UM DIÁLOGO SOBRE POLÍTICA E LITERATURA

Mariana Rosa e Cires Pereira Agosto de 2013

De Mariana Rosa para Cires Pereira

Professor Cires, na antiga Atenas, uma pessoa que não exercia seu direito de cidadã ou que não participava ativamente da vida pública era chamada de idiota, A palavra de etimologia grega era usada depreciativamente em qualquer estratificação da sociedade, não importando assim, suas posses, títulos ou status social, mas somente a falta do exercício de cidadania. 


Nos últimos meses, houve um grande índice de manifestações populares em busca dos direitos garantidos em teoria pelo Estado. O fato é que essa alta taxa de protestos é considerada, pela visão da sociologia compreensiva de Weber, no contexto atual, como um tipo de ação social com fins e em relação a valores. Isto se deve pela significação que as manifestações têm para o povo brasileiro. Sendo assim, fica claro que a responsabilidade pela transformação social é inteira do cidadão. 

Tendo os manifestos como forma de expressão e instrumento de requerimento dos direitos previstos pelo regime democrático e defendidos pelo poder Legislativo. Esse é o único modo de reconhecer as passeatas populares como legítimas manifestações democráticas. Devendo ser defendidas pelos veículos de comunicação e informação brasileiros, além de regidos pelo zelo das entidades responsáveis pela segurança da população. Manifestos com base nos princípios republicanos, reforçando o caráter espontâneo dos movimentos e coerente com o modelo de governo.


De Cires Pereira para Mariana Rosa

Prezada Mariana, em primeiro lugar obrigado por ler o que escrevo, tomara que o que eu escrevo esteja contribuindo para o seu crescimento em todos os sentidos.

Como você disse Idiota (idhiótis), na Grécia Antiga, era aquele indivíduo desprovido das capacidades cognitivas mínimas para se colocar no nível de seus “pares”, portanto inapto para o debate dos temas mais relevantes que o “espaço” público ensejava e demandava. 

O termo ganhou notoriedade por ter sido utilizado pelo escritor russo Fiódor Dostoiévski. No livro, publicado em 1869, o autor conta a história de um homem, o Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin que tinha sido diagnosticado com epilepsia, era um homem exageradamente altruísta e, ao mesmo tempo, ingênuo. Por isso era visto como um idiota ou bobo. Prefiro não avançar mais neste assunto para não quebrar o encanto da história de Míchkin e, assim fazer um apelo para que comprem e leiam este livro um dos melhores do autor, juntamente com o clássico “Crime e Castigo”.

Não tenho a menor dúvida de que cabe ao indivíduo, unidos a outros indivíduos, a preservação, a reforma ou até a destruição das instituições públicas que, grosso modo, constituem o Estado. A reforma do Estado, a sua preservação ou até a sua destruição deverão ser obras dos indivíduos, aqui sempre estarei para reconhecer quaisquer um destes atos, o que não significa abonar ou concordar com este ou aquele. Nós não podemos perder de vista que o movimento coletivo, ora pra manter, ora pra modificar parcial ou totalmente o Estado, é a comprovação da cidadania plena. 

Num Estado de Direito Democrático, como é o caso do Estado brasileiro, as mudanças previsivelmente ocorrem pelo veredicto das urnas. Isto parece-me pouco e perigoso. Pouco porque entendo que o cidadão deveria se incumbir de acompanhar e fiscalizar não somente quem ele escolheu mas todos os escolhidos e perigoso, pois os mais atentos e mais espertos certamente poderão tentar mudar alguma coisa ou alguém que o "cidadão que só vota" (muitos chamam estes cidadãos de maioria silenciosa) tenha escolhido.

E aqui que se impõe a validade das mobilizações, manifestações e organizações como ficou nítido deste o ultimo junho no Brasil. É como se o cidadão tivesse deixado de lado o seu lado “idiota de costume” e se levantado para exigir o que lhe parecesse ser uma demanda legítima, decente, necessária, etc. 

Até aqui temos que concordar que foi muito bom o que aconteceu, contudo não podemos nos portar, a princípio como o Príncipe Míchkin se portou na primeira parte do romance de Fiódor. Temos que olhar o que está escondido, que ler nas entrelinhas, que desconfiar de tudo se quisermos compreender a natureza dos protestos e os objetivos estratégicos dos protestantes. 

Reconheço motivos justos e legítimos bem como reconheço participantes bem intencionados nos protestos,mas também preciso reconheçer que muitos supostos líderes queriam fazer destes participantes bem intencionados uma espécie de idiota (idhiótis), usando-os como massa de manobra. Além de muitos que, mesmo não participando ativamente dos protestos, tentaram tirar dividendos políticos para reforçarem suas posições contrárias ao governo presente. Estes últimos enchiam os peitos e diziam que os manifestantes, sem exceção, são os cidadãos que estão deixando de ser “idiotas”.

É por tudo isto que invoco aquele adágio “os gatos no escuro são pardos”, mas no claro, sabemos bem que nem todos eles são pardos. Muitos manifestantes até hoje batem no peito e se arvoram em afirmar que deixaram de ser idiota (idhiótis), no sentido atribuído aos gregos, desde então. Mas aqui precisarei ser uma espécie de Príncipe Míchkin (que Fiódor me perdoe, aqui obrigado a revelar a outra face de seu personagem), prefiro então concluir que destes muitos manifestantes, uma parte significativa continuaram, sem saber, agindo como verdadeiros idhiótis.

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