UCRÂNIA CAPÍTULO IV: "A REVOLUÇÃO LARANJA"

CIRES PEREIRA

Praça Maydan em 2004
Nos últimos 20 anos três tem sido os grandes objetivos da grande maioria do povo ucraniano: consolidar a soberania do novo país, consolidar a ordem democrática e melhorar os indicadores sociais e econômicos. Objetivos que, embora nobres, não tem sido fácil alcançá-los, mesmo constantes dos programas de governo dos principais candidatos e partidos políticos que travam uma renhida disputa pelo governo. O curioso é que estas disputas quanto mais acirradas mais distantes e custosos se tornam os objetivos.

A medida em que a economia patina e os indicadores sociais, por conta disto, ficam mais sofríveis, a disputa política se acirra, os radicalismos se impõem. Diante deste cenário a ordem democrática e as liberdades individuais e coletivas ficam cada vez mais ameaçadas. Dez anos após a sua independência, o valor do PIB ucraniano representava apenas 40 % do valor do PIB de 1991. Os anos noventa, portanto, foram marcados pela recessão econômica não somente na Ucrânia, mas em todas as ex-Repúblicas Soviéticas.

Oleg muito previdente fez bem em ter mudado o restaurante que antes servia apenas pratos "a la carte" a um público mais endinheirado, mudou para o sistema de  "self-service" no intuito de arrebanhar uma clientela menos exigente e com menos recursos. Felizmente, as mudanças deram resultado e os lucros, mesmo que moderados, asseguravam à Oleg e sua nova família um padrão de vida razoável.

Mesmo ainda caótica, a economia voltou a respirar em 2000, o país ainda amargava indicadores sociais bastante preocupantes, a inflação comprometia o poder de compra dos salários, o desemprego e o sub-emprego ampliavam e a emigração para a Europa Ocidental era crescente e inevitável. Nesse cenário, a sectarização política agudizava e tornava-se ainda mais perceptível, com destaque para os avanços do nacionalistas ucranianos e dos russistas que propunham a fusão com a Rússia.

Oleg e Iryna eram contrários aos sectarismos destes dois polos. Viam com bons olhos uma aproximação com a "União Europeia" e não escondiam suas predileções por medidas que pudessem abrir a economia nacional, tais como: a privatização de empresas e serviços públicos, a flexibilização dos direitos trabalhistas e a redução das cargas tributárias, criam que estas ações restabeleceriam a confiança dos credores e investidores externos e atrairiam  créditos e investimentos.

Após sorver a "borshtch" (sopa de legumes e carnes tendo como base beterrabas) preparada por Iryna depois de um trago de "malynivka", sua "horilka" (vodka) predileta, Oleg deixou o casarão para encontrar-se com um grupo de políticos que estava prestes a deixar o governo de Kuchma. 

Naquela reunião do 15º dia de dezembro de 2000, o único tema era o desgaste de Kuchma frente ao "escândalo cassete". Tudo começou duas semanas antes com a denúncia feita por Oleksndr Moroz, tendo a tiracolo  um fita cassete que capta uma suposta conversa do presidente com os seus colaboradores sugerindo a necessidade de "matar" o jornalista Georgiy Gongadze que desde 1999 denunciava casos de corrupção no governo além da falta de liberdade para a imprensa. Gongadze foi sequestrado em setembro daquele ano e o seu corpo encontrado no início de novembro. 

Presidente Kuchma Georgiy Gongadze
Nesta reunião Oleg não teve mais dúvida, precisava deixar de apoiar o governo Kuchma. Ele e maioria dos presentes naquela reunião decidiram que engrossariam os protestos pacíficos contra o governo se estenderam até março de 2001, cujo lema era "Ucrânia sem Kuchma", por um lado, não conseguiram abreviar o governo, mas, por outro lado, serviram para  reforçar a necessidade de um país com mais liberdade e um governo mais transparente. 


UCRÂNIA DE LARANJA

A controvérsia sobre a morte do jornalista se estendeu até 2004, de um lado os governistas defendiam a tese de um crime comum e, do outro lado, oposicionistas sugerindo tratar-se de um crime político implicando o presidente Kuchma.  Uma nova onda de protestos em Kiev, Donetsk, Dnipropetrovsk e Odessa. Oleg assumia cada vez mais a função de organizador dos protestos em Kiev e Odessa, suas viagens para Odessa tornaram-se desde então muito frequentes, o que deixava Iryna muito enciumada. Iryna sabia que os atributos físicos de seu companheiro aliados a um convincente discurso atraíam a atenção de muitas mulheres. Mas Iryna  sempre soube que Oleg não tinha qualquer pretensão em deixá-la.

Como era de se esperar o assassinato de Gongadze se tornou uma das principais questões na eleição presidencial , a outras eram o desempenho da economia ucraniana e a proximidade com a Rússia. O bom desempenho da economia nos últimos quatro anos e a grande fatia do eleitorado de origem russa animavam o mas o consórcio que apoiava a candidatura do primeiro-ministro Viktor Yanukovich, chancelada por Kuchma.

O assassinato de 2000 ainda reverberava, mais ainda depois do misterioso envenenamento do principal candidato oposicionista Viktor Yuschenko faltando dois meses para as eleições. A dioxina não o matou , mesmo assim deixou marcas em seu rosto. A eleição de novembro foi muito parelha. Oleg era um dos principais articuladores da campanha do oposicionista e grande entusiasta da aliança de Yuschenko com a tambem oposicionista Yulia Tymoshenko.

Viktor Yuschenko antes e depois do envenenamento
Oleg seguiu para a Praça Maydan assim que a Comissão central de Eleições anunciou o resultado do 2º turno. O primeiro-ministro Yanukovich, candidato de Kuchma vencera Yuchenko que, tendo recebido uma quantidade de votos muito próxima do 1º colocado no primeiro turno, partiu em busca de apoios como o do líder do Partido Socialista Oleksander Moroz e de Yulia Timoshenko. Os oposicionistas não se conformavam com o resultado. A maior concentração dos descontentes com o resultado acontecia naquela Praça e cercanias. Em uníssono exigiam novas eleições. Era o início da "Revolução Laranja".

O novo comando ucraniano: Viktor Yuschenko e Yulia Tymoshenko.
Acuados pelos protestos que se avolumavam em todo país, principalmente no oeste, tanto o governo quanto a Comissão Central Eleitoral tiveram que ceder. Novas eleições foram convocadas para o dia 26 de dezembro de 2004. Nestas o jogo virou: Viktor Yuschenko com 52 % dos votos derrota Yanukovich que obteve pouco mais de 44 % dos votos. Oleg e Iryna voltam a Praça Maydan para comemorarem o que, para eles, poderiam ser um novo tempo na Ucrânia. O país, pela pressão popular, tinha se livrado dos governos que teimavam em continuar sob a influência de Moscou e caminhava a passos largos rumo ao Ocidente.

O garoto Iuri com os seus 11 anos ainda era muito imaturo para fazer um juízo de valor sobre o que se passava, assistia a tudo e a todos. Em alguns momentos maravilhado com os manifestantes empunhando a cor laranja, incluindo os seus pais. Em outros momentos (mais frequentes) preferia que o seu país, especialmente o cantinho onde nascera, fosse cada vez mais "russo". No casarão de Oleg algo indicava que ele seria um casarão "dividido", como Ucrânia. Um consenso, pelo menos havia, todos torciam pelo Dínamo, o que é muito pouco. 

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