30 de junho de 2014

LENDO NAS ENTRELINHAS: PADRE PAULO RICARDO E A CRUZADA CONTRA O SOCIALISMO

Cires Pereira


O padre católico Paulo Ricardo de Azevedo Junior comentou, num vídeo intitulado "Manifestante, estão manipulando você", sobre as manifestações ocorridas em junho de 2013 e concluiu que elas foram um instrumento de manipulação. 

Mas e dai ? ... Só isso ? Sim, pois não disse quem é o manipulador e, tampouco explicou como ocorreu esta manipulação.

Veja na íntegra o seu pronunciamento, acessando o link abaixo:




Começou muito mal... Mesmo assim vamos acompanhar seus argumentos e suas conclusões

Disse que o problema não é a corrupção, portanto o foco das manifestações está equivocado. O problema é o seguinte:  

“nós estamos recolhendo impostos para proporcionar uma igualdade social e o governo corrupto não está cumprindo a sua missão”.

Trata-se de uma afirmação estapafúrdia, pois em nenhum momento este governo ou os seus antecessores disseram que os impostos seriam recolhidos para proporcionar igualdade. Além do que o governo não cumpre tal missão porque não foi escolhido nas urnas para fazer isso que sequer tem amparo legal. Impostos arrecadados jamais serão suficientes para proporcionar igualdade. A igualdade só em possível com a coletivização de todos os meios de produção que se encontram em mãos privadas.

E emendou:

Então o problema é que “o governo do PT prometeu que ia nos dar o socialismo e ele está traindo as suas promessas”.

O PT não prometeu isso, há muito tempo (campanha eleitoral de 2002) o então candidato Lula apresentou um programa cujo objetivo era "governar para todos", portanto ali perante o eleitorado optou por abdicar da construção do socialismo tal como o PT apregoava antes, diga-se de passagem pela via pacífica e não revolucionária. E soube convencer a maioria do eleitorado de que seria possível um governo capaz de mitigar desigualdades, elegeu-se com esta proposta e ela tem sido cumprida. O Padre se negou a reconhecer o que salta aos seus olhos, numa mistura de confusão teórica e flagrante falta de sensibilidade . Tudo isto para produzir um precário argumento amparador da tese da "manipulação"


Mas o mais sério está por vir.

O Padre Paulo Ricardo argumentou ainda que “você pode até mudar as moscas, mas a porcaria vai continuar a mesma”, usou uma figura de linguagem para dizer que o maior problema não é a corrupção, mas sim o avanço do socialismo.

“Você pode até manifestar a sua raivinha nas urnas, mas o grande problema é se você não tirar esta doença da sua cabeça, você simplesmente irá conduzir este país de abismo em abismo até que finalmente nós estejamos numa ditadura total”. (...) “O socialismo ele é corruptor na sua própria essência, se você continuar com uma ideia socialista na sua cabeça, você vai continuar promovendo corrupção”.

Quer dizer todo socialista é um corruptor, como corrupção é crime, o Padre criminaliza o socialismo. A conclusão do Padre parece-me pequena, rasteira e simplista, ela sintetiza o pensamento de quem se posiciona em defesa da conservação do atual estado de coisas.

Insistiu na tese de que no sistema socialista uma classe mais poderosa do que os empresários no capitalismo se erigirá para rebaixar o empresariado ao nível dos operários e camponeses, argumentou que sua conclusão não é apenas produto de um raciocínio lógico, mas resultado das experiências socialistas na URSS, na Romênia e em Cuba. Nestes lugares uma elite burocrática se formou para espoliar e reprimir a maioria.

O padre neste ponto tem razão, nestes países de fato constituíram-se governos que suprimiram a democracia liberal, todavia não edificaram outra democracia e o resultado foi a instalação de ditaduras burocráticas e o regime de partido único. Só não disse (e não esperaria isto do Padre) que jamais Marx propusera um regime monolítico, ao contrário propôs a "ditadura do proletariado" que sempre foi para os liberais mais um "regime macabro". Os liberais sempre souberam que esta proposta de Marx inviabilizaria a manipulação de uma minoria e abriria espaços para a superação das bases sustentadoras do capitalismo.

Na "ditadura do proletariado" a sociedade organizada em conselhos ditaria o que se deve fazer e o governo deveria obedecer e fazer. Mas esta proposição de uma gestão pública universal e purgada pela maioria transcenderia os limites permitido pelo "liberais", incluindo o Padre Paulo Ricardo, logo os limites permitido pelo "Capital".

Para o Padre não se trata de erro, pois esta “é a lógica do sistema”, para que todos fiquem iguais, alguém (o governo) precisa ser mais forte e “mais igual” e deverá fazê-lo oprimindo.

Aqui ele perde toda a razão, pois Marx (idealizador do socialismo) jamais propôs o que de fato foi instituído, portanto o sistema idealizado tinha uma lógica diametralmente oposta ao que o Padre afirmou. O Padre tem todo o direito de discordar da proposição de Marx, mas não pode colocar palavras na boca de seus adversários, este é um expediente típico de quem manipula e jamais de alguém que, supostamente, se apresenta como combatente da manipulação.


E termina dizendo.

“só existe uma saída para o Brasil, jogarmos na lata do lixo da história esta ideologia macabra e assassina chamada socialismo que já matou milhões e milhões de pessoas ao longo desses cem anos que existe no mundo e continuará matando, corrompendo e fazendo o mal...”

Nesta passagem o Padre, subliminarmente, sugere qualquer coisa para a extirpação do mal, denominado socialismo. Faltou neste caso clareza, afinal de contas o que o Padre propõe para “jogarmos na lata do lixo da História, o socialismo”?

Penso que os seguidores desta linha de raciocínio exposta pelo Padre Paulo Ricardo deveriam indagar à ele sobre como deveriam combater o socialismo, já que se trata de algo "macabro". A análise do Padre, ao abdicar de expor este "como fazer" permite duas possibilidades que tem sido ou que já foram experimentadas pelos defensores do capitalismo:
1:Como base argumentativa na preservação e/ou aprofundamento da ordem liberal-democrática.
2: Como base de argumentação para uma ordem monolítica e direitista como por exemplos o fascismo e a ditadura militar
 
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