24 de julho de 2014

A GUERRA ENTRE ISRAEL E HAMAS: 3º BALANÇO (24/07/2014)

Cires Pereira

Em Shajaya, região próxima à fronteira, cerca de 100 palestinos foram mortos e o cenário de destruição causou a fuga de milhares de moradores  - Foto: Efe

Nesta quarta feira dia 23 de julho O Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução condenando o Estado de Israel por suas incursões militares em Gaza. Também deliberou a constituição de uma comissão com a missão de investigar crimes e violações do direito internacional. 

Uma resolução previsível que altera pouco o destino dos embates, afinal de contas o Conselho dos Direitos Humanos não tem a mesma força que pudesse conter um ou ambos os lados litigantes. Um detalhe chamou minha atenção dos 47 países-membros do Conselho, 29 votaram favorável à resolução, todos os países latino-americanos, incluindo o Brasil. Alemanha, Itália, França e Reino Unido mantiveram-se neutros e se abstiveram. O único voto favorável a Israel foi dado pela representação dos EUA. Não me surpreendeu o voto dos EUA, tampouco a costumeira neutralidade das grandes forças políticas europeias que tem muita proximidade/cumplicidade com os EUA, logo com Israel.

Um pouco antes do início da sessão Navi Pillay, alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, reiterava que os ataques israelenses a Gaza, ceifando vidas de civis indefesos poderia constituir crimes de guerra. 

Navi Pillay - Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos
"Os exemplos que acabo de mencionar [ataques israelenses contra civis indefesos] mostram que a lei humanitária internacional foi violada até um alcance que poderiam constituir crimes de guerra"
Navi Pillay 
John Kerry, Secretário de Estado dos EUA, em poucas palavras exprimiu o argumento principal do governo dos EUA para justificar a postura favorável aos Israelenses no Conselho de Direitos Humanos da ONU. "Estamos profundamente preocupados com as consequências dos esforços legítimos e apropriados que Israel faz para se proteger" e emendou, "Nenhum país pode ficar sem reagir quando é atacado por rockets, quando túneis são cavados para que penetrem no seu território e ataquem os seus cidadãos".

Tzipi Livni, Ministra da Justiça de Israel "disparou" contra a resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU, afirmando que o Conselho é um órgão "anti-Israel", uma declaração nada surpreendente para um país que não está acostumado a respeitar deliberações contrárias de órgãos multilaterais, pois sabe que dificilmente será por isto punido.

Tzipi Livni - Ministra da Justiça Israel
"Israel está agindo de acordo com a lei internacional ( ...) É uma pena que civis sejam mortos, mas quando os avisamos que esvaziem (os edifícios que serão alvejados) e o Hamas lhes pede que fiquem, é isso o que acontece."
Tzipi Livni

Enquanto isso em Gaza

Em Gaza, em 15 dias de combates, mais de 650 palestinos já morreram, dentre os quais 75 % são civis. Israel contabiliza 31 mortes. Já passam de 100 mil o número de palestinos que buscam ajuda junto à ONU. Há destruição em toda parte. Os EUA ofereceram uma "ajuda humanitária" de 47 milhões de dólares para Gaza que se encontra à beira de uma catástrofe humanitária, uma "ajuda" condicionada à aceitação de uma trégua pelo Hamas. Os israelenses tem feito um estrago importante na região, principalmente na cidade de Gaza, forçam os palestinos a abandonarem suas casas. Há muitos problemas em Gaza, por exemplo as casas só têm energia elétrica durante três horas por dia. O número de refugiados já atinge 60 mil pessoas. Dos 200 mil habitantes do bairro de al-Shujaia, 40 mil fugiram de suas casas. Os hospitais estão em condições deploráveis, não há medicamentos nem equipamento para socorrer as pessoas. Os hospitais e as escolas estão se transformando em postos de refugiados. Ou seja, com a guerra, os palestinos estão sentindo ainda mais intensamente o que é viver como refugiado sem sair de "seu" país.

Israel tem encontrado dificuldades maiores do que as previstas em Gaza para alcançar os seus objetivos, como destruir os túneis construídos pelo Hamas para possíveis incursões a Israel e desmilitarizar o Hamas, reduzindo o seu potencial de resistência. Para eliminar toda a infraestrutura do Hamas será necessária uma ocupação de longo prazo, o que provocaria baixas incalculáveis entre os os israelenses e, principalmente entre os palestinos em Gaza. É possível abater os militantes mais ativos, mas a maioria dos membros do Hamas não se distingue dos civis. Por isso, uma guerra total contra o Hamas teria como efeito inevitável um verdadeiro genocídio em Gaza.

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, iniciou um périplo ao Oriente Médio, começando por Israel, para negociar um cessar-fogo imediato com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Kerry acredita que existe chances de êxito. Antes esteve no Egito que, sábado, havia apresentado uma proposta de cessar-fogo rechaçada pelo Hamas sob o argumento de que as condições forçavam o Hamas a reconhecer o direito de Israel em revidar os ataques anteriores alem de não imputar nenhuma responsabilização pelas mortes e destruição à Israel. 

Sobre a proposta, Fawzi Barhum, porta-voz do Hamas reagiu com as seguintes palavras:
 "Um cessar-fogo sem alcançar um acordo está excluído. Em tempos de guerra não se faz um cessar-fogo para depois negociar".
Hamas, Israel e EUA, mesmo que apelos tenham se intensificado em todo o mundo pelo fim das hostilidades, continuam endurecendo nos bastidores, embora tenham dito o contrário "sob os holofotes da mídia mundial". Enquanto isso, as notícias que chegam de Gaza, grafadas também, e principalmente, com o sangue de indefesos e inocentes, ainda não nos habilitam a prever que o fim do conflito (ou carnificina) esteja próximo, infelizmente.
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