UCRÂNIA CAPÍTULO V: "A DIVISÃO SE CRISTALIZA"

Cires Pereira

Obama                  Tymoshenko     Yanukovich                  Putin
Prezados leitores a compreensão deste texto depende dos que o antecedem, abaixo os links:
  1. http://www.escritaglobal.com.br/2014/04/ucrania-cpitulo-i-escolha-de-crimeia.html
  2. http://www.escritaglobal.com.br/2014/04/ucrania-capitulo-ii-crimeia-agora-e.html
  3. http://www.escritaglobal.com.br/2014/04/ucrania-capitulo-iii-as-cinzas-de.html
  4. http://www.escritaglobal.com.br/2014/04/ucrania-capitulo-iv-revolucao-laranja.html
No último dia gelado mês de janeiro de 2005 Iuri presenciara uma discussão entre Iryna e Oleg resultante de uma divergência quanto a participação de Yulia Tymoshenko no governo do novo presidente Viktor Yuchenko. Yuchenko a convidara a chefiar o novo gabinete, sua posse aconteceu no dia 24 de janeiro, dia seguinte à posse do novo Presidente. Oleg ao contrário de Iryna entusiasmara-se com a escolha de Yuschenko, mas Iryna não muito pois Iulia havia participado do governo Kuchma como responsável pela energia quatro anos antes e demitida por conta de seu sentenciamento pelo crime de corrupção. As posições do novo presidente em defesa do estreitamento dos laços com a União Europeia e OTAN (Organização do Tratado Atlântico-Norte) e sua já conhecida opinião favorável aos ajustes econômicos neoliberais haviam-se tornado as bases do seu programa de governo durante a campanha eleitoral. Era a vez da "Nasha Ukrayina" assumir o timão de uma embarcação que parecia prestes a navegar à deriva.

O inusitado nesta discussão entre os seus pais foi o fato de terem havido misturado a controvérsia política com assuntos familiares. Iuri pela primeira vez notou que seus pais estavam mais alterados do que de costume. Preocupado e impotente ouviu o batido forte da porta do quarto assim que Iryna o deixou entre um soluço e outro falava que não poderia mais se comportar como uma mãe desnaturada. O garoto suspeitou que Yalta parecia ainda estar nos planos de sua mãe. Mesmo adolescendo, Iuri era suficiente maduro pra compreender que uma mãe não esquece seus filhos, Iryna jamais esquecera seus filhos em Yalta, embora tivesse que, forçosamente, deixá-los.

As suspeitas de Iuri foram confirmadas pela repentina viagem de Iryna, logo no início do verão, rumo à Yalta naquela que poderia ser a última cartada de uma reaproximação entre mãe e filhos crimeanos. Contudo o retorno de Iryna dois dias após seu embarque sinalizava que o plano malogrou. Seus filhos, ficou sabendo depois, não quiseram receber a mãe. Iryna jurou pra si e para sua família de Kiev de que não mais insistiria e que Crimeia deveria ser riscada do mapa das suas vidas. Oleg sentiu-se aliviado com a resolução de sua esposa, embora ainda sentisse que Iryna "aprontaria" de novo.

Yulia deixa o posto de Primeira-ministra em setembro de 2005 após desentendimentos com o Presidente, estes no entanto não foram suficientes para uma ruptura irreversível, o Presidente reconhecia, mesmo que resignado, a capilaridade eleitoral de Yulia por toda a Ucrânia, mesmo com a previsível derrota eleitoral numa disputa contra candidatos pró-Moscou no leste do país. Os anos de 2006 e 2007 não foram nada fáceis para o presidente que teve que aceitar uma "cohabitação política a la ucraniana", seus adversários passaram a compor a maioria no Parlamento e o fizeram dar posse ao ex-presidente Viktor Yanukovich como 1º Ministro. Timoshenko retorna ao posto dois anos depois e se credencia à disputa pela presidência da Ucrânia nas eleições de 2010. Yuchenko não tinha outra opção melhor e mais viável eleitoralmente dentro do consórcio de partidos que o apoiava, sabia que Viktor Yanukovich havia perdido uma batalha em 2004 mas que jamais abdicaria da "guerra" e, principalmente, sabia que a rejeição da maioria ao seu nome o colocaria fora da disputa. 


2010: A REVIRAVOLTA

Oleg enfim conseguiu convencer Iryna de que deveria fazer opção pelo "voto útil" no segundo turno. Iryna que a muito tempo encontrava-se descrente com a política  cada vez mais maculada pelas notícias de corrupção, optou pela reeleição de Yuchenko. Seu candidato recebeu pífios 5,45 %  dos votos, sendo portanto esmagado no primeiro turno pelos "seus" primeiro-ministros. 

Iryna, mesmo que incrédula quanto ao discurso de Yulia Timoshenko optou por apoiá-la, pois tinha certeza de que a turma de Yanukovich não deveria mais governar. O esforço e a torcida foram inúteis, Víktor Yanukovich, o filho de trabalhadores da cidade de Donetsk, foi o grande vencedor no segundo turno. 

O único feliz com esta notícia foi Iuri que havia distribuído "santinhos" de Yanukovich entre os seus colegas de ensino médio, sabia que seus "irmãos" na Crimeia e o ex-marido de sua mãe tinham igualmente se esmerado por esta reviravolta. 

Eleições em 2010: Como previsto, "a divisão se cristaliza".
Timoshenko, mesmo tendo sido auxiliada pelo presidente derrotado no primeiro turno, não se surpreendera pela derrota, pois era igualmente grande a rejeição à sua candidatura vista como corresponsável pela desaceleração dos indicadores econômicos na Ucrânia, reflexo da crise econômica mundial, ou seja o governo dispunha de pouco espaço de manobra pra impedir a desaceleração de uma economia dependente dos (bom) humor da economia externa. Timoshenko também sabia que nenhum candidato defensor do estreitamento de laços com o Ocidente seria bem acolhido no leste do país onde o russo ainda era (e continua sendo) muito influente. Mas a gota d'água definitivamente eram as denúncias de corrupção contra o seu gabinete. Derrotada nas eleições, sabia que teria que enfrentar os tribunais.

Yanukovich celebra sua vitória em 2010
Mesmo sob denúncias dos opositores de que o julgamento tivesse sido sumário e revanchista, O Tribunal condenou a ex-primeira-ministra ucraniana, a sete anos de prisão por abuso de poder,  o Tribunal aceitou os argumentos da acusação de que Timoshenko havia causado prejuízos de mais de 150 milhões de euros ao país em razão da celebração de um contrato de fornecimento de gás russo à Ucrânia em 2009. 


Timoshenko é sentenciada em 2011
Desde o final do verão de 2011 a Ucrânia tornou-se palco de uma situação curiosa, afinal de contas os dois principais líderes nacionais encontravam-se em situações diametralmente opostas: Yanukovich no palácio e Timoshenko na prisão. 

No casarão de Oleg, exceto Iuri, todos temiam por tempos sombrios. Oleg chegou a cogitar deixar o país levando a tiracolo sua esposa e seus filhos, sua irmã já ambientada nos EUA reiterava, seu convite para que fossem tambem "ganhar a América". Iryna mesmo longe dos olhos de seus filhos mais velhos e ciente da rejeição destes  à ideia de uma reconciliação, definitivamente não aceitaria ficar ainda mais distante. O prognóstico de tempos sombrios também eram feitos pela maior parte das lideranças políticas ocidentais. Obama preferia o comedimento diante do imbróglio ucraniano, pois uma posição mais intempestiva poderia desagradar o igualmente intempestivo Putin. Medvedev e Putin festejavam o retorno de seu aliado ao "palácio" em Kiev e retomam a pavimentação do eixo Kiev-Moscou, avariado pela "turba laranja" de 2005. Era mais uma batalha vencida numa guerra que parecia e continua parecendo ser sem fim.

Comentários

Anônimo disse…
Acabo de ler os 5 textos. Gostei muito da "história" e da "estória". Simpatizei com Oleg: trabalhador, com ideais definidos e atento à família (dele, é claro). A da Crimeia - afeta à sua esposa, que fique por lá. Mas eu ainda tenho uma dúvida, de cunho formal, que me impede de tomar partido sobre a atual disputa. Não vou entrar no tema de que o Referendo foi repentino e não deu a chance de esclarecer a população sobre os efeitos da escolha. Num ambiente de semi-guerra, esse tempo simplesmente não existe (ou seria muito perigoso esperá-lo). Além disso, a vitória foi acachapante. O que mais me incomoda (e me desculpe o conhecimento raso sobre o tema) é que a Criméia, estando de alguma forma vinculada ao território ucraniano, teria legitimidade para, SOZINHA, definir a qual nação estará submetida, sem a participação do resto do país? Imaginei um exemplo que conduziria a uma resposta negativa. Sem a pretensão de comparar histórias, não seria o mesmo que os habitantes de Fernando de Noronha decidirem, por si só, que não querem ser mais vinculados ao Brasil, e que a partir de amanhã querem ser considerados território argentino? Os interesses do resto do Brasil (legítimos ou não) não estariam sendo violados? Estou inclinado a entender que o referendo (ou plebiscito, já que a lei autorizativa é de um parlamento local) deveria ser estendido a todo o território nacional ucraniano, ainda que o resultado da consulta popular nesse caso fosse óbvia - daí, a meu ver, terem usado o fórceps. Enfim Professor, se puder me ajudar a formar uma convicção sobre o tema, ficaria muito grato! Abraços, Gabriel Massote
Cires Pereira disse…
Prezado Gabriel dois fatos congruem para a legitimidade da opção feita pelos crimeanos: 1 a maioria que habita a Crimeia é russa e não ucraniana 2 no plebiscito realizado recentemente, 96,7 % dos que foram às urnas disseram que não aceitariam a tutela ucraniana. Uma coisa importante a salientar o plebiscito foi realizado pelo poder judiciário e não pelo governo pró-Russia. Por fim uma suspeição que muito provavelmente se materializará: em toda a porção oriental ou leste da Ucrânia a grande maioria é de origem russa e historicamente esta mesmo a grande maioria sempre votou em partidos e lideranças que concordam com o estreitamento de laços com a Rússia. Penso que estender a consulta a toda Ucrânia seria uma distorção fatalmente maior do que o plebiscito somente na Crimeia, seria o mesmo que pedir a opinião dos cidadãos americanos sobre a independência ou não de Porto Rico ou do Hawai. Obrigado pelos elogios que me forçam a melhorar o que venho fazendo.
Anônimo disse…
Obrigado pelos esclarecimentos Professor. Acho que consegui formar minha convicção. No Brasil, por exemplo, não seria possível esse plebiscito, a menos que houvesse autorização do Congresso Nacional, como aconteceu no Plebiscito sobre a divisão do Estado do Pará. Não bastaria, nesse caso, a autorização da Assembleia Legislativa do Estado. Faço esse paralelo pois a autorização para o plebiscito na Criméia, até onde sei, foi apenas do Parlamento do Território. Por outro lado, não conheço a legislação local da Criméia e nacional ucraniana, o que me impede de condenar ou mesmo aprovar, repito, formalmente, o plebiscito. O fato da vitória ter sido maiúscula dá bons indícios de que "foi melhor assim", mas sempre tive dificuldades com maiorias "muito" absolutas, como a do norte-coreano Kim Jong-un, que manteve o regime com incríveis 100% dos votos. Enfim, a história dirá. Adoro seus textos.
Cires Pereira disse…
Gabriel Obrigado pelos novos comentários.
O desmembramento de um Estado no Brasil é possível desde que chancelado pela maioria do eleitorado da Unidade Federativa (Em Minas o eleitorado mineiro decide se o Triângulo pode ou não separar-se de Minas.) Como no Brasil é uma República federativa é preciso que o Congresso nacional permite que o plebiscito ocorra ou não para isso é preciso que 3/5 do plenário concorde com a realização do mesmo.
No caso da Crimeia a permissão ao plebiscito partiu do parlamento crimeano à revelia do parlamento da Ucrânia, concordo com a ilegalidade deste fato, contudo tem me parecido legítimo, tomemos como referências a participação no plebiscito e o seu resultado. Tal como voce também penso ser estranho unanimidades ou quase em processos eleitorais e somente a história nos dirá.