VESTIBULAR UFU INVERNO 2014 COMENTÁRIOS PROVA HISTÓRIA

CIRES PEREIRA


Uma prova com grau médio de seletividade o que é compatível com os objetivos da instituição em selecionar para a 2ª etapa vestibulandos que tenham uma capacidade razoável tanto dos temas abordados numa prova de História a nível de Ensino Médio quanto da compreensão dos seus enunciados. No conjunto das 10 questões apresentadas, entendo que duas questões destoaram e distanciaram deste propósito, a saber: nº 17 sobre a revolução inglesa e nº 18 sobre a Baixa Idade Média, ambas as questões no caderno tipo IV. Esta última seria pertinente e prudente a anulação em razão da má formulação do enunciado logo após o texto-base de Jacques Le Goff que sugere uma "revolução comercial e burguesa" neste período, termo que não se encontra em nenhum dos livros que compõem a bibliografia indicada pela UFU.


Alternativa D

O final do século XVIII nas áreas colonizadas pelos europeus é marcado por crescentes mobilizações emancipacionistas que refletem não apenas o reflexo do debate liberal iniciado pelo iluminismo mas também o esgotamento do sistema colonial imposto pelas metrópoles europeias.

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Alternativa A

Em meados do século XIX o desenvolvimento industrial e a consolidação do sistema capitalista nas economias industrializada proporcionaram avanços tecnológicos em todas as áreas, incluindo as comunicações, a indústria bélica e, por conseguinte, o aperfeiçoamento de aramas e estratégias em conflitos da época. A destruição e o morticínio, em razão destas novas tecnologias dos armamentos e das novas técnicas de combate, exponenciaram. Assim é pertinente considerar que  a Guerra da Crimeia constituiu um (triste) marco, o início de período marcado por conflitos devastadores, numa espécie de prenúncio do que viria a acontecer entre 1914 e 1918.

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Alternativa B

Oliveira Salazar figura entre as principais lideranças do projeto ultradireitista europeu que tinha como objetivos superar os problemas gerados pelo economia liberal e conter o avanço das correntes de esquerdas que propunham a superação do sistema capitalista pela via revolucionária. Um dos componentes do discurso e da propaganda fascista era o ufanismo ou exaltação dos valores nacionais como estratégia para neutralizar a tese de uma revolução proletária e internacionalista e arregimentar setores amplos da sociedade civil que amparariam um projeto fascista.

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Alternativa D

A base de sustentação parlamentar do novo presidente que assumira o lugar de Jânio Quadro que havia renunciada propunha reformas estruturantes, dentre elas chama a atenção o avanço da Ordem democrática com a universalização dos direitos políticos, estendendo os direitos políticos aos analfabetos e ao baixo e médio oficialato, o que desagradava tanto as elites quanto o generalato.

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Alternativa B

A política de substituição de importação começa na virada do século XIX para o século XX quando o governo amplia a oferta de moeda no mercado para provocar uma depreciação cambial e melhorar a competitividade do produto brasileiro perante os importados em moeda estrangeira, exemplo marcante foi a política do encilhamento comandada pelo Rui Barbosa. No governo de Venceslau Brás, durante a Primeira Guerra Mundial (1914/18) houve um surto industrial. Este processo está ligado à política de substituição de importações: já que não se conseguia importar nada, em virtude da guerra, o Brasil passou a produzir. É importante ressaltar que esta industrialização ganhará um impulso muito maior no governo de Vargas a partir de 1930.

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Alternativa C

A economia brasileira, durante a gestão de JK, ganhou um novo impulso em razão de uma certa estabilidade política em razão do arrefecimento das disputas entre os dois principais blocos políticos a UDN e o PSD/PTB. è importante ressaltar que este crescimento econômico também geral um importante aumento da dependência externa, com o aumento do endividamento externo e o aumento da inflação que corroía cada vez mais o poder de compra dos salários e, por conseguinte, o aumento da desigualdade social.

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Alternativa B

As revoluções inglesas entre 1640 e 1689 instituíram o primeiro Estado Liberal na Europa, colaborando pra que houvesse na Inglaterra um importante crescimento econômico que culminou na Revolução Industrial inglesa antes do final dos "setecentos".

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Alternativa D 

Ao longo da Baixa Idade Média observou-se nas cidades europeias um crescimento econômico impulsionado pelo renascimento comercial (o termo "revolução comercial e burguesa" usado pela banca não é apropriado) que pressionava os senhores donos das propriedades rurais a produzirem cada vez mais, como faltavam-lhes recursos que pudessem ser investidos para o avanço da produtividade, estes senhores ampliavam a carga de trabalho sobre os camponeses-servos, eis a origem da crise do século XIV - uma conclusão importante também feita por Le Goff e que deveria também ter sido anunciada pelos examinadores. 

PS.Sugeriria aos examinadores que apontassem na bibliografia do Ensino Médio termos como "revolução comercial e burguesa" e "sistema feudo-burguês", muito provavelmente não o farão, exatamente porque eles não existem.

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Alternativa C


Esta foi a questão mais bem elaborada da prova, aborda dois momentos importantes da história recente dos EUA, os anos 60 e os últimos cinco anos. O ideário iluminista tem sido apropriado por diferentes correntes políticas estadunidenses. Luther King propunha o aprofundamento da democracia com o instituto da igualdade civil e política, estendendo os direitos às comunidades afrodescendentes nos anos 60 e o "Tea Party" recentemente tem se notabilizado na defesa do neoliberalismo de forma radical propondo a redução da carga tributária e o estabelecimento de uma política de flexibilização radical das leis trabalhistas para que a economia dos EUA volte a ser mais competitiva.

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Alternativa A


Era público e notório que a redução do tráfico de escravos implicaria numa queda importante da mão-de-obra para a lavoura brasileira. O parlamento brasileiro não poderia ficar alheio a uma situação que poderia comprometer o desempenho de sua principal atividade econômica, era portanto necessário e urgente uma alteração no modelo agrário que não implicasse no comprometimento do direito pleno à propriedade privada e que ao mesmo tempo fosse capaz de preparar para uma inevitável transição ao assalariamento em detrimento do modelo escravocrata e tradicional.

Comentários

Boa análise, Cires. Ainda o problema das questões sem adequação conceitual, anacronismos teóricos que nem mesmo a bibliografia contempla.
Cires Pereira disse…
Caro Professor Weber, sabemos o quão é concorrido o vestibular da UFU, por exemplo para Medicina a concorrência por uma vaga neste concurso passou de 200 vestibulandos. Qualificam-se 10 alunos por vaga para a disputa na 2ª fase, portanto um ponto a mais ou um ponto a menos faz muita diferença na lista dos selecionados para a 2ª fase. Levando-se em conta esta realidade, os profissionais que elaboram as provas deveriam ser mais zelosos, os departamentos deveriam ser mais criteriosos na escolha destes e mais vigilantes e, por fim, a COPEVE (Comissão Permanente de Vestibular) da UFU mais rigorosa para que questões como a de nº 19 da prova tipo IV não fossem aplicadas. Acima de tudo deveria a COPEVE, sensível à esta realidade, reconhecer a temeridade e anular a questão, mesmo que ela (suponho que esta seja a argumentação para não deferir este pleito) não induza o vestibulando ao erro.

Quanto ao anacronismo teórico, bem este salta aos nossos olhos que por 20 anos lemos a bibliografia sugerida, pois é a que delineia, grosso modo, o nosso trabalho em salas de aulas dos preparatórios e do Ensino Médio. Revolução comercial, segundo estes livros , foi a expansão da atividade mercantil e a exploração pelos europeus das ilhas e continente ao longo dos Oceanos Atlântico e Indico entre os séculos XV e XVII, Renascimento Comercial foi a retomada e intensificação das atividades mercantis envolvendo a Europa, Norte da África e o Oriente Médio, sobretudo pelo Mar Mediterrâneo entre os séculos XI e XIV.

Por fim, ao final da letra D (gabarito da UFU) o examinador escreve "uma relação de simbiose..." (onde está o conflito?), e "que será chamada pelos historiadores de sistema feudo-burguês". Que historiadores são estes que deram essa denominação, mais grave ainda o termo "pelos" indica que todos o fizeram. Lamentável não é mesmo Weber?
Anônimo disse…
Grande análise Professor Cires. Pena que temos poucos professores que se preocupam com essas coisas que podem tirar da disputa o bom aluno.