10 de maio de 2014

SER

Cires Pereira

Laurence Olivier é Hamlet, filme baseado no homônimo de de William Shakespeare em 1948.

"Existirmos: a que será que se destina?" presente na canção de Caetano Veloso intitulada "Cajuína" e "Ser ou não ser, eis a questão" da tragédia  shakespeareana "A tragédia de Hamlet, o príncipe da Dinamarca"  são indagações que me induziu a algumas considerações sobre a liberdade, a felicidade e a existência.

Como gostaríamos de voltar a condição de crianças. Sentimos muito a ausência da inocência peculiar às crianças. Entristecem-nos a percepção da distância entre nossos presentes e pretéritos. Pequenos, víamos tudo à nossa volta grande e pouco ou nada decifrável. 

O juízo, sempre de mãos dadas com o medo, de quando em vez nos chateia. Quando tornamo-nos adultos desejamos o instintivo e o movimento para irrompermos os limites, contudo a responsabilidade trava alguns instintos, a paciência conspira contra nossos movimentos e a resignação encobre alguns de nossos limites. Chego a cogitar que a fase adulta não passa de uma abstração.

Quando pequenos, num ontem a cada dia mais remoto, a alegria ditava a conduta e o ter nada ou muito pouco não importava. Adultos sucumbimo-nos às regras que são, paradoxalmente, segundo nos mesmos as armas  da conservação do seres livres e os escudos contra o arbítrio. O nosso livre-arbítrio parece não existir quando nos vemos reféns de um arbítrio ungido por nós mesmos. A liberdade, portanto, parece tambem ser uma quimera. Ao privarmos nossa liberdade ou aceitar que ela nos seja tirada, abdicamos do direito à felicidade.

Pode parecer um contrassenso mas nos apequenamos quando crescemos, pois renunciamos ao que com tanto esmero conquistamos. Renunciar aos nossos direitos movidos pelas convenções sociais e sucumbidos às concessões, muitas destas sabidamente prejudiciais.

Como temos involuído? Como temos freado nossos passos ainda que quiséssemos apressá-los? Como temos recuado quando as oportunidades e os desejos incitam avanços? 

A felicidade é uma possibilidade cada dia mais remota, por obra e graça de nós mesmos que, no afã de alcança-la, nos distanciamos dela.

Movemo-nos pela razão, pois ela nos sentenciam que não devemos dar ouvidos ao instinto e ao sentimento. Distanciamo-nos do puro, pois nos encontramos inebriados pelo refinado. Preferimos o comodismo que incomoda ao incômodo do enfrentamento e, o que é mais triste,ao incômodo da novidade

Distanciamo-nos da condição de criança para deliciarmos com a condição de adulto. Estas delícias parecem escorrer por entre nossos dedos presididos por mãos que pateticamente obedece m apenas o cérebro. Adultos, temos nos comportado como velhos. 

Resta-nos então retomar as rédeas de nossas vidas e o caminho não é outro, senão alongarmos o nosso tempo de criança para que possamos nos comportar como adultos e nos sentir adultos quando estivermos velhos. Assim voltaremos a cogitar a possibilidade da felicidade, que até o momento tem nos parecido ser uma quimera.

“Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre

Em nosso espírito sofrer pedras e setas

Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim? 
Morrer.. dormir: não mais."
Hamlet, o príncipe da Dinamarca  W.Sheakespeare 1599
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