16 de junho de 2014

THE PHYSICIAN (" O FÍSICO) DE NOAH GORDON, UMA LEITURA IMPRESCINDÍVEL

Cires Canisio Pereira


Ficha Técnica: O Físico
Autor: Noah Gordon
Tradutor: Aulyde Soares Rodrigues
Editora: Rocco - 596 página 

  
Sinopse: "No séc. XI, Rob Cole abandona com apenas onze anos a pobre e doente cidade de Londres para vaguear pela Inglaterra. Durante as suas perambulações, fazendo malabarismos e vendendo curas para doentes, vai descobrindo a dimensão mística da sanação. E é através desta peregrinação que descobre o seu verdadeiro dom, que o levará a converter-se em médico num mundo violento, cheio de superstições e preconceitos. Tão forte é o seu sonho que decide empreender uma insólita e perigosa viagem à Pérsia, onde estudará na prestigiada escola de Avicena. Aí dar-se-á uma transformação que modificará para sempre a sua vida e o seu destino..."


Noah Gordon nasceu em 1926 no Estado de Massachusetts nos EUA, após ter servido seu país na Segunda Guerra, abandonou, logo no início, o curso de Medicina para ingressar no Jornalismo. Formou-se em 1950, já no ano de 1965 publica seu primeiro importante trabalho literário “O Rabino”. “O Físico” (The Physician) foi publicado em 1986, o seu grande sucesso, em Portugal este livro foi publicado sob o título “O Médico de Ispahan”.

Toda a história gira em torno de Rob Cole que, diante de uma tragédia familiar, opta por abandonar sua cidade (Londres) e inicia um périplo que o levará à Pérsia (atual Irã). Disposto a cursar medicina, ficou sabendo de uma escola em Ispahan coordenada por Abu Ali al-Hussayn ibn Abd-Allah ibn Sina, mais conhecido como Avicena (980-1037). Seus contemporâneos o chamavam de al-Shaij al-Rais ou “o primeiro dos sábios”, pois era Médico, filósofo, matemático, astrólogo, alquimista, poeta, músico, físico e astrônomo.

Na Europa Ocidental dos anos 1000 (século XI) não havia a menor chance de cursar Medicina ou “Physician” em razão do rígido controle imposto pela cúpula da Igreja Cristã sobre as ciências, as condutas e toda a sociedade civil. As superstições, o preconceito e o dogmatismo inviabilizavam quaisquer avanços na arte do diagnóstico e tratamento de enfermidades.

Além das dificuldades próprias deste empreendimento como a distância entre o Noroeste europeu e a Pérsia, a diversidade de idiomas, as superstições locais, a falta de segurança, os parcos recursos financeiros, o protagonista depara-se quando enfim chega à Pérsia com a obrigatoriedade de se converter ao islamismo para ingressar na “madrassa” ou escola.

Constato ao longo de todo o percurso da leitura um recorrente litígio entre fé, preconceitos e dogmas, de um lado, e os esclarecimentos advindos da faculdade inerente ao ser humano, a razão, do outro lado. Este é, portanto o elemento central que nos acompanha até os dias de hoje. Uma dicotomização entre “fides” e “ratio” que, na maioria das vezes, é lamentavelmente simplificada. Não é o caso deste livro, por este motivo recomendo sua leitura. 

Reconheço o esforço nobre de Noah Gordon em manter-se equidistante das três religiões – Judaísmo, cristianismo e islamismo – em nenhum momento ele enaltece em detrimento das demais, numa apreciação respeitosa e honesta. Honesta porque não deixa de assinalar as origens históricas para cada um dos bens – e dos males – que deles resultam. O autor delega a Rob Cole a tarefa de conhecer culturas e credos distintos e divergentes proporcionando ao protagonista e a nós, leitores, uma mistura entre fascínio e repulsa pelos costumes locais, pelas condutas até então exóticas e pelos credos de uma forma geral.

Rob é o personagem central que se empenha em avançar mesmo ciente dos riscos inerentes deste avanço proporcionado pela razão num mundo ainda refém das limitações impostas pelas conveniências das autoridades religiosas e reforçadas por gerações. 

Outro ponto alto do livro são as descrições da época, do ambiente físico e das religiosidades, sobretudo as religiões judaica e islâmica. Louvável a pretensão do autor em valorizar os personagens coadjuvantes, como Mary Cullen (esposa de Rob), Avicena (filósofo), seus colegas na “madrassa” Mirdin Askari e Karim Harun e o príncipe Ala Xá e, principalmente, Henry Croft, o Barber, um barbeiro-cirurgião que acolheu Rob quando criança órfã e o inicializou na grande “cruzada pelo saber”.

Capa do filme " O físico"
Em 2013 o filme inspirado no livro foi lançado mundialmente (no Brasil seu lançamento ocorreu em maio de 2014), vale a pena assisti-lo, mas seria muito melhor ler o livro primeiramente, pois nada substitui a estimulante e profunda narrativa de Noah Gordon. Quanto ao filme ainda não pude assisti-lo, o filme é dirigido pelo alemão, que dirigiu o filme "Goethe!" em 2010, Philipp Stözl  e tem no elenco o ator inglês Ben Kingsley que ficou mundialmente famoso por ter interpretado Gandhi. 

Boa leitura e bom filme

Outras obras de Noah Gordon: “O Rabino”, publicado em 1965; “O Diamante de Jerusalém, publicado em 1979; “Xamã, publicado em 1992; “O Último Judeu”, publicado em 2000 e “La Bodega”, publicado em 2007.
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