ISIS: O ESTADO ISLÂMICO NO IRAQUE E NA SÍRIA

CIRES PEREIRA
Abu Bakr Baghdadi - "o Califa de todos os muçulmanos" -  Photo: REX FEATURES
Todas as atenções nos últimos dias estão voltadas para  início da ação militar envolvendo vários países sob a liderança dos EUA que visa conter e destruir o ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria) ou EIIS (Islamic State in Iraq and Syria) em regiões iraquianas e sírias. No dia 24 de setembro o exército nigeriano confirmou a morte do líder do grupo armado Boko Haram, Abubakar Shekau, o que pode significar o início da contenção definitiva dos jihadistas que avançam na Nigéria.

Este texto, pretende abordar e analisar o avanço dos jihadistas do ISIS no Iraque e na Síria que também integra o conjunto das principais preocupações no mundo, que ainda procura saídas para debelar por completo a crise econômica iniciada em 2008, como o vírus Ebola, na região ocidental da Africa, as incursões do Boko Haram na Nigéria, a guerra separatista no leste ucraniano, a guerra civil síria e a questão palestina


ESTADO ISLÂMICO NO IRAQUE E NA SÍRIA

A ideia dos jihadistas sunitas conduzidos por Abu Bakr Baghdadi - "o Califa de todos os muçulmanos" - é empreender um califado ou império que congregue os sunitas do Iraque e do Levante, cujas fronteiras imaginárias transcendem as fronteiras da Síria. Abu Bakr al Baghdadi é o líder do movimento por um Estado islâmico e sunita no Iraque e no Levante (Síria, Líbano, Israel, Palestina, Jordânia, Chipre e sul da Turquia). 

No início de 2014, o Estado Islâmico declarou que o território sob seu controle passaria a ser um Califado, um forma islâmica pautada na "Sharia" (lei Islâmica) de governo que foi abolida em 1924 caracterizada pela unidade política do mundo islâmico e que se sobrepõe às fronteiras nacionais.  Discordando desta estratégia, a Al Qaeda, optou por romper com o seu principal líder no Iraque, o auto-nomeado "Califa do ISIS" Abu Bakr Al Baghdadi.

Observem os mapas 1 e 2


O mapa acima nos dá uma percepção mais ampla das pretensões do ISIS na regiões do Iraque e do Levante. Na área hachurada a presença de seus militantes é mais consistente dois anos e meio após a retirada dos soldados americanos no Iraque determinada pelo presidente americano Barack Obama em 2011. Os soldados dos EUA ocuparam o Iraque entre a queda do regime de Saddam Houssein em 2003, executado em novembro de 2006, e 2011. 

As acirradas disputas políticas e as operações militares constituem as faces mais evidentes de uma nação marcada pela instabilidade, pelo agravamento da crise social e econômica e pelo ressentimento. Um cenário propício para o avanço do fundamentalismo islâmico defensor de uma "Jihad" ou uma cruzada sem tréguas contra o imperialismo ocidental (inimigo de Allah) e favorável a  uma ordem política subalterna à uma leitura ortodoxa do "Alcorão". Os militantes do ISIS são sunitas e consideram os xiitas infiéis e pregam uma "jihad " que teria como primeiro passo a  eliminação dos xiitas. Aparentemente um paradoxo, pois historicamente os sunitas, que são maioria entre os muçulmanos, apregoam uma conduta mais pragmática e flexível com os demais povos e religiões. Somente no Iraque e no Irã os sunitas são minoritários.



PROGRESSÃO DO ESTADO ISLÂMICO NO IRAQUE

Em dezembro de 2011, quando as tropas americanas deixaram o Iraque, o Estado Islâmico liderado pelo Abu Bakr al-Baghdadi, até então  uma célula da Al-Qaeda no Iraque formada em 2003, empreende alguns atentados provocando a  morte de 60 pessoas. Em 2012 estes atentados tornaram-se mais frequentes e consistentes no Noroeste do Iraque (área rosa), no final deste ano avolumaram-se os protestos comandados pelos sunitas que se sentiam marginalizados pelo governo de coalizão, comandado pelos xiitas, e avalizado pelos EUA. A crise então se agravou, ao longo de 2013 foram quase 10.000 mortos em razão dos combates entre tropas do governo, militantes do EI e forças curdas.

Em janeiro de 2014 o EI passam a controlar Falluja e parte de Ramadi, duas das mais importantes cidades do Iraque, causando um grande número de fugas de seus moradores. Em maio, logo depois das eleições legislativas, o Estado Islâmico avança sobre Samarra (110 km de Bagda), mas malogram diante da reação das forças governamentais. Em Junho o EI se apodera de Mossul e da Província de Nínive além de Kirkuk e Trikrit capital da província de Salahedin. O governo do primeiro-ministro iraquiano, o xiita Nouri al-Maliki tem recebido auxílio do governo iraniano (xiita) nas operações de contenção do EI em Tikrit, Najaf e Karbala. Os EUA até recentemente se limitavam em auxiliar a força aérea iraquiana no norte do Iraque.

PROGRESSÃO DO ESTADO ISLÂMICO NA SÍRIA

O avanço do do EI ou ISIS na Síria está intimamente associado à ofensiva civil contra o regime ditatorial de Bashar Al-Assad. Há quase três anos a Síria tem sido palco de uma guerra civil que já custou as vidas de quase 200 mil pessoas, apesar dos apelos ocidentais e do agravamento da crise social e econômica Bashar se nega a deixar o governo. Dentre os grupos que combatem Bashar Al-Assad que conta com o respaldo dos xiitas sírios e do governo do Irã (Xiita) destacam-se os sunitas moderados (apoio dos EUA, da Turquia, etc) e os sunitas jihadistas divididos entre os simpáticos à Al Qaeda e os simpáticos ao ISIS (dissidência da Al Qaeda em fevereiro de 2014), além da minoria curda que habita o leste da síria nas fronteiras com o Iraque e a Turquia.

Desde junho de 2014 forças vinculadas ao EI do Iraque na Síria tem avançado de forma muito consistente e rápida nas regiões sírias. No dia 24 de agosto, após intensos combates que deixaram 500 mortos, a base militar de Tabqa, do governo sírio foi tomada pelo EI. Desde então o governo sírio passou a ter sérias limitações para realizar ataques na região noroeste do país. Muitos curdos estão evadindo para a Turquia (país membro da OTAN - Organização do Tratado Atlântico Norte - liderada pelos EUA) que também tem sido o destino principal dos refugiados sírios.

A REAÇÃO DO "OCIDENTE"

Diante do avanço do EI na Síria o governo dos EUA, que já havia autorizado ataques aéreos contra alvos do EI no Iraque desde julho, determinou operações semelhantes na Síria agora em setembro.  Em outro flanco o governo americano anunciou o envio de mais recursos para o "Exército Livre" que é o braço armado das forças moderadas que lutam contra o regime de Bashar Al-Assad. 

Analistas já dão como não mais improvável uma reaproximação entre os governos da Síria, dos EUA e até do Irã contra o Estado Islâmico. O governo dos EUA parece temer que o jihadismo sunita tome conta de todo o Iraque e o Levante se não forem contidos de uma forma ou de outra. O curioso nesta história é que por muito tempo os "democratas americanos" defenderam o diálogo como a melhor forma para isolarem e deterem os radicais árabes, particulamente o xiitismo. Com os atentados de 2001 perpetrados pelo Al Qaeda (sunitas radicais anti americanos e jihadistas), o diálogo começou a ser sobreposto pelo uso da força como se viu no Afeganistão e no Iraque desde então. 

Grupos como o ISIS ou EI, Al Qaeda, Boko Haram e Hamas avançam cooptando jovens que se prontificam a abdicar de suas vidas em favor de uma jihad cada vai se tornando cada vez mais disforme, multifacetada e violenta. Uma jihad que ganha terreno em resposta às ofensivas igualmente infames como a israelense em Gaza, do governo Bashar na Síria, e dos governos árabes aliados dos EUA, como o egípcio, saudita, ienemita, jordaniano e iraquiano.

No próximo texto, a ser publicado proximamente, argumentarei em favor da pertinência do apelo do governo brasileiro, expresso na 69ª Assembleia Geral da ONU, por uma saída pacífica para estas questões.
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