A GUERRA ENTRE ISRAEL E O HAMAS


Cires Pereira 14 de julho de 2014


O quadro geral nas áreas ocupadas pelos israelenses desde o final da segunda Guerra Mundial na Palestina sempre foi tenso. Ora esta tensão diminui, ora aumenta. Desde a semana passada, o estágio desta tensão está acima do suportável e os resultados não poderiam ser outros: 172 mortes contabilizadas entre os palestinos em Gaza, mais de 1.100 feridos e um contingente incontável de palestinos que se desesperam em busca de uma saída e ou refúgio. As autoridades da Saúde em Gaza denunciam que 70% dos mortos e feridos são civis, mas Telaviv contesta este percentual. De qualquer modo os indefesos estão pagando caro pela ira tanto de israelenses quanto do governo do Hamas em Gaza.


Apesar da escalada de violência e do crescente número de mortos, de feridos e de refugiados, o pedido do Conselho de Segurança da ONU feito neste final de semana pela interrupção dos ataques e um acordo de cessar-fogo ainda são remotos. Ambos os lados continuarão a fazer uso de suas surradas e previsíveis retóricas pautadas no "direito de autodefesa", pois partem de um conceito que é próprio do extremismo, "um não reconhece o direito do outro e outro não reconhece o direito de um". O resultado não poderia ser diferente, perdas muito maiores do lado palestino numa guerra a rigor assimétrica. O que pode diferenciar neste novo imbróglio é a materialização de uma ameaça, sempre feita pelas forças israelenses, a invasão por terra, neste momento 30 mil soldados estão na fronteira aguardando a autorização para invadir. Neste caso o número de mortos e feridos seria enorme. 

Abbas (AP), Papa Francisco e Shimon Peres (Israel) - 08 -06-2014
As orações feitas a "seis mãos" há pouco mais de um mês no Vaticano a pedido do Papa (Presidente de Israel Shimon Peres, Presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas e o Papa Francisco)  não surtiram efeitos práticos.


Por que não surtiram os efeitos desejados ?

ISRAEL
Benjamin Netanyahu - Primeiro Ministro israelense
O Presidente de Israel, Shimon Peres, é do Partido Trabalhista que tem, mesmo que pequena, uma leve inclinação ao entendimento com os palestinos. Seu mandato presidencial iniciado em 2007 termina agora em julho de 2014. Reuven Rivlin será empossado como novo Presidente, ele é do Likud, rejeita a criação de um Estado palestino e apoia a política de colônias nos territórios palestinos ocupados. Israel é uma Republica parlamentar, portanto o governo é comandado pelo Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu que também integra as hostes do Likud. Como era de se esperar o Primeiro-ministro israelense reagiu afirmando que as orações não poderiam substituir a preocupação com a segurança e com a integridade de Israel. Agora terá o amparo do novo Presidente Rivlin.

Por milhares de anos, o povo de Israel têm orado pela paz diária. Mas até que a paz venha, vamos continuar a nos fortalecer para que vocês possam continuar a defender o Estado de Israel. Em última análise, é o que vai garantir o nosso futuro e também trará a paz.

Desde 2006 o Primeiro-ministro israelense tem sofrido muitas pressões para que se mire no exemplo do ex-Primeiro Ministro Ariel Sharon (Likud) que em 2005 surpreendeu o mundo com a proposta de retirada dos judeus na Faixa de Gaza. Para os conservadores Sharon traiu a causa do "Grande Israel" e para os progressistas Sharon optou pelo pragmatismo ao curvar-se às pressões do ocidente. O governo dos EUA posicionou-se favorável à saída dos israelenses da Cisjordânia. 

As negociações foram reiniciadas e o plano de retirada israelense motivou duras críticas internas provocando fissuras no Likud. O plano começou a ser executado ainda em 2005, mas Benjamin Netanyahu, bastante contrariado com o premiê Sharon, resolveu peitá-lo na disputa pela liderança do Likud. Vitorioso, Benjamin pediu a antecipação das eleições primárias que ocorreriam somente em 2006. Sharon, mesmo tendo vencido as eleições, teve que se afastar do cargo em razão de um AVC que o manteve em situação vegetativa até janeiro de 2014. Com o impedimento de Sharon o caminho ficou livre para Netanyahu controlar o Likud e tornar-se o Primeiro Ministro em 2009.


PALESTINA

O grande objetivo da Autoridade Palestina (Órgão criado desde as negociações de Paz de 1993 em Oslo) é a consolidação do Estado palestino em Gaza e Cisjordânia. Quem comanda a Autoridade Palestina não é o Grupo Hamas, contudo este grupo controla Gaza e seu objetivo manifesto é a destruição do Estado de Israel, portanto o Hamas e o seu braço armado a "Brigada Ezzedeen AL-Qassam" não reconhecem os termos dos acordos firmados entre o Estado de Israel e a Autoridade Palestina.

As forças israelenses são muito melhores e maiores do que capacidade bélica em poder do Hamas em Gaza, logo é de prever que um conflito aberto entre ambos não duraria muito tempo e Israel tecnicamente esmagaria o Hamas em Gaza e isto parece cada vez mais provável. Mas o grande empecilho é o fato de Gaza ser uma cidade muito populosa e incursões militares intensas imporiam um grande número de mortos e feridos. Este cenário é o que o mundo teme que ocorra.

Líder do Hamas promete libertar toda a Palestina perante milhares em Gaza
Khaled Meshaall - líder do Hamas

Em 2006 o Hamas foi escolhido pela maioria dos eleitores em Gaza para governar e, no mesmo ano os israelenses deram ao Likud o direito de retomar o governo. Como são os lados menos dispostos ao diálogo, a animosidade e os confrontos militares tem se tornado recorrentes, dificultando quaisquer tentativas de entendimento.

Analistas consideram que este quadro está intimamente associado à "Primavera Árabe" que tem se constituído em ofensivas populares clamando transparência, democracia e liberdade contra governos despóticos no Oriente Médio e no Norte da África. Com é sabido o Hamas é uma organização que depende de apoio financeiro que até a "Primavera" vinha principalmente dos governos sírio e iraniano. 

Explico. 

O Hamas é uma ramificação da poderosa Irmandade Muçulmana (sunita) que também se levantou contra a ditadura de Bashar al-Assad na Síria que conta com o amparo do governo iraniano que é xiita. O resultado foi o fim das colaborações financeiras tanto do governo sírio quanto do governo iraniano, a fonte secou. Soma-se a isto a fato de a Irmandade muçulmana do líder Morsi ter sido destituída do governo no Egito. Diante destes reveses, o Hamas havia iniciado diálogos com o grupo Fatah do presidente Mahmoud
Abbas que controla a Autoridade Palestina e que defende as negociações com Israel mas que até o início desta nova guerra com Israel não tinham chegado a nenhum acordo importante.  

Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina, Barack Obama e o Conselho de Segurança da ONU tem clamado pelo fim das hostilidades, até agora não foram ouvidos nem pelo Hamas, tampouco por Netanyahu.
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