11 de agosto de 2014

TERRORISMO E TEOCRACIA

CIRES PEREIRA


Confesso que preferiria noticiar e falar sobre o estabelecimento de um Estado democrático na Síria ou no Egito; a edificação de um Estado laico no Sudão; o reconhecimento de um país soberano por toda comunidade internacional, como o Curdistão, ou então acordos que puseram fim aos conflitos na Ucrânia e em Gaza. Lamento, leitores e leitoras, mas ainda estamos longe disto. 

Apresento-lhes alguns casos que tem exigido dos analistas muita atenção e tem despertado muitas preocupações no mundo inteiro, na Nigéria, na Síria e no Iraque. Nestes países temos acompanhado o avanço de organizações político-religiosas que apregoam uma ordem teocrática que em muito se assemelha ao regime implantado no Afeganistão pelos Talibãs entre 1996 e 2002. Nesta primeira parte analisarei o quadro na Nigéria e subjacências onde atua a milícia jihadista "Boko Haram.

NIGÉRIA


O Califado de Sokoto e a origem do Boko Haram 

O Boko Haram não é obra do acaso, vejo-o como uma continuidade de uma mobilização iniciada há mais de 110 anos contra as forças colonialistas ocidentais que se impuseram na região após destruírem quase todas as instituições locais, dentre elas o Califado de Sokoto.

O Califado de Sokoto abrangia um território com 200 mil km² localizado na África Ocidental na transição do deserto do Saara com as regiões úmidas da floresta equatorial (Níger e nortes da Nigéria e de Camarões). Este "vasto império" foi fundado em 18014 pelo Sultão Usman Dan Fodio que ampliava suas fronteiras recorrendo às "jihads" (guerras santas) empreendidas pelos "fulas", grupo étnico-linguístico do norte da Nigéria. Em 1903 o Califado foi desbaratado pelas forças militares colonialistas provenientes da França e da Inglaterra. Estes dois países dividiram entre si toda a região do "Sahel" que compreende os territórios africanos ao sul do Deserto do Saara.

Em azul: Antigo Califado de Sokoto e área de atuação do Boko Haram

Nos países situados no vasto Deserto do Saara (norte do continente) e no Sahel (Norte da África Subsaariana) predomina a religião islâmica. Neste sentido o Califado de Sokoto cumpriu um papel importante na disseminação e fixação do islamismo em toda a região da África Ocidental. Aproximadamente 18% da população de todo o continente residem na Nigéria (160 milhões de habitantes) e no Níger (20 milhões de habitantes). No Níger (ex-colônia francesa) 98 % da população professam o islamismo e na Nigéria (ex-colônia inglesa) o islamismo tem quase 80 milhões de fiéis (50% da população), enquanto os seguidores do cristianismo perfazem 60 milhões.



Uma nação dividida entre cristãos e muçulmanos


Em verde: regiões predominantemente muçulmanas e, hachuradas, de maior atuação do Boko Haram

Nigéria é uma ex-colônia inglesa, um país rico em petróleo e localizado na África Ocidental e a nação mais populosa da África, com 160 milhões de habitantes. A expectativa de vida não passa dos 47 anos, mais de 30 % são analfabetos e a miséria acomete 70 % da população. Mais de 80 milhões de nigerianos professam o islamismo e aproximadamente 60 milhões professam o cristianismo.

Desde 2002, quando foi criado, os milicianos do "Boko Haram" tem cometido atentados, sequestros e assassinatos. O Boko Haram ("a educação ocidental é proibida") luta contra o governo legal e legítimo da Nigéria e prega a criação de uma Teocracia Islâmica. O nome oficial do grupo é "Jama'atu Ahlis Sunna Lidda'awati wal-Jihad", que quer dizer, em árabe,  "Pessoas comprometidas com a propagação dos ensinamentos do Profeta e da Jihad". Em 2009 tropas do governo mataram Mohammed Yusuf, fundador da organização na região Maiduguri. Desde então, o seu novo líder, Abubakar Shekau, determinou a intensificação das ações nas regiões central e norte da Nigéria, sobretudo contra cristãos, muçulmanos não fundamentalistas e órgãos públicos. O número de recrutados para a "Jihad" ou "Guerra Santa" tem aumentado de maneira expressiva. É grande a suspeita de ligações do Boko Haram com a Al-Qaeda, organização que tem militantes espalhados, principalmente na África, Ásia.

Abubakar Shekau - Líder do Boko Haram

No mês de maio de 2013 o Presidente da Nigéria decretou "Estado de Emergência" no norte do país onde o grupo é mais forte e tem promovido ataques mais incisivos. Com o aumento dos efetivos militares na região de Maiduguri, muitos militantes jihadistas evadiram para as florestas localizadas na fronteira com os Camarões. Nos últimos dois anos, com o recrudescimento dos combates, mais de 3.000 mortes contabilizadas já foram atribuídas ao grupo. Uma de suas ações ganhou repercussão internacional, o sequestro de 276 garotas entre 16 e 18 anos e estudantes de um internato em Yobe, em abril deste ano. 43 garotas conseguiram fugir do cativeiro. Há suspeitas de que algumas já teriam sido vendidas por 12 dólares no Chade e Camarões.


Algumas das estudantes em poder do 
Boko Haram desde maio de 2014

O Boko Haram já começa a avançar sobre o norte dos Camarões, país com 22 milhões de habitantes, dentre os quais 2 milhões são muçulmanos concentrados no norte. O governo do Níger, onde a quase totalidade de seus 18 milhões  habitantes é muçulmana, tem reforçado militarmente a fronteira com a Nigéria, temendo novas incursões da organização.

A comunidade de nações africanas (UA - União Africana), a ONU, e, particularmente os governos das localidades (Nigéria, Níger, Camarões e Chade) precisam se unir para melhor enfrentar o Boko HaramAntes, três indagações se fazem necessária: Qual a origem das armas e do dinheiro em poder do grupo ? Quem financia o Boko Haram ?; Como conter estes recursos e logística ? O mundo, os nigerianos e, particularmente, as vítimas e seus familiares precisam destas respostas.

Em curto prazo é preciso que seus integrantes sejam capturados e levados aos tribunais para que possam responder pelos crimes cometidos.  Em médio e longo prazos é preciso que as autoridades locais e internacionais comecem a combater as causas do avanço do terrorismo na região. A condições de sobrevivência miseráveis que acometem 70% dos nigerianos, a falta de emprego e o analfabetismo acima de 30% associados aos governos que pouco a nada se importam em reverter a situação estão entre as principais causas do avanço da intolerância e do terrorismo tendo como objetivo a instauração de uma TEOCRACIA (ditadura político-religiosa), um regime, felizmente, abominado pela quase totalidade tanto de cristãos quanto de muçulmanos espalhados em todo o planeta.
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