26 de abril de 2014

UCRÂNIA CAPÍTULO VI: À BEIRA DA SECESSÃO

No inverno de 2012 Iuri fez questão de convidar todos os seus amigos para a celebração de seu 18º aniversário aproveitando-se das dependências do "casarão" e da boa vontade dos cozinheiros de seu pai para prepararem suculentos salgadinhos que acompanhariam as bebidas tambem cedidas pelo seu pai Oleg. Iuri festejava tambem os seus mais recentes triunfos, havia passado no vestibular para Mecânica e Matemática na tradicional Universidade Taras Shevchenko e a bela Katerina, que já cursava o 2 º ano de Direito na mesma instituição - a Universidade Nacional de Kiev, fundada em 1834. Universidade que é denominada, desde 1939, de Tara Shevchenko, grande pintor e poeta e um dos maiores nomes das artes ucranianas.

Katerina com 19 anos e Iuri começaram a namorar no natal de 2011, o seu ativismo político associado à sua beleza física encantaram o jovem Iuri que não encontrou muito trabalho para aproximar-se de Katerina, pois eram vizinhos desde crianças e tinham em comum o fato de seus pais serem muito amigos e fieis clientes de Oleg e do "casarão", respectivamente. Katerina, mesmo sendo de família tradicional, ucraniana e de boa situação patrimonial, convergia com Iuri em termos de preferência política, ela tambem apoiava o presidente Víktor Yanukovich. O jovem casal sempre soube que precisariam "pisar em ovos" em suas casas, pois suas preferências políticas eram diametralmente opostas à de seus pais que rejeitavam a postura de Yanukovich e lamentavam a prisão injusta da líder oposicionista Yulia Timoshenko. 

Na faculdade de Economia Katerina encontrava um ambiente mais adequado para expor suas teses em defesa da aproximação do governo  Yanukovich com a Rússia de Medvedev-Putin, mesmo ciente de que a divisão entre os frequentadores da faculdade fosse equilibrada. Na faculdade de Mecânica e Matemática a grande maioria se opunha às posições de uma fração de alunos, dentre eles Iuri,  e professores favoráveis ao governo.

A EUROCOPA

Ucrânia em 2012 foi palco de um evento importante, Ucrânia e Polônia dividiram a responsabilidade de sediarem a Eurocopa (Copa de Futebol envolvendo as seleções europeias) vencida pela seleção espanhola, a frustração pela eliminação da seleção nacional constituiu-se em mais uma pitada de pressão numa corda cada vez mais estendida. e prestes a arrebentar. O mundo tambem acompanhou os protestos do lado de fora dos estádios organizados por um grupo de feministas intitulado "Femen" cujas primeiras células tinham sido criadas em Kiev. Além das bandeiras tradicionais do feminismo, este grupo também se posicionava contra a realização da Eurocopa na Ucrânia sob as mais variadas justificativas, sobretudo pelo fato de o governo ter gastos muitos recursos financeiros com o evento que deveriam ser usados na assistência aos menos favorecidos.

Militante "Femen" protesta contra o Eurocopa Créditos: FEMEN \ Wikimedia Commons



AS ELEIÇÕES DE 2012

As eleições legislativas de novembro de 2012 eram um importante referencial tanto para o governo e o seu principal partido de sustentação - o Partido das regiões - quanto para o consórcio de partidos oposicionistas intitulado 'Oposição Unida" cuja liderança mais famosa era, a ainda reclusa, Yulia Timoshenko. O governo contabilizou uma importante vitória que não foi reconhecida pelos oposicionistas mais exaltados que denunciavam fraudes favorecendo os candidatos governistas. Como era de se esperar o governo russo, ao contrário da "União Europeia", considerou o processo limpo que, em última instância, corroborou com a ordem democrática na Ucrânia. Novas eleições não foram marcadas, frustrando e irritando as lideranças oposicionistas mais radicais. 

Dentre as forças oposicionistas, destacaram-se o "Svoboda" (liberdade) e o Udar (murro). A postura antirrussa do Svoboda delimitava seu raio de ação ao oeste da Ucrânia, sobretudo nas regiões de Galícia, pois no leste a maioria continua se identificando com o passado soviético e com as tradições culturais russas, portanto o nacionalismo propugnado pelo "Svoboda" não representava, como é comum pelo mundo, a nação política ucraniana. Os nacionalistas, liderados pelo "Svoboda" conseguiram uma proeza as vésperas das eleições, organizaram uma grande manifestação no dia 14 de Outubro de 2012, neste evento queimaram bandeiras sob gritos e palavras de ordem contra a Rússia, o comunismo, o imigrantismo, o homossexualismo, o aborto e, obviamente, o governo.

O "Udar" (murro), partido centro-direitista, liderado pelo pugilista Vitaliy Klychko, elegeu um bom número de deputados (incluindo o pugilista), tornou-se deste então uma espécie de fiel da balança. Klychko, eufórico pela façanha, logo em seguida anunciou, sob aplausos de seus eleitores, incluindo os familiares de Katerina, que disputará as próximas eleições na condição de candidato à presidente da república. Os seus correligionários, entretanto, consideram esta possibilidade um tanto quanto remota face à grande popularidade da ex-primeira-ministra e tambem oposicionista Yulia Timoshenko.


O resultado de certo modo repercutiu o cenário pouco estável no país, senão vejamos: O Partido das Regiões de Víktor Yanukovich conquistou 187 cadeiras, a Oposição Unida de Yulia Tymoshenko 102 cadeiras, o Udar 40 cadeiras, o Svoboda 38 e os "comunistas" 32. Contudo, suficiente para a manutenção do Partido das regiões no governo, apoiado pelos "comunistas. Diante de um parlamento dividido ao meio entre governistas e situacionistas e de uma nação dividida igualmente ao meio entre a "União Europeia" e a Rússia, tornou-se recorrente entre os analistas uma previsão de muitas disputas que poderiam culminar numa confrontação ou até numa secessão. Diante de uma hipótese secessionista, fica muito difícil imaginar os rumos que tomariam as famílias vizinhas do jovem casal Iuri e Katerina.
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