UCRÂNIA, GAZA E "GODOT"

Cires Pereira


Vladimir e Estragon esperem Godot
Prezados leitores e leitoras, republico o texto de Kenneth Maxwell "Esperando Godot" , nele Kenneth debruça sobre os dois fatos que mais tem chamado a atenção da comunidade internacional: a Guerra em Gaza e a Guerra no leste da Ucrânia. http://www1.folha.uol.com.br/colunas/kennethmaxwell/2014/08/1496869-esperando-godot.shtml Em seguida apresento algumas necessárias ponderações sobre o texto.
"Esperando Godot" 
Kenneth Maxwell (Tradução de PAULO MIGLIACCI)
Sobre o autor:
Kenneth Maxwell é historiador britânico graduado em Cambridge (Reino Unido) com doutorado em Princeton (EUA). Referência na historiografia sobre o período colonial brasileiro, foi diretor dos estudos latino-americanos no Conselho de Relações Exteriores (NYC) e diretor de Estudos Brasileiros na Universidade Harvard (EUA). 
"Esperando Godot" é uma peça de Samuel Beckett na qual Vladimir e Estragon esperam interminavelmente e em vão pela chegada de alguém chamado Godot. A peça estreou em janeiro de 1953 no Théâtre de Babylone, em Paris. Beckett em seguida traduziu seu texto original do francês para o inglês, e a peça estreou em Londres em 3 de agosto de 1955, no Arts Theatre. Irlandês, Beckett recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1969. O romancista, dramaturgo e diretor de teatro de vanguarda morreu em 1989 na Irlanda. Suas obras eram sombrias, tragicômicas e se tornaram cada vez mais minimalistas. 
Beckett viveu a maior parte de sua vida adulta em Paris. Depois da ocupação alemã em 1940, ele se integrou à resistência francesa. Quando sua unidade foi traída para a Gestapo, ele fugiu para o sul, para a pequena aldeia de Roussillon, no departamento de Vaucluse, na Provence-Alpes-Côte d'Azur. Raramente falava sobre esse período de sua vida. Em 1945, foi condecorado com a Croix de Guerre. 
O presidente russo Vladimir Putin e o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu estão se comportando mais ou menos como os maltrapilhos mendigos Vladimir e Estragon. Não que algum deles pareça reconhecer o fato. O presidente Obama, em conversa privada ouvida por jornalistas franceses em novembro de 2012, disse ao presidente Nicolas Sarkozy, falando sobre Netanyahu, que "você está cansado dele, mas eu tenho de lidar com ele com muito mais frequência que você". A situação só piorou, de lá para cá. 
Gaza vive só mais uma de suas crises. O governo israelense demonstra desdém escancarado por Obama e pelo secretário de Estado John Kerry, mas o Congresso dos EUA apoia Israel e o que quer que os israelenses façam. Putin demonstra igual desprezo por Obama. 
O Brasil não criticou a Rússia por sua anexação da Crimeia ou pelo apoio continuado à insurgência no leste da Ucrânia. Os companheiros do Brasil no grupo Brics tampouco o fizeram. O Brasil criticou Israel "vigorosamente" pelo "uso desproporcional de força" em Gaza. Em resposta, Yigal Palmor, do Ministério do Exterior de Israel, definiu o Brasil como um "anão diplomático". O Hamas demonstra igual intransigência, e por motivos históricos igualmente poderosos. 
Os problemas de Gaza e da Ucrânia são tão perigosos exatamente porque todos os lados têm posições inamovíveis, fortalecidas por certezas quase bíblicas ou nacionalistas, e se aferram a objetivos imutáveis e inflexíveis, pelos quais é muito mais fácil lutar e insultar do que buscar qualquer compromisso duradouro. 
Como os sombrios personagens de Beckett, todos eles esperam em vão, e interminavelmente, por Godot. 


Penso que colocar numa mesma dimensão o que se passa em Gaza, na Crimeia e no leste da Ucrânia é um tanto quanto temerário. Não há nenhuma relação entre o avanço das tropas israelense contra o Hamas em Gaza e a secessão dos crimeanos frente à Ucrânia e a reação armada dos ucranianos no leste contra as tropas de um governo visto por estes rebeldes como golpista e ilegítimo. Os crimeanos fizeram um plebiscito no qual mais de 80 % disseram que não queriam mais fazer parte de uma nação cujo governo pouco se importa com suas demandas. Em seguida os crimeanos optaram em participar da Federação Russa, mas com uma identidade jurídica autônoma. Não houve enfrentamento militar importante, que configurasse uma situação de guerra entre ucranianos e crimeanos, pois o governo ucraniano sempre soube que seria "dar murro em ponta de faca". Ora o governo russo optou por “acolher” os crimeanos. 

Não estou sugerindo que o governo russo seja apenas um “bom mocinho” tampouco ignorando as aspirações de Putin sobre o leste europeu. As intenções da Rússia no leste europeu não são muito diferentes das intenções da OTAN e da União Europeia. Ver semelhança entre Putin e Netanyahu frente aos dois eventos, como faz Kenneth Maxwell, é um equívoco. O Brasil, como dá a entender o texto, não alinhou aos russos contra a União Europeia. Ao contrário, o Brasil tem defendido uma ordem pluriplural e multipolar como fez em recente reunião de cúpula dos BRICS. A Carta de Fortaleza, documento extraído das reuniões na VI Cúpula dos BRICS, exprime mais as posições brasileiras do que propriamente as posições dos russos e chineses. Claro que não se pode iludir com apenas o que está no papel, contudo o Brasil poderá fazer uso deste mesmo texto caso se depare com atitudes estranhas ao texto dos demais membros dos BRICS e vice-versa.



Gaza

O governo brasileiro, ao contrário da França Inglaterra e EUA, reconhece movimentos separatistas enquanto expressões do desejo de liberdade e autodeterminação de uma comunidade local, como é o caso de Gaza. Os palestinos têm sido vitimados pela sanha colonizadora de Israel, com os amparos destes governos. Na guerra que ora ocorre em Gaza, é patente o uso da força sobre civis indefesos por parte de Israel que alega ser esta a única maneira de enfrentar o Hamas. Estamos diante de um crime contra a humanidade, mas Kenneth Maxwell parece não ver deste modo, do contrário teria aplaudido a posição brasileira. O Brasil, mesmo que Kenneth Maxwell ignore isto, criticou o radicalismo dos dois lados. Em seguida o Brasil, acertadamente, votou favorável a uma investigação sobre a ação israelense, tendo como base os indícios transmitidos pelas grandes redes de televisão e determinou o retorno de seu embaixador que servia em Israel.

O texto de Kenneth Maxwell chega a ser indulgente com a posição das potências ocidentais lideradas pelos EUA que é, esta sim, favorável à Israel e à União Europeia, logo contrária aos palestinos e aos ucranianos no leste, por entender que os dois lados tem razões que se equiparam. Quanto à Palestina, concordo com a tese de dois países vivendo em paz na Palestina, mas é inaceitável que ainda existam colônias de judeus em Gaza e Palestina, neste ponto Israel tem uma razão que devia ser abominada e não equiparada, com o desejo de liberdade e de sobrevivência dos palestinos. A sanha israelense excita a reação destemperada do Hamas. 

O único caminho para conter radicalismos dos dois lados é o da negociação, como defende a VI Cúpula dos BRICS, expressa no item 38 da Carta de Fortaleza de Julho de 2014:
“38. Reafirmamos o nosso compromisso de contribuir para uma solução abrangente, justa e duradoura do conflito árabe-israelense, com base no marco jurídico internacional universalmente reconhecido, incluindo resoluções relevantes das Nações Unidas, os Princípios de Madrid e a Iniciativa de Paz Árabe. Acreditamos que a resolução do conflito israelo-palestino é um componente fundamental para a construção de paz duradoura no Oriente Médio. Conclamamos Israel e Palestina a retomar as negociações conducentes a uma solução de dois Estados, com um Estado palestino contíguo e economicamente viável, existindo lado a lado e em paz com Israel, dentro de fronteiras mutuamente acordadas e reconhecidas internacionalmente com base nas linhas de 4 de junho de 1967, com Jerusalém Oriental como sua capital.(...)”

Ucrânia


Quanto ao leste ucraniano é publico e notório que a maioria de seus habitantes continua tendo mais laços com a Rússia desde a extinta URSS, do que com Kiev. Recentemente houve uma importante mobilização no ocidente ucraniano contra o governo pró-Rússia que culminou na sua destituição. Desde então instalou-se um governo identificado com a política neoliberal e com o estreitamento de laços com a União Europeia. A maioria dos ucranianos no leste, que sempre apoiaram o governo destituído, sentiu-se também no direito de não mais continuar fazendo parte de uma nação governada por um governo golpista e pró-EUA/OTAN. Como não houve acordo, a guerra civil explodiu. Os separatistas tem recebido apoio da Rússia em sua luta contra o governo em Kiev que por seu turno tem recebido apoio das potências ocidentais.

O Governo do Brasil, reiteradas vezes, tem suplicado por uma solução pacífica na Ucrânia, portanto não está tomando partido favorável aos rebeldes ou ao governo ucraniano.

A decisão dos BRICS para o leste ucraniano é uma decisão colegiada e indicativa - os BRICS não têm (e não poderiam ter mesmo) as prerrogativas do Conselho de Segurança da ONU, não poderiam tomar uma medida contra a guerra, embora tenham se posicionado em defesa de negociações que ponham fim ao litígio, senão vejamos o que diz o item 44 da Declaração de Fortaleza assinada pelos BRICS na VI Cúpula em Julho de 2014:
“44. Expressamos nossa profunda preocupação com a situação na Ucrânia. Clamamos por um diálogo abrangente, pelo declínio das tensões no conflito e pela moderação de todos os atores envolvidos, com vistas a encontrar solução política pacífica, em plena conformidade com a Carta das Nações Unidas e com direitos humanos e liberdades fundamentais universalmente reconhecidos”.
Um efeito imediato destas escaramuças entre a Rússia, a UE e os EUA já será notado no Brasil, o aumento da corrente comercial entre Brasil e Rússia. Como os EUA impuseram sanções à Rússia, o governo Putin anunciou que restabelecerá a importação de carnes do Brasil. Outro movimento tem sido feito pelo governo da Alemanha que estaria interessado em estreitar vínculos e quem sabe até integrar os BRICS. Eis dois claros sinais, mesmo que ainda pequenos, de um bloco que poderá contrapor-se à UE e EUA.


CONCLUSÃO

Ao longo dos "oitocentos" e início dos "novecentos" o Império Britânico e a França espalharam seus tentáculos imundos e abjetos sobre as populações indefesas espalhadas na Ásia e na África. Depois das guerras, estes mesmos países tiveram que passar o “bastão” ou o “porrete” para os EUA que então tornaram-se o “garantidor de uma ordem internacional que pudesse atender aos propósitos do capitalismo ocidental”. Desde então, Inglaterra e França tem se limitado a aquiescerem com os EUA, aplaudem os pleitos dos EUA bem como justificam suas ações. EUA, Inglaterra e França querem um Oriente Médio estável com governos dóceis, a começar por Israel, e um Europa Oriental alinhada com o Ocidente. Os movimentos da China e da Rússia tem abalado esta estabilidade. Assim os posicionamentos de outras potências como a Alemanha e o Japão bem como dos demais membros dos BRICS (Índia, África do Sul e Brasil), podem fazer muita diferença. 

Que Beckett me perdoe, mas ...

Quem sabe "Godot" não esteja chegando também? 
0