13 de julho de 2014

HÁ MUITO MAIS ENTRE OS OCEANOS DO QUE POSSA JULGAR UM "NOBEL"

CIRES PEREIRA

Quando uma infeliz brincadeira torna-se algo sério.

Assim que o Brasil perdeu de 7 a 1 para os alemães não faltaram brincadeiras, o que é perfeitamente natural, umas interessantes e bem vindas e outras igualmente interessantes mas não bem vindas, pois subliminarmente reforçam um etnocentrismo tacanho e abjeto. A gravura acima exprime exatamente este etnocentrismo que ao invés de ser combatido é assimilado. Esta gravura nos revela um preconceito: "somos inferiores aos alemães", definitivamente se Goebbels (Responsável pela área da formação política e propaganda do III Reich alemão entre 1933 e 1945) estivesse vivo e na ativa, não hesitaria em fazer uso desta estratégia de marketing para os propósitos do triunfalismo antissemita e arianista do III Reich.

Na cultura judaico-cristã devidamente temperada ética burguesa-capitalista a partir do final do medievo, uma verdadeira obsessão pela competitividade, numa frenética e desenfreada disputa para destilar o "maior" e o "melhor". Muitos acreditam que este espírito (transcende o burguês e o cristão reformado) foi imprescindível para "a modernização e para a evolução dos seres humanos e suas sociedades". Sem este espírito desbravador e modernizador, raciocinam os mais exaltados devotos deste eurocentrismo, o que seriam de nós que vivemos espalhados e amontoados pelas Américas, pela África, pela Oceania e pela Ásia?

Da Europa muita coisas boas legamos, mas também muitas coisas ruins, o curioso e errado é que a maioria entre nós dá mais ênfase e publicidade às coisas boas num esforço monumental para corroborar o senso-comum de que "sendo europeu é bom, logo devemos aprender com eles".

No final do século XIX enquanto o que ainda não tinha sido conquistado e colonizado no mundo era apropriado e pilhado pelos governos e grandes empresas europeias, intelectuais, artistas, empresas, governos diplomatas procuravam construir uma justificativa para as suas ações neocolonizadoras. Destas justificativas a que mais convenceu foi a tese da "missão civilizatória", segundo a qual caberia aos bem informados e bem formados europeus o fardo ou incumbência de levar civilidade aos homens e mulheres que, nas áreas conquistadas e colonizadas, viviam como animais. Deste modo quaisquer iniciativas que aparecessem na Europa Ocidental naquela época que reafirmasse a missão civilizatória da Europa Ilustrada e Livre era bem vinda. O Prêmio Nobel pode muito bem se inscrever neste contexto de uma Europa que precisava dizer a si  mesma e aos seus cativos e colonizados que "sua missão" melhoraria as condições de vida dos povos do presente e da posteridade.

O Prêmio Nobel  foi criado pelo industrial sueco Alfred Nobel (1833-1896), atribuiu-se a ele a invenção da dinamite, muito rico optou em deixar sua fortuna para um fundo que pudesse premiar cientistas que tenham se destacado. Uma invenção muito apropriada para um contexto de crescimento e de conflitos, como o que se viu, exceto Alfred que já tinha falecido, nas trincheiras europeias entre 1914 e 1918.

Os prêmios passaram a ser entregues anualmente às pessoas que fizeram pesquisas importantes, criaram técnicas pioneiras ou deram contribuições destacadas à sociedade. O Prêmio Nobel de Economia foi na verdade uma premiação criada anos depois pelo Banco Central da Suécia em memória de Alfred Nobel. A Fundação Nobel foi então criada em 1900 com este propósito. Os prêmios são: Nobel Da Paz, Nobel de Física, Nobel de Química, Nobel de Medicina, Nobel de Literatura e "Nobel de Economia" (este último concedido desde 1969).

O Testamento de Alfred Nobel de 1895


A distribuição do Prêmio


A competitividade que para muitos, incluindo os criadores da premiação, é a chave do sucesso e do avanço, pode também ofuscar e desqualificar o polo ou polos derrotados ou preteridos. Pode gerar uma leitura míope, mecânica, superficial do fato,  do meio e, principalmente das "gentes dos meios".

Senão vejamos:

Os EUA ganharam mais prêmios do que a Ásia, Africa, Oceania e América Latina somados e um pouco menos do que os europeus, disto se pode concluir que eles tem sido mais cultos do que "o resto"? Os japoneses e chineses juntos não conquistaram mais do que 50 prêmios, isto significa que eles são 7 vezes menos inteligentes do que os estadunidenses? Não passam de duas dezenas os "nobéis" amealhados pelos latino-americanos, disto se pode depreender que somos quase 20 vezes menos inteligentes do que os estadunidenses? Nenhum brasileiro foi premiado, logo pode se concluir que não há "vida inteligente" no Brasil?




Mensurar a cultura e o estágio intelectual e artístico de um país levando-se em conta suas premiações é de uma estreiteza flagrante. Comparar um com o outro chega a ser infame e desrespeitoso. 

Tenho plena convicção de que os homens e mulheres inteligentes e cultas tanto da Alemanha quanto do Brasil deem alguma importância para comparações deste tipo e nível. Definitivamente os brasileiros e alemães merecemos uma análise mais profunda e decente. 

Alexander Hegius e Paulo Freire, Beethoven e Pixinguinha,  Goethe e Machado, Rosa e Conselheiro, Bach e Villa lobos, Brecth e Vianinha, Gropius e Niemeyer, Nietzsche e Chaui, Martin Kobler e Chico Mendes, enfim o pastor-alemão e a arara azul que o digam.

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