ROGÉRIO BOTELHO E O TRAJETO DA ARTE


Cires Pereira
 
Rogério Botelho em cena
Os anos passam e, com estes, aqui estamos num esforço hercúleo pra lembrar os mais remotos. Nascemos numa cidade pequena em uma das serras próximas ao Rio Paranaíba nas Minas Gerais. Mais especificamente nas proximidades de um de seus “braços”, o rio “Quebranzol”. Patrocínio foi o nome que deram ao “canto” que conceberam várias pessoas que encantam neste ainda “canto” e, como Rogério Botelho, encantam em outros “cantos”
Rogério e eu, como por encanto, deixamos este "canto" de Minas. O meu "canto" não dista tão longe e, deste "canto" que resido tido como “terra fértil” ou Uberlândia, voltei a ter contato com Rogério. Rogério que, acompanhando sua família comandada por Altivino e Alzira, optou por aportar num belo “canto” banhado pelo Atlântico. "Canto" alcunhado de “Rio” de Janeiro, mas muitos ainda conservam o pomposo (e santo) nome - “São Sebastião do Rio de Janeiro”-.
Entre a época de nossa diáspora no início dos “oitenta” e hoje, um hiato de 34 anos, optei por enveredar os rumos da História e do Magistério e você pelas “Artes” e, cá pra nós, foram as melhores escolhas que fizemos, não é mesmo. Estas escolhas tem nos proporcionado uma vida sem muito luxo, é verdade, mas confortável e o suficiente para dar às nossas “crias” um padrão material que nos parece ser decente. 
Caro Rogério esta foi, dentre as opções postas, a melhor opção! Posso sentir isto pela alegria e satisfação estampadas em suas fotos que percorrem este “mundo virtual”, contudo o que me levou a concluir isto, certamente, foi a qualidade, a diversidade e a originalidade de suas obras. 
Suas esculturas, geralmente destiladas de materiais prosaicos como o ferro, são um primor. Seus cortes, suas dobras e justaposições permitem surpreendentes relações entre as faces do ferro revelando belezas até então pouco ou nada visíveis. Fico aqui imaginando seu olhar sobre material, os rabiscos no papel, a fundição, as dobras, “ops” um machucado provocado por uma insistente “ferpa”, a soldagem, os aparos, os banhos, a lixa, a textura, o sopro, o suspiro e... a catarse do belo. 

 
Nada parece ser prescindível em sua escultura. Até a ferrugem, marca de um tempo implacável, que ocupa frações de um ferro belamente retorcido tem o seu charme e o seu ofício na arte que provoca reflexões e que fazem com que seus clientes se transformem em admiradores e mecenas.

Suas pinturas e texturas são delirantemente várias: umas caleidoscópicas e outras homogêneas; umas opacas e outras cintilantes; umas cítricas e outras turvas. São suas pinturas, ora serenas, ora vibrantes, ora reflexivas, mas acima de tudo, sempre surpreendentes. Tons e sobre tons numa simbiose perfeita, cores e texturas que dão sempre a perspectiva do movimento. Todas elas, embora num mesmo plano, parecem requerer e obter dois ou três planos. Não há como não importar-se, incomodar-se e maravilhar-se com as texturas de Botelho.

Suas esculturas dialogam com as paredes texturizadas e, para nosso deleite, ambas explicam o significado da beleza porque se respeitam e se harmonizam. Aqui pude depreender o seu DNA, pois tal como os renascentistas do “cinquecento”, Rogério Botelho pinta e esculpe uma mescla entre a ideia de beleza que lhe é peculiar e a ideia de beleza de seus clientes/admiradores. Seu pragmatismo não se sobrepõe à sua inventividade e inspiração e, compreensivelmente, vice-versa.

 
Rogério une o útil ao belo. Concretamente ou "ferreamente" tem sido primoroso nas abstrações. Estivesse eu no lugar de um de seus clientes/admiradores exigiria a assinatura deste artista em "suas" paredes e em "seus" painéis.

Bravo, Rogério Botelho, bravíssimo! 

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