VESTIBULAR UNICAMP UM EXEMPLO DE BOA EDUCAÇÂO

Cires Pereira - 10 de novembro de 2013*



Leia também meus comentários sobre a prova de Ciências Humanas do ENEM 2013 

A prova de História do Vestibular Unicamp realizado neste final de semana premia o candidato a uma das vagas desta que é uma instituição de terceiro grau referência no Brasil. Premia especialmente aquele que teve um bom curso de história ao longo dos três anos do Ensino Médio e que soube aproveitá-lo.


Tem sido previsível a qualidade da prova de história, enfim dá gosto preparar nossos alunos pra um certame como este. É preciso reunir três ingredientes para enfrenta-lo: sagacidade para compreensão dos enunciados, atenção e riqueza vocabular para compreender os textos, os gráficos e as gravuras e, por fim, uma boa compreensão do conteúdo de história ministrado ao longo do Ensino Médio.

As 11 questões apresentadas não poderiam envolver toda a matéria, sempre soubemos que isto seria impossível, contudo houve da parte da banca examinadora o equilíbrio que se espera dela, seis questões de História Geral (01,03, 04, 09, 10 e 11 dos cadernos Q e X), duas de História da América (05 e 08) e três de História do Brasil (02, 06, 07).

Em duas questões foram apresentadas duas obras de artes que tiveram uma importância crucial na compreensão da História pra suas respectivas épocas: O quadro de  Delacroix de 1830 “A liberdade guiando o povo” e o quadro de Andy Wahrol “Chê” um dos mais importantes trabalhos do movimento “Pop Art” das décadas de 60 e 70. Ainda tiveram espaços para colocarem outra questão muito relevante, a relação entre os EUA e a América Latina, em particular entre o EUA e o Brasil no contexto da 2ª guerra mundial, enfatizando a política de Boa Vizinhança de Franklin Delano Roosevelt valendo-se do personagem “Zé Carioca” de Walt Disney.

Por fim uma bela questão sobre filosofia e história, que focaliza o processo de secularização do conhecimento na Época Moderna, isto é como a comunidade acadêmica aos poucos se distanciava das verdades absolutas e dogmáticas e se aproximavam das verdades construídas a partir das dúvidas e da investigação científica.

As questões vinculadas à História do Brasil foram muito bem construídas com destaque para a questão 6 que estabelece uma relação importante sobre o quadro econômico europeu marcadamente próspero em razão do início da industrialização e suas implicações nas economias periféricas, como era o caso da brasileira, marcadamente agropastoril, que começava a acolher imigrantes já ao longo do 1º Reinado,  o que corroía as bases do trabalho compulsório imposto ao afrodescendente.

Enfim tratou-se de uma prova absolutamente seletiva, muitíssimo clara e de nível médio como tem que ser. É preciso que os que comandam o INEP que é o órgão responsável pela aplicação do ENEM levem em conta vestibulares como o vestibular da UNICAMP. A fórmula do sucesso da UNICAMP é muito simples, uma mistura de sensibilidade, criatividade e humildade. A UNICAMP é uma das raras instituições que convidam a comunidade escolar do Ensino Médio para conversas que bem aproveitadas, produzem consensos. A melhor maneira de fazer um concurso que selecione alunos para uma instituição de 3º grau é construir uma prova que seja a exata expressão da extensão e profundidade da realidade do Ensino Médio. UNICAMP tem tido, como demonstrou na prova de hoje, esta sensibilidade.

A educação agradece.

*Professor de História do Ensino Médio em Uberlândia MG
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