2 de agosto de 2014

A BARBÁRIE NA PALESTINA E A INDIFERENÇA NOS TRÓPICOS

CIRES PEREIRA

A resistência em meio às ruínas
Neste sábado, em meu recorrente périplo pelas principais mídias brasileiras, comecei pelo UOL. Deparei-me com uma enquete junto aos leitores do Jornal "Folha de São Paulo" sobre a guerra entre israelenses e palestinos em Gaza. Esta enquete, publicada no dia 24 de julho ( http://polls.folha.com.br/poll/1420501/results, ) apresenta um resultado estarrecedor, embora lamentavelmente previsível. Para cada quatro leitores, apenas um considera que a reação bélica israelense é desproporcional configurando um verdadeiro massacre. Vamos aos números. num universo de 14.561 de leitores ouvidos, 10.814 responsabilizam o Hamas por usar seres humanos indefesos como "escudos em Gaza" alem de reconhecem a eficiente capacidade de defesa dos israelenses que, do contrário, teria um número de mortos muito maior. 

Não se deve extrair conclusão definitiva de uma enquete como esta, com apenas duas opções e sem que se saiba de onde são os leitores, o perfil sócio-econômico, as faixas etárias e grau de escolaridade. Contudo não deixa de ser um indicativo. Reitero, este resultado, mesmo que previsível, é estarrecedor. Depreendo deste resultado, as seguintes conclusões:

  1. o flagrante alheamento da maior parte dos cidadãos de um país (Brasil) diante da quantidade impressionante de mortos (1.500) num espaço tão curto de tempo (25 dias) num lugar distante (Gaza - Palestina), lembro que os brasileiros foram tomados por uma comoção muito maior diante da morte de jovens numa casa de shows gaucha no início de 2013. Irritantemente o adágio popular "o que os olhos não veem, o coração não sente" impõe-se novamente. 
  2. um espelho da falta de informação ou falta de conhecimento de causa entre a maioria dos brasileiros mesmo que tenha sido uma enquete junto aos "leitores de um grande jornal".
  3. grande parte dos formadores de opinião das principais mídias mais tem-se posicionado favoráveis à reação israelense frente ao avanço do "terrorismo" (fanatismo religioso e/ou radicalismo político) na região
  4. uma relativa impotência aliada às limitações de toda natureza dos formadores de opinião brasileiros, como eu, que se colocam de forma crítica em relação ao avanço sionista na Palestina com a aquiescência das principais potências mundiais.

Recorro a dois outros fatos da história para reforçar a semelhança, a meu ver, angustiante destes fatos com o Brasil neste momento: a indiferença ou alheamento da maioria diante de uma situação de barbárie.

1 - Europa no semestre de 1914: Desde julho de 1914, a região caminhava para um conflito aberto e generalizado, os governantes e boa parte dos formadores de opinião favoráveis à guerra procuravam desesperadamente acalmar governados e leitores respectivos dizendo que o "inimigo" encontrava-se do lado de lá das trincheiras e que seria abatido rapidamente. Muitos chegaram a prever que a "Grande Guerra" que se iniciava seria concluída antes do natal de 1914 e que os "bravos soldados" voltariam a seus lares para um dupla comemoração: o natal e a vitória. A guerra (barbárie) se intensificou e se estendeu até o verão de 1918 por conta de um equilíbrio entre as forças militares não previsto e acabou subtraindo as vidas de milhões de pessoas.
Alemanha declara Guerra: Toda Europa em armas
  
2 - EUA no segundo semestre de 1972: No dia 08 de junho houve um bombardeio no vilarejo de Trang Bang entre Saigon e Phnom Penh no Vietnam. O ataque teria sido coordenado pelas forças dos EUA que apoiavam os sul-vietnamitas na guerra contra o governo marxista do Vietnam do Norte. A pequena vietnamita Phan Thi Kim Phuc teve grande parte do corpo queimado por ter inalado o gás napalm utilizado pelos EUA, uma arma não convencional e proibida, configurando um crime contra a humanidade segundo a legislação internacional e as convenções estabelecidas depois a partir da conclusão da segunda guerra.
A menina do napalm junho de 1972 - Nick Ut - Associated Press.
Esta fotografia é de autoria de Nick Ut da agência Associated Press (AP) que ganhou, por ela, o Prêmio Pulitzer. Sua veiculação nos grandes jornais e televisões na época causou grande impacto no mundo, felizmente graças a foto muitos passaram a dar mais atenção à barbárie no Vietnam e a fazerem oposição ao conflito, inclusive nos EUA. Mas nos EUA ainda era enorme e majoritária a posição favorável à intervenção militar dos EUA no Vietnam. 

Esta foto por si só deveria ser suficiente para incriminar o chefe dos soldados, neste caso o então Presidente Richard Nixon. Nixon saiu incólume de tudo isto graças à permissividade dos Órgãos Internacionais, que sequer ofereceram denúncia contra o Presidente, e à indiferença da maioria do eleitorado estadunidense frente ao drama dos indefesos vietnamitas. Nixon, cinco meses depois da veiculação desta foto, reelegeu-se presidente dos EUA, vencendo o Democrata George McGovern com mais de 60% dos votos.

Pelo que se pode perceber alguns formadores de opinião tem(os) ainda um grande e espinhoso caminho a percorrerem(mos). Afinal de contas a indiferença aqui nos "trópicos" parece-me tão estarrecedora (e abjeta) quanto a barbárie que ora se impõe sobre os indefesos palestinos.
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