PROGRAMA "AKTION T4": OUTRO DESCALABRO NAZISTA

Cires Pereira
Algumas das vítimas do Aktion T4

A crise econômica

A crise econômica agravada com a forte e implacável depreciação de títulos públicos e de ações de empresas privadas negociadas na Bolsa de Valores de Nova Iorque provocou pânico entre os empresários em praticamente todas as economias capitalistas. Muitos passaram a temer a insolvência de seus negócios se não fosse possível estancar o desabamento da confiança na capacidade dos governantes em apresentarem um plano exequível para a superação de um problema gerado pelas próprias empresas privadas.

Estas empresas, no afã de terem seus lucros cada vez maiores, não hesitavam em reduzir os custos. Comprometiam o poder de compra dos salários pagos aos seus funcionários e reduzia o número de funcionários ainda que não houvesse redução dos investimentos para as aquisições de bens de capital e matérias-primas. A crise, portanto decorria da aplicação do modelo liberal que então agonizava.

O mundo capitalista, a começar pela economia estadunidense, estava diante de uma crise de superprodução de intensidade e de extensão inéditas. Atemorizados encontravam-se governos e empresariado também pelo avanço da esquerda revolucionária que, segundo eles, aproveitariam a desolação e a indignação populares para semearem apelos em favor do socialismo.

Esta crise atingiu muito rapidamente a economia alemã, à época conduzida por um governo liberal, em razão desta crise o desemprego na Alemanha chegou a 6 milhões no início de 1933. Aproveitando-se deste quadro de crise econômica que afetava profundamente os índices de aprovação dos eleitores no governo liberal, comunistas e nazistas avançavam eleitoralmente. Hitler, que quase havia vencido as eleições presidenciais no ano anterior, orientava seus liderados à uma negociação que pudesse alçá-lo ao posto de Chanceler ou Primeiro Ministro. Aumentava, entre os empresários e a classe média germânicas, o temor do avanço da esquerda. A saída seria o projeto nazista.


O avanço dos Nazistas no contexto da crise econômica

Logo que se tornou Primeiro Ministro, Hitler manipulou o suficiente para a obtenção de poderes plenos, procurando se valer do argumento de que era preciso um governo competente para enfrentar a crise econômica, implacável para combater as esquerdas e determinado o suficiente para “salvar a Alemanha do caos”. Em 1934 Hitler já se apresentava como Fuehrer do III Reich ou Chefe incontestável do III Império Alemão. A ordem democrática, amparada pela Constituição de Weimar, foi suplantada pelo totalitarismo do PNSTA (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães – Nazista).

Uma parcela majoritária do povo alemão encantou-se com Adolf Hitler. Anestesiada pela retórica do novo líder, esperançosa de que qualquer outro plano seria melhor do que o liberalismo que provocara o “caos” e, sobretudo, animada com os primeiros resultados econômicos e sociais positivos da gestão nacional-socialista optou por “fazer vistas grossas” aos desatinos do novo governo contra a democracia, a liberdade e as minorias consideradas responsáveis pela crise e pela humilhação.

Judeus, imigrantes, comunistas, democratas, homossexuais e outros eram acusados de conspiração, de traição de individualismo e de impatriotismo. Tais acusações infundadas serviam de desculpa para o uso descomunal da truculência. O resultado foi a eliminação de milhões de pessoas dentro da Alemanha e, com a expansão do Império entre 1938 e 1945, e nos territórios ocupados pelos nazistas.

Até 1939 a economia nacional tinha sido recuperada, os indicadores sociais melhorados de forma surpreendentes. Por outro lado o governo já tinha suprimidos todos os partidos de oposição, fechado todos os meios que pudessem denunciar os descalabros do novo governo. Os nazistas acabaram conseguindo uma espécie de salvo-conduto da maioria dos alemães para levar a cabo um governo totalitário, nacionalista, racista e belicista.

A recuperação do orgulho alemão também foi impulsionada por uma ideologia de superioridade de raça ariana, o que repercutiu em ações agressivas que repercutiram num dos maiores massacres do século XX.

Desde o seu surgimento no espectro político alemão no início da década de 1920, Hitler acusava as minorias de atrapalharem o progresso e a pureza da raça ariana, uma "raça superior" que constituía a população alemã. Os nazistas responsabilizam os governos vitoriosos na 1ª Guerra, estas minorias, o governo alemão vigente e os comunistas pela humilhação imposta aos alemães no pós 1ª guerra, expressa no Tratado de Versalhes de 1919, que originou toda a crise na Alemanha.


O programa Aktion T-4

Assim que os nazistas começaram a governar e a terem maioria no parlamento as políticas "higienistas raciais" foram deflagradas. Uma lei datada de julho de 1933, a "Lei para a Prevenção de descendentes hereditariamente doentes" determinava a esterilização para as pessoas que poderiam gerar filhos portadores de certas “anomalias” supostamente hereditárias, como a esquizofrenia, a epilepsia, doença de etc. A esterilização também foi sugerida para as pessoas que tivessem dependência crônica ao álcool.

Idealizadores e coordenadores do Aktion T4 -
Dr. Viktor Brack, Dr. Philipp Bouhler e Dr. Karl Brandt


Um comitê foi criado em maio de 1939, organizado pelos médicos Karl Brandt e Viktor Brack, cabendo ao Dr. Philipp Bouhler o comando do programa Aktion T4, e em agosto governo nazista colocou em prática um programa com fins eugenistas, isto é a eliminação das pessoas portadoras destas anomalias. Os nazistas queriam construir um país com pessoas supostamente perfeitas, sem defeitos, brancas e vocacionadas, ao mesmo tempo, em obedecer o regime e construir “um Império de mil anos”.

Sede do Aktion T 4

Oficialmente o Aktion T4 estendeu-se até agosto de 1941. O termo “T4” refere-se ao endereço no qual era executado o programa em Berlim, Tiergartenstrasse 4. Os médicos e enfermeiros recrutados pelo governo nazista praticavam a eutanásia, abreviando as vidas de crianças, adultos e velhos que eram tirados de suas famílias com o argumento de que seriam bem tratados por instituições de saúde mais adequadas aos mesmos. 

Parteiras e médicos eram obrigados a registrarem as crianças com até três anos que apresentavam sintomas de retardo mental, deformidade física ou outros sintomas incluídos no questionário do Ministério da Saúde do Reich. 

As crianças eram tiradas de seus lares e levadas para uma “clínica” onde um grupo de três peritos dava o “veredicto”, após constatadas as “deformidades” ou “excepcionalidades”, na maior parte das vezes o veredicto era a eliminação com medicação injetável ou fome gradual. 

O programa de eutanásia nazista, decretado pelo próprio Hitler, logo se estendeu às crianças mais velhas e adultos com deficiências. Pessoas diagnosticados com esquizofrenia, síndrome de down, epilepsia, doenças senis, paralisia resistente ao tratamento, doenças sifilíticas e retardo mental.

Um total de seis centros de extermínio foram estabelecidos na Alemanha. Em todos eles havia um crematório onde os corpos eram incinerados. O uso de câmaras de gás nos centros de extermínio da eutanásia, finalmente, serviu como centros de treinamento para os nazistas. Mais tarde estas técnicas foram exponenciadas nos grandes centros de extermínio como Auschwitz e Treblinka. Em meio aos protestos, o governo Hitler suspendeu o programa em 23 de agosto de 1941. 

Mesmo que os responsáveis pelo Aktion T4 tenham se esmerado em manter sigilo quanto ao fim destas pessoas, não tardaram a aparecer denúncias sobre as mortes e o desaparecimento dos cadáveres. Lideranças eclesiásticas, incluindo católicas e protestantes, denunciavam e estimulavam protestos contra o Aktion T4, o governo foi forçado a ceder às pressões e optou por abortar o projeto.

Os médicos e enfermeiros envolvidos foram então recrutados para outros projetos não menos abjetos, muitos foram levados para os campos de concentração criados nas áreas conquistadas pelo III Reich no Leste europeu. conseguiu evitar manifestações populares de oposição, afinal o programa encaixava-se perfeitamente nos ideais eugenistas que sempre foram propagados pelos nazistas. 

Segundo relato das pessoas envolvidas com o programa Aktion T4 ocorreram algo em torno de 70 mil mortes. Outros números foram apresentados com farta documentação pelo Tribunal de Nuremberg. Para este Tribunal, constituído pelos "Aliados" assim que o conflito terminou em 1945, o número de mortos passou dos 270 mil. 

Replico aqui uma fala atribuída ao Dr. Hermann Pfannmüller, um dos mais importantes médicos vinculados ao III Reich, em defesa do programa Aktion t4: “É insuportável para mim que o melhor, a flor de nossa juventude, perca sua vida no front, enquanto elementos associais, débeis mentais e irresponsáveis tenham uma existência segura no asilo ". Estas palavras por si só denunciam a natureza excludente, totalitária, covarde e abjeta do nazismo.

"Junção Berlin" Monumento às vítimas do programa Aktion T4, por Richard Serra.
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