27 de julho de 2014

ISRAEL X HAMAS E A POSIÇÃO BRASILEIRA

Cires Pereira
Nos últimos três dias houve uma intensa movimentação no "front" em Gaza. Um "front" atípico, pois Gaza é uma pequena região habitada por quase 2 milhões de pessoas que tem sido o único alvo das forças militares israelenses por ar e por terra ao longo das três últimas semanas. No afã de reduzirem drasticamente (destruir é improvável) as estruturas (túneis) e as armas em poder do braço armado do movimento Hamas, que governa Gaza há sete anos, as tropas israelenses tem destruído inclemente habitações, estruturas hospitalares e educacionais e, principalmente vidas humanas que já atingiram a marca de um mil, sendo que mais dois terços são constituídos por pessoas indefesas (mulheres, crianças e anciãos).

O Conselho dos Direitos Humanos da ONU, reunido na última quarta feira, determinou que houvesse a imediata suspensão das hostilidades entre Hamas e Israel. Como já havia reportando no último post, o Conselho tambem aprovou uma resolução condenando o Estado de Israel por suas incursões militares e deliberou a constituição de uma comissão para investigar crimes e violações do direito internacional. Como era previsível os principais governos da Europa Ocidental optaram pela abstenção sobre esta resolução, uma posição tão covarde e abjeta quanto a isolada posição dos EUA favorável a Israel. 

Lembrei-me de algo, igualmente covarde e abjeto, ocorrido em junho de 1936 no Conselho da Liga das Nações quando os diplomatas ignoraram o apelo de Haile Selassie (Imperador destituído do trono da Etiópia em maio daquele ano) que suplicava por uma resolução condenando as tropas de Mussolini que marchavam impunes sobre sua nação desde 1935. 

Corretamente o Brasil e os demais integrantes dos BRICS posicionaram-se contrários à Israel, naturalmente que isto foi decisivo para o desfecho da votação que, a meu ver, pelo menos pressionou o governo de Israel a ser mais flexível diante de apelos por tréguas humanitárias. Uma trégua de 12 horas ocorreu neste sábado dia 26 e outra de 24 horas teve início nesta manhã de domingo. 

Sami Abu Zuhri, porta-voz dos Hamas, disse que a organização aceitou a trégua humanitária de 24 horas justificando da seguinte maneira "Em resposta à intervenção da ONU e considerando a situação de nosso povo e por ocasião do Eid [celebração religiosa dos muçulmanos], foi acordado entre as facções de resistência para endossar as 24 horas de calma humanitária...". Torço para que duas coisas ocorram nestas 24 horas: 1) a retomada de negociações para tréguas mais dilatadas que possibilitariam negociações mais consistentes para o fim do conflito e 2) que ambos os lados controlem os seus respetivos comandados para que nenhum tiro seja disparado, pois colocaria tudo a perder num momento tão delicado.

A posição do governo brasileiro

O Governo do Brasil, censurou a desproporcional reação de Israel contra o Hamas em Gaza, o que não significa que o Hamas tambem não tivesse sido censurado. É sabido que o Brasil tambem votou contra Israel no Conselho dos Direitos Humanos e determinou que o embaixador brasileiro em Israel voltasse ao Brasil "para explicações" simbolizando a contrariedade do Brasil frente à guerra e, particularmente, frente ao governo israelense. Trata-se de uma postura inusitada do Brasil frente à Israel que sempre foi parceiro comercial do Brasil (como tambem são parceiros comerciais todas a nações árabes daquela região). 

Israel argumenta que enfrenta o terrorismo na sua forma mais aprimorada e por isso justifica a mobilização de tantos recursos e homens para enfrentá-lo a fim de destruí-lo, contudo o resultado tem sido um sistemático extermínio de inocentes que, mesmo que quisessem, não tem como evadir do palco das hostilidades. Esta tem sido a base amparadora da reação do Governo Israelense para disparar contra o Brasil valendo-se de insultos como que demonstram despreparo e desespero de Israel.

Yigal Palmor
A diplomacia israelense valeu das seguintes palavras, atribuídas ao porta voz do governo israelense Yigal Palmor, diante da determinação do governo brasileiro pelo regresso do Embaixador em Israel ao Brasil: 
“Essa é uma infeliz demonstração de por que o Brasil, um gigante econômico e cultural, se mantém um anão diplomático. O relativismo moral por trás dessa medida transforma o Brasil num parceiro diplomático irrelevante, que cria problemas em vez de contribuir para soluções”. 
Emendou, ironizando o Brasil, das seguintes formas “Desproporcional é 7 a 1”, numa referência à goleada sofrida pelo Brasil contra a Alemanha e o Brasil é "um anão diplomático".

A imprensa brasileira dividiu-se entre elogios e reprovação à posição do governo brasileiro. Aqueles que reprovaram a postura brasileira tem-se valido mais com argumentos do que com fatos para convencerem os seus leitores. Rodrigo Constantino em sua coluna no site da Revista Veja publicou um artigo http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/ sobre o tema, no trecho abaixo enfatiza sua contrariedade com a posição do Governo brasileiro.

"Claro que em uma guerra será inevitável a perda de civis inocentes. É uma droga que seja assim. É uma lástima. Muitos têm inclusive o direito legítimo de criticar e condenar o governo de Israel, julgando que a reação é inadequada e que coloca em risco vidas demais. 
Esses deveriam, ao menos, tentar oferecer alguma alternativa realista de como Israel pode se defender do terrorismo do Hamas, que lança mísseis o tempo todo em sua população. Mas acusar Israel de deliberadamente almejar a morte dessas pessoas por questões étnicas é uma infâmia, uma mentira grotesca, que expõe o antissemitismo de quem a profere".

Rodrigo Constantino apregoa que muitos tem o direito de criticar, mas o governo brasileiro não poderia ter. Supus que, para o missivista, não tenha reserva moral pra fazê-lo. Para ser crível sua tese e, levando-se em conta o que já li em outros textos dele, só existe esta possibilidade, o nosso governo não tem reserva moral para objetar nenhum outro governo. 

Afirma ainda que o governo deveria "tentar oferecer alguma outra alternativa realista de como Israel pode se defender do terrorismo do Hamas". Ora bolas, não tem faltado súplicas da ONU, dos BRICS, da Autoridade Palestina, dos países árabes e até de Obama para o entendimento. Rodrigo sabe bem, embora tenha preferido ocultar aqui, que Sharon (tambem do Likud), antes do AVC que o inabilitou ao trabalho, havia proposto a drástica retirada de colonos judeus na Cisjordânia como sinal de Israel para criar um ambiente favorável às negociações com o Fatah e com o Hamas. Mesmo que o Hamas recusasse ao apelo na ocasião, as negociações teriam avançado. Ariel Sharon por isto foi severamente criticado pelos demais lideres do Likud. Liderado por Banjamin Nethanyahu desde 2009, o governo optou pelas incursões intimidatórias no sul do Líbano e, desde 2012, em Gaza. Em outras palavras o governo israelense estimulou ainda mais o ódio na região e facilitou, mesmo que não quisesse ou que negasse (e continua negando) isto, a preservação do governo Hamas em Gaza.

Infame é imaginar que as presentes incursões israelenses em Gaza não implicassem automaticamente ferimentos graves em seis mil pessoas, no extermínio de mil pessoas em 20 dias e no deslocamento forçado de mais de 100 mil até agora. Infame é atribuir toda esta desgraça ao Hamas com o argumento d e que estejam se valendo do escudo de inocentes para defender-se dos ataques israelenses ou que o morticínio pudesse levar a comunidade internacional a colocar-se contra Israel. Infame é tentar desqualificar os que criticam Israel sob o argumento de que estejamos minimizando o holocausto perpetrado pelo III Reich contra os judeus há mais de sete décadas e mais ainda infame é assegurar um salvo conduto ao governo israelense sob o argumento de que o que fazem contra os árabes indefesos não se assemelham ao que os nazistas faziam contra os judeus. 

Rodrigo Constantino afirma que "Os soldados israelenses jamais demonstraram qualquer desejo de eliminar palestinos apenas por serem palestinos." e continua, "Pelo contrário: há toda a evidência de que fazem o máximo possível para evitar a morte de civis inocentes, chegando inclusive a avisar com antecedência dos ataques que visam à destruição dos armamentos em posse dos terroristas do Hamas, que cavaram dezenas de túneis na região e instalaram armas perto de escolas e hospitais". Suplico aos leitores que recorram aos fatos e, como eu, constatarão o diametralmente oposto à esta afirmação e espero que, tanto quanto eu, deem razão ao governo brasileiro.

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