VANDALISMO E VOLUNTARIADO

CIRES PEREIRA

VANDALISMO

 
A câmera "big brother" flagrou a maculação, provavelmente gratuita, da escultura em bronze de Carlos Drummond de Andrade na Praia de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Ao que tudo indica já as autoridades tem as identidades do casal que cometeu mais uma barbaridade. Infelizmente isto tem sido corriqueiro nas cidades brasileiras. Ainda testemunharemos a redução drástica deste delito covarde e infame, duas medidas imediatas poderiam ser a ampliação das penas e a ampliação e sofisticação das câmeras próximas aos monumentos. 

Recentemente outros monumentos foram também maculados: O Monumento às Bandeiras, as colunas do MASP e a exposição "Giganto" na cidade de São Paulo. Ainda não se identificou os autores deste atos de vandalismo. A impunidade certamente estimula novos atos como estes, por isso devemos exigir das autoridades e dos  legisladores municipais, estaduais e federal, providências imediatas na legislação, na identificação e na repressão ao vandalismo de toda natureza em nosso país. 

Detalhe do Monumento às Bandeiras de Victor Brecheret

É imperativo punir aqueles que de alguma forma incitam e/ou justificam o vandalismo, dou-lhes um exemplo. O Monumento às Bandeiras em São Paulo foi recentemente pichado, na ocasião havia uma manifestação de indígenas que se posicionavam contra o novo marco regulatório para a demarcação de terras indígenas. Ao que tudo indica não foram os manifestantes indígenas que picharam o monumento. As pichações, segundo inquérito policial, não parecem ter sido feitas por indígenas ou pessoas vinculadas às ONGs associadas à causa indígena. 


Em carta aberta, Marcos Tupã, coordenador da Comissão Guarani Yvyrupá, responde às críticas sobre a intervenção em escultura ao lado do Parque Ibirapuera, em São Paulo, validando a ação como um ato de resistência.

"Alguns apoiadores não-indígenas entenderam a força do nosso ato simbólico, e pintaram com tinta vermelha o monumento. Apesar da crítica de alguns, as imagens publicadas nos jornais falam por si só: com esse gesto, eles nos ajudaram a transformar o corpo dessa obra ao menos por um dia. Ela deixou de ser pedra e sangrou. Deixou de ser um monumento em homenagem aos genocidas que dizimaram nosso povo e transformou-se em um monumento à nossa resistência. Ocupado por nossos guerreiros xondaro, por nossas mulheres e crianças, esse novo monumento tornou viva a bonita e sofrida história de nosso povo, dando um grito a todos que queiram ouvir: que cesse de uma vez por todas o derramamento de sangue indígena no país! Foi apenas nesse momento que esta estátua tornou-se um verdadeiro patrimônio público, pois deixou de servir apenas ao simbolismo colonizador das elites para dar voz a nós indígenas, que somos a parcela originária da sociedade brasileira".

Conclui afirmando...

Ficamos muito tristes com a reação de alguns que acham que a homenagem a esses genocidas é uma obra de arte, e que vale mais que as nossas vidas. Como pode essa estátua ser considerada patrimônio de todos, se homenageia o genocídio daqueles que fazem parte da sociedade brasileira e de sua vida pública? Que tipo de sociedade realiza tributos a genocidas diante de seus sobreviventes? Apenas aquelas que continuam a praticá-lo no presente. Esse monumento para nós representa a morte. E para nós, arte é a outra coisa. Ela não serve para contemplar pedras, mas para transformar corpos e espíritos. Para nós, arte é o corpo transformado em vida e liberdade e foi isso que se realizou nessa intervenção.Aguyjevete pra todos que lutam!

Não sei ao certo se esta carta resultou de um amplo consentimento da comunidade indígena, quero crer que sim até mesmo porque até agora não tenho notícia de discordâncias por parte dos indígenas ao conteudo dela.

Compreendo a reação das comunidades indígenas ao genocídio iniciado nos tempos coloniais e concordo, parcialmente, com argumentos expressos na Carta. Todavia rechaço com igual veemência a ação terrorista bem como os que concordam e justificam este tipo de ação. A Comissão Guarani Yvyrupá equivoca-se ao justificar o injustificável, ao indultar a maculação de um patrimônio histórico e cultural. 

Caso não concorde com o simbolismo ou significado deste monumento, erijam outro, mas jamais maculem ou destruam o que existe, pois defenderem atitudes com esta é abrir um precedente perigoso a uma reação na mesma proporção. 

O Estado Brasileiro deve continuar criminalizando atitudes semelhantes contra os nossos irmãos povos indígenas espalhados em nosso País, deve também criminalizar reações indígenas que coloquem em risco os direitos individuais e coletivos consagrados na Constituição, como é o caso do direito à nossa memória. As comunidades indígenas em particular e a sociedade brasileira em geral precisam ser respeitadas.

VOLUNTARIADO

Segundo definição da Organização das Nações Unidas, "o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido ao seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo sem remuneração alguma em diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem estar social, ou outros campos..."

Hebert Parente restaura a escultura 

Sempre saliento que a melhor maneira de educar uma sociedade é fazendo o que parece ser certo, fazer vale por milhões de palavras. As agressões à memória cultural do povo brasileiro, institucional ou não, precisam ser denunciadas e rechaçadas, campanhas de conscientização devem ser feitas, nossas crianças desde cedo precisam receber uma educação neste sentido. Contudo, insisto, a melhor maneira de responder ao vandalismo é a conscientização por gestos. A imagem deste ano que termina deveria ser a atitude de Hebert Parente limpando a escultura de Carlos Drummond de Andrade. Que atitudes com a de Hebert Parente sejam replicadas em todos os cantos de nosso país e a todo instante. 

Por um Brasil nos que permita cenas como esta, todos os dias.


O Poeta agradece


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