14 de maio de 2014

NEY MATOGROSSO E O SENSO COMUM SOBRE O BRASIL

CIRES PEREIRA

Ney Matogrosso no Programa Roda Viva - TV Cultura

Ney Matogrosso concedeu recentemente uma entrevista ao canal de televisão de Portugal (RTP), na maior parte do tempo que dispunha Ney optou por fazer uma análise sobre o Brasil às vésperas da Copa do Mundo programada para Junho de 2014. 

Confira a entrevista, clicando aqui: https://www.youtube.com/watch?v=dy3x8ZXjgk0


Confesso que fiquei estarrecido com sua conclusões, penso até que se houvesse tempo maior ele apresentaria mais argumentos para sustentar o que me pareceu ser  sua principal conclusão, dita logo no início da entrevista quando corrige o jornalista ao afirmar que no Brasil há: 
"...um certo não, um enorme desconforto, porque o governo brasileiro está gastando bilhões de reais para fazer estes estádios de futebol que muitos serão elefantes brancos e nunca mais haverá nada lá ... os hospitais públicos as pessoas estão sendo jogadas no chão em cima de um paninho ... são imagens que você vê na televisão diariamente ... e a situação está piorando ... hoje em dia a saúde no Brasil é uma vergonha, as pessoas vão para os hospitais públicos e se deitam no chão .... a educação no país é vergonhosa ... nós somos o país que mais paga imposto no mundo, para onde vai (sic) estes nossos impostos?... nós não temos nada, este dinheiro não reverte em nada, o transporte público é horroroso, então como é que o povo brasileiro pode estar satisfeito com isso, tudo é padrão FIFA, então que seja padrão FIFA para o povo".

Logo em seguida o entrevistador pondera que:

"o ex-Presidente Lula afirma que tinha havido um grande movimento que os pobres passaram para a classe média. Isso é verdade ou é aquilo que se conta?" 

Ney responde: 

Então vamos lá, então se o Presidente Lula resolveu dar uma bolsa família de 70 reais por mês para quem passa fome, não resolve, mas vai compra um arrozinho e um feijão, mas você não pode só dar o dinheiro, porque o quê acontece? ... se você tem mais filho você tem mais um (inaudível) ... eu acho que pra você dar umas coisas dessas, você tem que, paralelamente ou necessariamente, para receber esse dinheiro você tem botar seus filhos na escola para que futuramente eles sejam instruídas e trabalhem para ganharem seu dinheiro. Não, quanto mais filho (sic), mais ganham, então eles fazem filho (sic). E ai? Até quando? ... A presidente Dilma, claro, a eleição está chegando e ela diz que vai dar dez reais a mais do Bolsa-família, isso significa alguns milhões no..." 

Emenda afirmando:

"eu sou crítico com tudo, não só com o Partido trabalhista, sou crítico com a política ... eu sempre imaginei que houvesse algum ideal elevado da política, não vemos isso é corrupção diariamente, semanalmente, escândalos de corrupção no país.. e no PT é muito mais visível, agora não estou dizendo que é só o PT, estou dizendo que todos são corruptos, em todos os partidos tem corrupção." 

A melhoria, diz Ney, "é essa, é essa bolsa-família ... essa gente saiu da extrema-miséria para a pobreza enorme". 

O entrevistador intervem reportando que o PT, Dilma e Lula tem afirmado que
"as pessoas deixaram a pobreza e passaram para a classe média, que há uma classe média maior no Brasil." 
Ney objeta: 
"Se considerar isso classe média, sim. As pessoas agora podem comer, podem comprar um frango porque antigamente era miséria, miséria, miséria, porque ainda não tinham o que comer, mas ainda tem 10 milhões de miseráveis no Brasil, porque num país como o nosso onde você joga uma milho num entulho de cimento nasce um  pé de milho, é imperdoável ... "
"Nós não precisaríamos ter essa copa, já que tinha tanto dinheiro disponível, porque não resolveram o problema do nosso país, de transporte, de educação e de saúde?" Para construírem estádios, eles estão tirando moradores  de áreas enormes, eles tiram a casa deles dizendo que vão dar u m apartamento, um dia, então fica aquela quantidade enorme de gente esparramada dormindo no meio da rua. Os pobres estão reclamando, o escândalo é tamanho que até essas pessoas param pra refletir. Sou crítico não posso estar satisfeito com as coisas que eu vejo, eu adoraria viver num país civilizado, sabe, num país civilizado com direitos respeitados, agora o Rio de Janeiro tem uma pessoa assassinada, todo dia tem uma pessoa pobre morta a bala, porque ai fica sim, ah porque foi tiro entre bandido e polícia, ai você vai lá para saber e não foi polícia e bandido sabe, o Amarildo sumiu e depois sumiu. O que a gente tá vendo é um regime autoritário, não digo a presidência de república". 
Ney conclui dizendo que:
"A única coisa que tem lhe dado prazer é subir no palco e cantar".
Confesso Ney, que sempre foi um prazer vê-lo e ouvi-lo cantar,  a meu ver um dos maiores intérpretes da música brasileira, contudo tenho que também confessar que não concordo com suas conclusões sobre o Brasil, sobre o governo brasileiro. Suas conclusões são a uma síntese de uma espécie de "senso comum" (juízos feitos sem o conhecimento de todas as causas e/ou sem o rigor técnico-científico) que tem sido propalado pela grande parcela da mídia brasileira em comum acordo com os oposicionistas ao governo presente. Por isso apresento-lhe alguns dados e considerações que reforçam minha opinião contrária à sua.

Olhe este gráfico:


A democracia pressupõe o convívio harmonioso das opiniões dissonantes e contrárias, logo não escreveria para criticá-lo apenas porque discorda do governo, mas tenho que deixar visível o meu estarrecimento diante da replicação que faz deste senso comum do tipo "O Brasil piorou" ou "O que a gente tá vendo é um regime autoritário" ou "o governo brasileiro está gastando milhões de reais com a construção de estádios" ou "fica aquela quantidade enorme de gente esparramada dormindo no meio da rua"

Se agruparmos estas frases, o ouvinte ou leitor terá o seguinte entendimento. Enquanto o governo autoritário gasta milhões com estádios, uma quantidade enorme de pobres desassistidos esparrama-se pelo meio das ruas. 


Você, Ney, sabe que há um exagero nisto, mas então por quê, sendo  você uma pessoa  lúcida e sensível, replica isto? Não são poucos os que concordam com você. Mas pediria então a você que fosse até os pobres e fizesse uma pesquisa perguntando, suas vidas melhoraram? Municiado com as respostas, compare com o que você disse sobre eles. Sabe o que provavelmente concluirá? Fui apressado em tirar conclusões, não dei à parte interessado a possibilidade de dizer o que pensa ou essa gente não quer apenas "esmolas" do governo, essa gente pleiteia dignidade que até recentemente, não lhes era concedida. Faço um apelo a  você, caro Ney que demonstra tanta sensibilidade ao drama social, vá checar a realidade e dizê-la com o mesmo vigor usado na entrevista. Tenho esperanças de que não repetirá esta frase sobre os milhões de agraciados com o "Bolsa-Família" e o "Minha Casa Minha Vida" : "Não, quanto mais filho (sic), mais ganham, então eles fazem filho (sic). E ai? Até quando?" Até mesmo porquê você e eu sabemos que a maioria não age assim.  

Sou obrigado a desmenti-lo, Ney, senão vejamos o quadro abaixo:


Sendo uma pessoa influente e um formador de opinião, diria até que isso deveria ser um dever seu, pois é diretamente proporcional ao direito que o Estado de Direito Democrático te concedeu. 

Sobre a sua impressão de que não houve mudança social importante, reitero o apelo para que cheque junto aos órgãos multilaterais e multinacionais como o FMI, a ONU, o UNICEF, o Banco Mundial, a OCDE se realmente não houve uma mudança social importante (para melhor).  Aproveite sua pesquisa e certifique (ou não) se esta mudança tem alguma ligação com as políticas de transferência de renda e outras políticas públicas adotadas nos últimos 12 anos pelo governo federal.

Disseste tambem que a saúde, a educação e o transporte público estão piorando, bem os dados que disponho me levam a concluir que tem havido melhorias nestas áreas, mesmo que ainda haja muita pra ser feito e muito dinheiro que precisa ser ainda dispendido. 

Abaixo alguns dados que confirmam o que digo, cheque-os por gentileza, não quero te ludibriar.

Programa "Minha casa, minha vida"



Educação


Matrículas Ensino Superior



Evolução da Taxa de analfabetismo no Brasil (Dados PNAD 2012)


Os investimentos do governo com políticas de atendimento médico-hospitalar como o Programa Mais Médicos, com a ampliação de vagas nas escolas de medicina e de enfermagem, com distribuição de medicamentos como o Farmácia Popular e a política de vacinação gratuita em massa contra o HPV, Hepatibe B, H1N1, DTPa e com as vacinas para o público de 0 a 6 anos tem aumentado ano após ano, mesmo que ainda sejam insuficientes, não se pode ignorar o fato de que alguma melhoria houve.

Você disse que somos o país que mais paga imposto no mundo, veja abaixo esta tabela e tire (outra) conclusão, mas duvide de minha tabela e vá em busca de mais informações supostamente isentas, como você é um cara ético como ainda quero crer, vá à televisão e peça desculpas pela ilação.

Fonte: OCDE ano Base: 2010

Disse ainda que nos anos 50 o pais era muito melhor, éramos governados por Vargas até 1954 e por Juscelino até 1960, a assistência governamental funcionava, os hospitais eram bons, etc. Na realidade, nosso país viveu um quadro de crescimento econômico que produziu uma enorme dependência ao capital estrangeiro. Todas estas transformações econômicas foram acompanhadas, obviamente, por outras tantas transformações sociais. Exemplo disso está o forte processo de êxodo rural daquela mesma população outrora concentrada no campo, a qual, em busca de trabalho, chegou aos grandes centros urbanos. Este processo de urbanização geraria mais tarde, como sabemos, o inchaço das cidades, aumentando os problemas sociais que até hoje são enfrentados pelo Estado, como falta de moradia, assistência social (saúde e educação), de transporte coletivo de qualidade, isso sem falar dos níveis de desemprego. 

Quero dizer, meu caro Ney, que as dívidas sociais e as dívidas financeiras contraídas pelo Estado cresceram muito exatamente a apartir desta década de 50 e por causa também delas um parte importante do orçamento público é reservada para o enfrentamento destas mesmas dívidas que, sem que houvessem governos capazes e desejosos de enfrentá-las, exponenciaram. São esses governos, que hoje você critica, que tem enfrentado com limitada possibilidade de manobra estes problemas e tem conseguido avanços. Mas você prefere não reconhecer, o que lamento.

Você acertadamente afirma que a corrupção no Brasil tornou-se mais visível, concordo mas não creio, como parece ser essa a sua opinião, que tenha aumentado. Visível porque a Constituição de 1988 permitiu que avançássemos nesta direção, sabes muito bem que antes o Brasil era refém da ditadura, logo a imprensa e os demais poderes não tinham direitos para criticarem e exigirem a apuração e a punição. 

Hoje é diferente temos um Ministério público com autonomia para investigar, uma Polícia Federal que tem se pautado com autonomia em relação às conveniências de quem nos comandas e representam, alguns sentenciados estão cumprindo penas, a imprensa tem tido liberdade para denunciar, enfim "pari passu" haveremos de reduzir e muito a corrupção. Depende muito mais de nós, comecemos por não sonegar impostos, não furar filas, não pedir favores que possam prejudicar nossos semelhantes junto aos órgãos públicos, escolhendo bem os que deverão nos representar e/ou nos governar, sugerindo mais aprimoramentos em nossas leis para coibir ainda mais a corrupção. 

Enfim podemos ajudar e muito o nosso país, não acha?

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