cumprida antes do final de novembro em razão dos finais de semanas, dos processos avaliativos e das aulas em um só turno. Numa escola particular de ensino médio (minha realidade)é possível cumprir antes por conta de atividades extra-turnos e da flexibilidade, mas na rede pública é impossível e o que sugere é exatamente isto, “danem-se os alunos da rede pública, pois pra você alguém tem que se sacrificar”.

2) Compreendo e reconheço os avanços do TRI, contudo tenho direito de dizer que não me parece ser o mais adequado, para mim quaisquer processos seletivos que prescindam de questões discursivas deixam hiatos e provocam distorções que comprometem a natureza de sua própria seletividade. Neste sistema atual do ENEM posso te afiançar que muitos jovens estão ingressando no curso superior sem pré-requisitos básicos como compreensão e construção de textos o que o torno inapto para um curso superior. Informo que VUNESP, FUVEST, UNICAMP, UFU (meio do ano) e outras instituições não abandonaram as questões discursivas.

3) O que você sugere é a supressão destas disciplinas no Ensino Médio, com todo respeito uma proposição como esta deveria vir minimamente fundamentada pra que eu pudesse debater com você a respeito. Dizer que sociologia, filosofia não condizem com a realidade brasileira é no mínimo questionável, não acha?

4) Penso que é possível fazer uma prova seletiva tanto com quinze quanto quarenta e cinco questões de matemática, não me parece que aquele que prima pela quantidade esteja sendo inteligente, ainda mais que esta situação impede que se avalie o mesmo aluno em suas outras habilidades e competências, afinal de contas (como escrevi) sobram pouco espaço ou poucas questões para língua estrangeira, sociologia e filosofia a não ser que estas sejam banidas do currículo, mas ai voltamos ao item 3.

5) O fato de sugerir reparos a meu ver significa dar valor ao que existe e não o contrário como vaticina: “devia dar mais valor nos avanços”, de qualquer modo tem você todo o direito de pensar que os propugnadores da reforma (como deixei claro em meu texto) sejam refratários à novidade e eu todo direito de considerar que seu pensamento esteja, por isso mesmo, equivocado. Viva o contraditório!