11 de abril de 2014

UMA CONVERSA ENTRE PROFESSORES DE HISTÓRIA

Cires Pereira e Maria Solange Marteleto

Apresento a vocês leitores a Professora Maria Solange Marteleto, formada em História, ministrou aulas de História em escolas de São Paulo, aposentou-se e atualmente reside na Cidade de São Joaquim da Barra no Estado de São Paulo. 

Encontrei-me com a Professora Solange em Uberlândia, ela avó de uma amiga de minha filha. Sabendo que também sou professor de História, perguntou-me se havia tido contato com a obra História Geral das Civilizações de Maurice Crouzet. Respondi que sim, mas que não havia lido toda (um total de 7.000 páginas distribuídas em 17 volumes). 

Supus, em silêncio, de que estava diante de uma professora que sempre se preocupou com sua formação para possibilitar a melhor instrução aos seus alunos. 

Convidei-a para uma entrevista, com a convicção de que conheceria uma professora muito especial. Acertei. 


Acompanhe a entrevista 

O que levou você a escolher o curso de história? 

Vou tentar responder suas perguntas; contudo, não se esqueça de que me aposentei nos idos de 90, peço perdão pelas falhas ou discrepâncias do momento atual com o ensino da História... Sinceramente a minha escolha pela História se deve à minha infância, lia e “devorava” o Tesouro da Juventude (coleção da época que refletia todo conhecimento do mundo) e também a influência de uma professora de História ao mostrar-me a História Antiga. Fiquei encantada com o Egito, a Mesopotâmia, a Pérsia, enfim, me enxerguei também mostrando aos alunos as belezas do Mundo Antigo. 

Encontrou alguma dificuldade durante o curso? Qual? 

Realmente não encontrei dificuldades no curso (será que ele era um tanto fraco?) participava das aulas sempre contestando, inclusive não aceitando as "célebres apostilas", liderando até uma greve para que um professor - Conde Pagano - fosse admitido, e ele o foi... 

O que você diria para as pessoas que pensam em fazer história? 

Sempre entendi que a pesquisa do processo histórico deveria ser feita utilizando vários autores. Aos alunos que cogitam fazer História eu diria: a História é a mestra da vida e ela nos leva a reflexões, às possibilidades de mudar o rumo da vida, e principalmente, que vivemos num mundo das forças de conservação, lutando contra as forças de contestação ou mudança. 

Muitos alunos alegam ter dificuldades para reterem o conteúdo sobre temas que, tendo sido significativos para certas épocas e sociedades, talvez não tivessem a mesma importância para os mesmos. 
Você considera que certos temas deveriam ser subtraídos do currículo do Ensino Médio? 

Será que os jovens querem ou gostariam de entrar nesta luta? Portanto, sempre despertar a dúvida, os questionamentos, as mudanças... Outro aspecto, esta sempre foi a minha opção, preocupava-me mais com a visão econômica, sociológica e ideológica da História, não me importava com datas ou nomes, priorizando o processo histórico no seu meio físico e temporal. 

Como foi sua experiência em ministrar aulas de História em tempos de ditadura? 

Quanto à época da ditadura foi realmente difícil, pois meus autores preferidos eram Caio Prado Junior, Werneck Sodré e Celso Furtado, autores que foram banidos das escolas por determinação do Regime. Como consequência, passei a ser perseguida, pois minhas opções eram, segundo este mesmo Regime, subversivas. 

Sentiu diferenças a partir da abertura política e da redemocratização do Estado Brasileiro? 

Com a abertura política, desde o início dos anos 80, ficou mais fácil ministrar aulas de História, pois a disciplina História não era mais um instrumento a serviço do governo. 

Com os avanços da comunicação (internet, redes sociais, etc) o trabalho do professor de História deveria passar por mudanças? 

Não havia internet, os alunos liam jornais e promoviam, todos os dias, nos primeiros minutos das aulas, a leitura de notícias e comentários. Com isso aproveitava o Presente para levá-los ao Passado. A facilidade de acesso às informações não significou, por outro lado, um aumento da leitura. 

Sobre os processos avaliativos, deveriam sofrer mudanças? 

Sempre abominei os testes, preferindo questões abertas, interpretações de textos, e, por vezes, os testes de asserção e razão, principalmente quando as classes eram muito numerosas. Sempre me preocupei em despertar o gosto pela leitura, mantendo as ideias e os relacionamentos do econômico, do social, do filosófico e do ideológico no Processo Histórico. Por exemplo: a vinda da família real e sua ligação com a Inglaterra que, a época colhia os frutos de uma bem sucedida Revolução Industrial. 

Professora Solange fique a vontade para as considerações finais ou para levantar e responder alguma indagação que lhe pareça pertinente. 

Comumente, sugeria aos meus alunos a leitura do livro "A História da Riqueza do Homem" de Léo Huberman. Ele já está superado? Bom Cires, desculpe as falhas, como já disse, faz uns anos que me aposentei e me sinto longe do seu conhecimento histórico e do seu trabalho atual, contudo respondi suas questões com muita alegria e prazer, e porquê não dizer, com muito orgulho - estou sempre à disposição. 
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Professora Solange quando um professor sugere aos seus alunos a leitura do livro “A História da Riqueza do Homem” é porque além de se preocupar com a boa formação de seus alunos, se dispõe a ministrar aulas que estejam à altura de um livro como este. 

Não Professora, você não está superada, pois quem se dispõe a ler Maurice Crouzet para reforçar os argumentos de sua aula e indica aos seus alunos a leitura da “História da Riqueza do Homem” jamais estaria superada. 

Obrigado pelo livro, pela entrevista e, principalmente obrigado pelo seu entusiasmo, entusiasmo que é perceptível na sua disposição em responder e no conteúdo das suas respostas.
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