UCRÂNIA CPÍTULO I: "A ESCOLHA DE CRIMEIA"

 Cires Pereira Sábado 15 de março de 2014

Ucrânia dentro da URSS (em verde)
Victor conhecia muito pouco Elena, contudo o suficiente para encantar-se com ela, como sua família gozava de prestígio na pequena cidade de Yalta, banhada pelas águas do "Negro" no extremo sul  da Crimeia,  não foi muito custoso convencer a família de Elena a permitir o casamento com Victor. Não poderia haver momento melhor, a cidade tinha acabado de receber lideranças "aliadas", lideranças que trataram de estabelecer as condições para a estocada final no agonizante III Reich e lançarem as bases para um Mundo, em geral, e a Europa, em particular, quando a Guerra terminasse. Todos ali reunidos tinham certeza da vitória embora houvesse algumas divergências quanto ao prazo para esta vitória. Sabe-se que sete meses depois, a guerra terminou com a rendição dos japoneses.

Em toda Crimeia o clima continuava apreensivo mas não se comparava com o caos que tinha se abatido na região ocupada pelos alemães entre 1941 e 1944. Com a libertação, a Crimeia continuou como parte integrante da URSS (União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas). Como Ucrânia também havia sido integrada pela URSS em 1924, suas lideranças tiveram que se resignar diante do fato de que a Crimeia ficaria como parte da principal república federada, a russa. Nove anos depois da vitória sobre os alemães, o governo soviético comandado por Nikita Khrushchov concordou que a Crimeia passasse a ser tutelada pela República Federada da Ucrânia. Para as circunstâncias da época de domínio soviético, a atitude amenizava tensões previsíveis entre Kiev (capital da Ucrânia) e Moscou, "trocando-se meia dúzia por seis", o comando da URSS esperava que tal concessão fosse reduzir as críticas vindas de uma grande parte da população ucraniana contrária ao jugo da URSS. 

Victor e Elena casaram-se no primeiro sábado de maio de 1945, dias depois das mortes dos principais atores do conflito mundial eclodido em 1939, Roosevelt e Hitler. Foi um ritual simples comandado pelo pároco cristão-ortodoxo da pequena e bucólica cidade. O novo casal, ele de origem russa e ela ucraniana (na Crimeia quase 60% eram e continuam sendo de origem russa), tiveram três filhos nascidos ao longo dos primeiros dez anos de casamento. O casal levava uma vida modesta, mas dispunha do suficiente para prover aos filhos condições básicas para estudarem. Ambos envolveram-se com o negócio da família de Victor, uma pequena padaria que abastecia uma parte da cidade de Yalta. O caçula de nome Ivan, em homenagem ao vô paterno de origem russa, nasceu meses depois de Crimeia ter sido "passada" para a Ucrânia, uma das Repúblicas que compunham o "Gigante Vermelho".

Ivan, já com 37 anos, cumpriu uma função importante na grande mobilização que culminou na secessão ucraniana em 1992. Foi um dos principais lideres da ainda pequena cidade de Yalta, estava entre os que defendiam a autonomia da Crimeia frente ao governo da Ucrânia. Ivan acabou vencido, afinal de contas Crimeia continuou integrada à Ucrânia na condição de  república com status autônomo. Situação que permanece até hoje. É bem provável que na semana que vem esta situação mude radicalmente.

Crimeia em clima de Referendum

O quadro que se tem na Crimeia encontra-se inscrito num contexto mais abrangente. Um contexto caracterizado por uma crise que se arrasta em toda Ucrânia nos últimos dez anos e agudizada desde o final do ano de 2013. 

Nos próximos textos analisarei esta crise,  alguns personagens fictícios (como Victor, Elena, Ivan que aparecem no presente texto) para que "eles" nos contem o que se passa a suas voltas. Um núcleo em Yalta na Crimeia e outro núcleo em Kiev na Ucrânia.

A princípio projetei 5 textos, mas pode ser que eu tenha que ampliá-los e assim que forem concebidos, serão publicados. 

Boa leitura...

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