UM OLHAR SOBRE "A MORTE DO LEITEIRO" DE CARLOS DRUMOND DE ANDRADE

Cires Pereira 

Carlos Drummond de Andrade
Drummond nasceu em Itabira MG, em 1902. Em 1987 ele nos deixou. Seguramente um dos poetas mais significativos e influentes do mundo no século XX. Para mim seus versos são o escancaramento da mineirice, tambem por isso lhe sou muito grato pela sua obra. 

Em suas obras "Sentimento do mundo" de 1940 ,  "José "de 1942 (1942) e  "A rosa do povo", publicado em 1945, Carlos Drummond demonstrou sua consonância com a luta dos menos favorecidos, sintonizou-se com aqueles que lançavam seus olhares críticos a ordem em geral, engajou-se no debate e na luta política sempre com primorosos trabalhos como " A morte do leiteiro". Dirigiu-se por tanto ao encontro da história e dela passou a exercer um protagonismo sutil, consistente e decisivo. Nestes três livros impressiona o fato de que todos os seus poemas são incisivos, impactantes e emocionantes. A seguir uma análise de um deles:

Morte do Leiteiro é um poema de Carlos Drummond de Andrade dedicado a Cyro Novaes, publicado em 1945 e que integra um de seus livros, “A Rosa do Povo”

O poema começa retratando uma cidade que ainda “adormece”, cujos moradores adormecem e parecem pouco se importar com aqueles que mesmo pouco perceptíveis são imprescindíveis para estes moradores, como é o caso do leiteiro. Notabilizam-se, portanto o desconhecimento e a indiferença em relação aos homens de ofícios comuns e mal remunerados, como os que entregam o alimento diário. 

Os consumidores inebriados pelos bens e serviços que podem comprar, parecem pouco se importar com as condições daqueles que tornam possível este acesso à mesa farta e diversificada. Tendo dinheiro e podendo comprar com ele o que queremos, pouco nos importamos o “resto”.

O trabalho do leiteiro não lhe dá tempo de descrever ou compreender as coisas que o poeta lhe atribui, a questão central abordada por Carlos Drummond de Andrade é a questão do tempo e sua especificidade na divisão social do trabalho, como vende seu tempo, o leiteiro não tem tempo de compreender sua situação, ignaro quer dizer o desconhecimento da própria condição de leiteiro, pouco se sabe dele, de onde ele é, o personagem sequer fala. A vida do leiteiro se resume a mercadoria. Tal ideia será reforçada pelo proprietário que, após ter tirado a vida do leiteiro, desconhecia aquele que sempre esteve próxima para servi-lo, senão vejamos: 
“Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, não sei, é tarde para saber”.
Na estrofe abaixo, alguns termos chamam nossa atenção: escondesse, beco, sem fazer barulho, eles nos remetem à ideia de que certos ofícios, mesmos imprescindíveis, devem ser executados com muito cuidado para, vejam que curioso, não importunar. A conduta do leiteiro reforça o imperativo muito comum entre nós, pois na divisão social do trabalho os trabalhadores comuns devem tratar com deferência e respeito os trabalhadores especiais. 

E como a porta dos fundos também escondesse gente que aspira ao pouco de leite disponível em nosso tempo, avancemos por esse beco, peguemos o corredor, depositemos o litro... Sem fazer barulho, é claro, que barulho nada resolve. 

Na estrofe a seguir o poeta deixa de fazer uso da 3ª pessoa como na estrofe anterior em favor do pronome possessivo, procurando quem sabe reconhecer a dimensão do trabalhador que em torno de nós se move sem que percebamos ou que não nos convém perceber. Destaco também a preocupação do leiteiro em procurar ser ágil para não ser confundido com ladrão, mantendo o cão e gato calmos. 
"Meu leiteiro tão sutil de passo maneiro e leve, antes desliza que marcha. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado, vaso de flor no caminho, cão latindo por princípio, ou um gato quizilento. E há sempre um senhor que acorda, resmunga e torna a dormir"
O poema retrata a cidade (sociedade) habitada por homens inseguros e temerosos de perderem suas propriedades, homens que se armam como podem, gato e cachorro para fazerem alarde, cadeado, muro alto, cerca elétrica, monitoramento e a tradicional arma de fogo para intimidar pessoas mal intencionadas e, se for o caso, eliminá-las. Contudo esta arma foi usada para tirar a vida de um inocente, o leiteiro, não foi intenção do dono da casa matar o trabalhador, como fica claro na estrofe abaixo:
"Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro), não quis saber de mais nada. O revólver da gaveta saltou para sua mão. Ladrão? Se pega com tiro. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, não sei, é tarde para saber".
Neste verso o proprietário que virou assassino sem querer diz [...] "Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão". Esta fala demonstra o alívio de uma culpa, pelo menos um atenuante, ou seja, se ele não tivesse matado o "gatuno", talvez o ladrão matasse alguém de seu meio, seja ele social ou familiar. Reafirma, pois o que é apresentado no início do poema no país há uma legenda que ladrão se mata com tiro”.





Na última estrofe a claridade ainda parcial no ladrilho já sereno”, sugerindo o fim da madrugada, se confunde com a mistura do leite da vaca entregue pelo leiteiro e do sangue do mesmo leiteiro, numa composição que produz um terceiro tom, indefinido, espesso e intrigante. 

A seguir o poema na íntegra.

Morte do Leiteiro (A Cyro Novaes)

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.
0