UM PLANO ALTERNATIVO PARA O FIM DA GUERRA

CIRES PEREIRA


Todos os recursos diplomáticos já foram acionados para o fim do conflito em Gaza e nenhum logrou êxito. Isto não chega a ser surpreendente, afinal de contas as diplomacias e os órgãos multinacionais sempre esbarraram em duas poderosíssimas limitações, a saber: as conveniências políticas das lideranças político-governamentais e as conveniências econômicas das grandes corporações privadas. Os governantes, comumente, se apresentam como lideranças com autonomia para decidirem, contudo jamais agem contrariando as decisões dos parlamentos respectivos e contrariando seus grandes credores privados bem como os grandes investidores privados. Em última instância governam para estes setores, mesmo que insistam em dizer que não. Obama, Cameron, Netanyahu, Merkel, Hollande e Putin não são 1% daquilo que aparentam ser e não tem 10% da autonomia que se esforçam para dizerem que possuem.

O governo dos EUA "pela manhã" condena ataques israelenses sobre civis indefesos, como exemplos algumas escolas mantidas pela ONU que tem servido de abrigo aos indefesos palestinos, entretanto "à tarde", entre uma e outra declaração justificadora da ação israelense, chancela outro envio de armas para as Israel

Os governos europeus que fazem parte do consórcio OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) mantem-se em "silêncio obsequioso", pois não podem contrariar o seu Big Brother americano. Grande parte dos governos árabes, como o egípcio, o saudita e o jordaniano, limitam-se, entre um lamento e outro e entre uma declaração e outra pelo fim das hostilidades em Gaza. Estes governos não ousam distanciarem-se de seus lugares-comum, em suma, alinham-se também com os EUA/Israel. Até o presente momento temos acompanhando que as vozes dissonantes tem vindo aqui da América Latina. Os governos do Brasil, da Venezuela, da Bolívia, do Equador, do Peru e de El Salvador determinaram o retorno de seus respectivos embaixadores em Israel. O governo venezuelano se dispõe a acolher órfãos palestinos.

A ONU, cujo Conselho de Segurança se nega a uma sanção contrária aos EUA ou contrária a quaisquer um de seus aliados, continua emitindo notas de pesar pelos mortos e suplicando para o fim das hostilidades. A ONU tem assistido inerte e impotente aos desvarios israelenses sobre os indefesos palestinos. Até o momento o único progresso foi a criação de uma comissão para averiguar os "indícios de crime contra a humanidade em Gaza", comissão criada sem os avais dos EUA e da União Europeia.

O Hamas, em sua estúpida e suicida estratégia belicosa, se nega a uma negociação com o Fatah e não se verga. Sua estupidez é flagrante, pois deveria aproveitar este momento e aceitar uma trégua de pelo menos 72 horas para articular com o Fatah e a Autoridade Palestina uma mobilização mundial contra o massacre em Gaza. O Hamas dever-se-ia admitir a sua limitação bélica pra enfrentar Israel e, urgentemente, seguir os passos do Fatah depondo as suas armas e se organizar como uma organização política e caminhar para uma negociação visando uma convivência pacífica com israelenses na região, não há outra opção. O Hamas ao insistir na tese de não reconhecimento do Estado Judeu acaba sucumbindo ao limbo ou ao ostracismo "ad eternum". 

Isto vale pra todas as organizações defensoras de uma ordem teocrática, seja lá quais forem as suas designações religiosas e pra todas as organizações que pleiteiam um isolamento geopolítico frente ao mundo cada vez mais integrado. Boko Haram e ISIS (Estado Islâmico do Iraque e Levante), Talibãs não podem mais ter espaços num mundo onde são imperativos os direitos à liberdade em todos os sentidos, a igualdade de gêneros e a tolerância. A sobrevivência destas organizações, além de outras como o Hamas, o Hezzbollah, o Al-Qaeda, precisam estar condicionadas ao respeito pleno à Declaração Universal dos Direitos Humanos e à uma ordem mundial multiplural, multicultural e democrática. Condições que também valem para as potências ocidentais, Síria, Irã e Israel.

A mobilização, ainda que espontânea, já começou em vários cantos do mundo. A mobilização precisa ser pacífica, para tanto é imperativo a cooptação de grande parte das mídias para um processo que vise isolar Israel. Este parece ser o melhor caminho. Alguns governos já declararam solidariedade ao povo palestino e já posicionaram contra o que Israel tem feito. É preciso juntar governos solidários e estas mobilizações populares  numa campanha mundial pelo fim imediato da guerra Gaza. É igualmente imperativa a campanha pelo fim do terrorismo orquestrado por grupos fanáticos e/ou radicais e pelo desarmamento mundial. Este deve começar pela destruição dos estoques nucleares em poder de Israel, Índia, EUA, OTAN e Rússia. Impõe-se também uma mobilização internacional pela reestruturação da ONU nos moldes propugnado pelos BRICS em sua VI Cúpula realizada no Brasil em Julho de 2014. A ONU, para os BRICS, deve ser um órgão multiplural e multipolar, que tenha soberania para arbitrar as nações e seus eventuais evitando guerras que ameacem a paz, a segurança e o bem-estar dos povos no mundo. Não vislumbro outro caminho mais exequível do que este que, a meu ver, está em consonância com a Carta de Fortaleza, firmada pelos líderes dos BRICS em recente Cúpula realizada no Brasil.

Neste início de mobilização parece-me possível contar com os governos dos BRICS (Brasil, Índia, Rússia, China e África do Sul) além da maior parte dos governos da América Latina que se posicionaram com as legítimas demandas acima citadas. Dependendo da intensidade, frequência destas mobilizações, alguns governos na Europa, no Oriente Médio e na Ásia, tenderão a aderir, sob pena de serem sobrepostos pelos seus próprios governados.

À luta cidadãos e cidadãs decentes, pacíficos e desejosos por mundo melhor e pacífico, esta é a hora!
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