27 de maio de 2014

TAILÂNDIA: CRÔNICA DE UM GOLPE ANUNCIADO

Cires Pereira

A primeira-ministra deposta  Yingluck Shinawatra
No final do ano passado, em meio à agudização da crise política tailandesa, havia alertado para uma iminente desmontagem abrupta da ordem constitucional. Nos últimos seis meses a generalização dos protestos contra o governo e os confrontos entre opositores e forças militares oficiais se avolumaram. 


Toda esta crise culminou na deposição da Primeira Ministra Yingluck Shinawatra no início de maio de 2014, mas o governo interino instituído logo a seguir foi tambem destituído agora pelo comando militar tailandês. A gota d'água teria sido o fato de Yingluck ter anunciado que anistiaria seu irmão e ex-primeiro ministro Thaksin Shinawatra. Thaksin desde sua queda em 2006 comanda o partido mesmo morando no exterior após ter sido condenado por corrupção que segundo seus partidários não passa de uma perseguição política.

O novo governo ainda não deu indícios sobre o que pretende fazer. Um governo rápido com a convocação de eleições proximamente ou um governo por tempo indeterminado. Lendo nas entrelinhas as declarações do chefe do novo governo, o general Prayuth Chan-ocha, é possível que fiquem por tempo indeterminado, pois sinalizam que somente deixariam o governo se os problemas de ordem econômica e política forem solucionados.

Algumas providências já foram tomadas: a junta interventora determinou que a ex primeira-ministra Yingluck Shinawatra e mais 154 pessoas, a maioria partícipe do governo deposto, não deixem o país. Yingluck chegou a ficar presa entre os dias 23 e 27 de maio.

O General Chan-ochoa sentenciou: “Para que o país regresse à normalidade, as Forças Armadas vão assumir o poder. Todos os tailandeses devem manter-se calmos e os funcionários devem continuar a trabalhar como de costume”.

Nos dias que antecederam o golpe de Estado, o Exército havia instaurado uma lei marcial na Tailândia e, em seguida, convocou uma reunião com o Primeiro-ministro interino Niwattumrong Boonsongpaisan, lideranças situacionistas do "Pheu Thai" que apoiam Yingluck Shinawatra, oposicionistas do Partido Democrata e as principais expressões das manifestações de rua recentes. Segundo o próprio Exército, as conversações não atingiram o objetivo de uma convivência mais harmoniosa entre as forças antagonistas. Os golpistas precisavam criar um "fato determinado" para justificarem o golpe, é sempre assim, infelizmente.

Os "camisas vermelhas", como são chamados os apoiadores do clã Shinawatra que comanda o Partido "Pheu Thai" disseram que reagiriam contra um governo golpista. Os oposicionistas do governo anterior que lideraram as manifestações tambem não estariam dispostos a aceitarem um governo ditatorial por tempo indeterminado, embora sejam favoráveis à uma intervenção rápida que restabeleça a ordem e convoque o que eles chamam de eleições limpas que possam escolher um outro governo que combata a corrupção e recupere a economia do país.

Um breve histórico da Tailândia

Tailândia é um país situado no sudeste da Ásia com mais de 500 mil Km² e uma população de mais de 65 milhões, jamais foi colonizado, embora tenha, no final do século XIX e início do século XX sido área de influência do colonialismo inglês. O inglês é o segundo idioma e a religião predominante é o budismo. Tailândia tem como vizinhos a Malásia, ao sul, o Camboja à leste, o Laos, ao Norte e Myanmar à oeste. Considerado como um "novo tigre asiático" desde finais dos anos 80.


Rei Rama IX

O golpe da semana passada foi o 12º golpe de uma série iniciada em 1932 com o fim do regime monárquico-absolutista. Desde então a Tailândia adotou uma Monarquia Constitucional, mantendo a familia Chakri no trono com a condição de aceitar os limites estabelecidos pela Constituição que dava a o 1º ministro a condução do governo. O rei Bhumibol Adulyadej, com 87 anos e membro da dinastia Chakri que rege desde o século XVIII, é o atual monarca numa das regências mais longevas da história, pois foi coroado em 1946, com o título de Rei Rama IX ou simplesmente o "Grande", é um dos homens mais ricos do planeta com uma fortuna avaliada em 24 bilhões de dólares.

Depois da 2ª guerra, a Tailândia tornou-se importante aliado dos Estados Unidos. Como as demais nações em desenvolvimento no contexto da "Guerra Fria, a Tailândia passou por várias tensões políticas e sociais que culminavam, comumente, em golpes de Estado e regimes militares seguidos até que conseguiu estabilizar-se como Estado de Direito Democrático nos anos 1980.

Esta estabilização democrática possibilitou um rápido desenvolvimento econômico na década 1980. Os Tigres Asiáticos (Cingapura, Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan), além do Japão e dos Estados Unidos, realizaram investimentos no país, sobretudo na atividade industrial. Instalaram-se indústrias têxteis, calçados, alimentos, brinquedos e produtos eletrônicos. A ideia era aproveitar a mão-de-obra e os tributos baixos para ampliarem a lucratividade das empresas estrangeiras. Com esse crescimento econômico rápido, a Tailândia entrou para o grupo dos “Novos Tigres Asiáticos”. Todo este crescimento não significou melhorias substantivas para a maior parte da população tailandesa que continuou marginalizada e pouco assistida.

Ex primeiro Ministro Thaksin Shinawatra
O último golpe de Estado ocorreu em 2006, quando o primeiro-ministro Thaksin Shinawatra (irmão da Primeira-ministra deposta Yingluck Shinawatra) foi destituído do poder pelos militares sob a acusação de corrupção. Desde então o país dividiu-se entre partidários de Thaksin que tem grande aceitação entre os setores mais pobres e espalhados pela zona rural da Tailândia e o Partido Democrata que tem uma forte audiência junto aos setores médios e abastados da sociedade. 
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