UMA ESTRADA (NARA) E UM VIOLEIRO (MILLER)

CIRES PEREIRA


As concepções e expressões artísticas e literárias, partes constitutivas do conjunto da produção cultural, revelam um tempo, um lugar, as pessoas e as relações entre estas pessoas naquele lugar e naquele tempo. São, portanto fontes históricas altamente relevantes. Nada pode ser desprezado ou minimizado. As escolhas por estas fontes não são e não podem feitas aleatoriamente, nos valemos de vários critérios, na maior parte das vezes objetivos, para colhermos umas e preterirmos outras. Mas, temos que confessar, nos valemos também de critério subjetivo como o gosto que nutrimos por uma expressão artística. 

É possível uma análise sobre uma situação num tempo em certo lugar valendo-se destas expressões culturais, podendo se limitar às expressões musicais. Inicio dando "nome aos bois" - A ditadura militar entre 1964 e 1985 no Brasil". Várias músicas foram concebidas e difundidas no Brasil ao longo deste período de vinte e um anos, a grande maioria, a princípio não alude ou não se relaciona à situação política brasileira. Assim poderíamos limitar nosso campo de observação à uma fração menor de músicas que expressam juízo de valor em relação à situação política, uma parte defendendo ou enaltecendo o regime, outra parte colocando-se contra o regime. Contudo é providencial que não nos incorramos na arapuca dicotômica ou na veleidade mecanicista. Seria cômodo apresentar a vocês músicas que falam bem e músicas que falam mal do regime, mas repilo esta comodidade, pois fatalmente minha peça de estudo tornar-se-á superficial caindo, com justiça, no limbo.

Não tenho condições, tampouco vontade, de fazer um levantamento de todas as músicas do período que "tocam neste assunto". Não preciso tanto quanto não quero apresentar-lhes, para em seguida dissecar, uma música que enalteceu o regime. Também não me disponho em desfilar por este texto as músicas que se colocaram contrárias ao regime. Em resumo não pretendo realizar um trabalho que, pelas músicas, analisa o derradeiro regime ditatorial brasileiro (Oxalá seja o último!). Quero pedir licença para, movido sobretudo pelo critério subjetivo, analisar uma música, um compositor e sua parceira na interpretação. A composição musical por si só sugere a indignação e a repulsa em relação ao regime político ditatorial perpetrado por civis e militares que solapou a ordem democrática e subtraiu, covardemente, direitos fundamentais como a liberdade dos brasileiros de um modo geral.

A Estrada e o Violeiro - Compositor Sidney Müller - Intérpretes: Sidney Miller e Nara Leão.

As minhas motivações, sobretudo as subjetivas, para escrever este texto são várias: adoro a voz de Nara, tenho predileção pela música popular brasileira, Miller é autor de outra "joia da MPB", a música "Pois é pra quê", um dos meus amores (Rúbia Pereira) adora esta música e a apresentação desta música no festival da canção da MPB ocorreu sob condições bastante difíceis. "A Estrada e o Violeiro" conquistou o 1º lugar no quesito melhor letra no III Festival da Record em São Paulo, no ano de 1968.

O carioca Sidney Miller no ano seguinte assinou os arranjos do disco de Nara Leão intitulado "Coisas do Mundo", um dos LPs mais bem avaliado pela crítica na carreira de Nara Leão. Ao lado de Théo de Barros, Caetano Veloso e Gilberto Gil compôs a trilha sonora de uma peça assinada por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri intitulada "Arena conta Tiradentes" de 1967. O compositor musicou alguns sonetos de Luis Vaz de Camões em 1972, recebendo muitos elogios. O último disco de Miller foi lançado em 1974 sob o título "Línguas de Fogo". Em julho de 1980, Miller faleceu precocemente, aos 35 anos. Sua curta carreira foi intensa e de alto nível, fez história e nos deixou um grande legado. Ignorar Sidney Miller na história da MPB é o mesmo que se propor em contar esta história pela metade, o que é imperdoável.

Guarnieri (centro de camisa branca) no "Arena conta Tiradentes 1967
A música interpretada por uma casal: ele como a estrada (Sidney Miller) e ela como Estrada (Nara Leão). A voz mais aguda de Nara "Vai violeiro me leva pra outro lugar que eu tambem quero um dia poder chegar" e a mais grave de Sidney "Eu que já corri o mundo cavalgando a terra nua. Tenho o peito mais profundo e a visão maior que a sua." se alternam e produzem algo bom de se ouvir. O encontro de ambos para a interpretação não poderia ser mais feliz, a música de Miller, pelo seu conteudo marcante, já teria um lugar de destaque entre as melhores de todos os tempos. Faltava, contudo, uma interpretação que a tornasse "imortal". Nara tornou isto possível. o vídeo abaixo registra este que se constituiu num dos momentos mais ontológicos da cultura brasileira, Nara e Sidney (sob algumas vaias que discordavam da escolha do juri como a melhor letra) interpretam "A Estrada e O Violeiro".

O final da composição parece-me muito revelador, é carregado de criticismo ("em meu povo não ha santo, não há força, não há forte", não há morte...") frente ao arbítrio que se impunha em nosso país e, ao mesmo aponta uma saída, a emancipação de um povo que busca uma "sorte melhor" do que a estabelecida pelos militares. No auge do conteudo da composição e em tom desafiador, o violeiro (Miller) dispara "Saio fora desse leito, desafio e desafino...". O violeiro passa e a estrada (abarrotada de gente) clama para ser levada "pra outro lugar" com a certeza de encontrar.

"Se esse rumo assim foi feito, sem aprumo e sem destino. Saio fora desse leito, desafio e desafino. Mudo a sorte do meu canto, mudo o Norte dessa estrada. Em meu povo não há santo, não há força, não há forte. Não há morte, não há nada que me faça sofrer tanto. Vai, violeiro, me leva pra outro lugar. Eu também quero um dia poder levar Toda gente que virá. Caminhando, procurando. Na certeza de encontrar..."

Simplesmente soberbo !
Para Rúbia, com muito amor.





Abaixo a letra da música:

Sou violeiro caminhando só, por uma estrada caminhando só.  
Sou uma estrada procurando só levar o povo pra cidade só. Parece um cordão sem ponta, pelo chão desenrolado.  
Rasgando tudo que encontra, a terra de lado a lado. Estrada de Sul a Norte, eu que passo, penso e peço. Notícias de toda sorte, de dias que eu não alcanço.  
De noites que eu desconheço, de amor, de vida e de morte. Eu que já corri o mundo cavalgando a terra nua. Tenho o peito mais profundo e a visão maior que a sua. Muitas coisas tenho visto nos lugares onde eu passo.  
Mas cantando agora insisto neste aviso que ora faço. Não existe um só compasso pra contar o que eu assisto. Trago comigo uma viola só, para dizer uma palavra só. Para cantar o meu caminho só, porque sozinho vou à pé e pó. Guarde sempre na lembrança que esta estrada não é sua. Sua vista pouco alcança, mas a terra continua. Segue em frente, violeiro, que eu lhe dou a garantia.  
De que alguém passou primeiro na procura da alegria. Pois quem anda noite e dia sempre encontra um companheiro. Minha estrada, meu caminho, me responda de repente. Se eu aqui não vou sozinho, quem vai lá na minha frente? Tanta gente, tão ligeira, que eu até perdi a conta.  
Mas lhe afirmo, violeiro, fora a dor que a dor não conta. Fora a morte quando encontra, vai na frente um povo inteiro. Sou uma estrada procurando só levar o povo pra cidade só. Se meu destino é ter um rumo só, choro em meu pranto é pau, é pedra, é pó. Se esse rumo assim foi feito, sem aprumo e sem destino.  
Saio fora desse leito, desafio e desafino. Mudo a sorte do meu canto, mudo o Norte dessa estrada. Em meu povo não há santo, não há força, não há forte. Não há morte, não há nada que me faça sofrer tanto.  
Vai, violeiro, me leva pra outro lugar. Eu também quero um dia poder levar. Toda gente que virá. Caminhando, procurando. Na certeza de encontrar
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