UCRÂNIA CAPÍTULO III: "AS CINZAS DE CHERNOBIL E OS VENTOS DA GLASNOST SACODEM A NAÇÃO"

Cires Pereira
Rio Dnieper - Kiev

Após quase um dia de viagem em ônibus e trem, a extasiada Iryna desembarcou em Kiev e tomou o primeiro táxi assim que suas malas foram liberadas do controle da estação ferroviária. Passou o endereço do imóvel ao motorista, rumaram então para Desna, o mais populoso “rayon” (distrito) da capital dos ucranianos localizado na “margem esquerda do Dnieper”. A cidade tem uma população majoritariamente constituída por ucranianos, diferentemente de sua cidade natal localizada na Crimeia, cuja maioria é de origem russa. Em Kiev não passa de 15 % o percentual de russos, bem abaixo do percentual de ucranianos (80 %), muito embora o idioma russo seja tão usual quanto o idioma ucraniano, uma realidade observável em todo o país. Iryna soube entender que Oleg não podia aguardá-la na estação, pois não tinha como deixar o restaurante mantido no primeiro pavimento do imóvel onde também morava, uma vez que a irmã deste encontrava-se acamada. 

Tinha convicção de que seria bem recebido por Oleg que jamais escondeu uma verdadeira adoração por Iryna quando trabalharam juntos entre 1990 e 1993 em um dos hotéis de Yalta, ele como gerente e ela como contabilista. Acabaram se apaixonando, contudo ela receava abandonar sua vida estável ao lado de Ivan e os seus dois filhos ainda muito jovens. Optou em deixar que Oleg voltasse à Kiev solteiro, mesmo sabendo que o filho que esperava fosse dele. Iryna só não contava que o marido fosse, aleatoriamente, ler um telegrama de Oleg à Iryna no qual ele demonstrava irritação por Iryna não ter lhe contado de que era dele, o filho prestes a nascer. 

Na calçada avistou Oleg, um homem beirando os 40 anos e, aparentemente, muito feliz com a chegada de “seus amores”. Já era noite e, como caia uma chuva fina, os termômetros marcavam 1º C negativo, a sensação era de menos 10º C. Oleg havia determinado aos seus funcionários que nada faltasse aos seus novos familiares, Iryna sentiu-se em casa confirmando as intermitentes promessas de Oleg. Com dois meses de estada, Iryna sentia-se perfeitamente instalada e ambientada com os dois andares do casarão que se tornara seu endereço definitivo. Logo a nova moradora do casarão passou a administrar as finanças do restaurante que servia “refeições a quilo” e por isso também muito frequentado. A criança adaptou-se muito bem, pois recebia os cuidados de duas mulheres, sua mãe e a irmã de Oleg.

A irmã de Oleg era solteira e sem filhos e não via a hora de deixar a vida que levava ao lado do irmão. A chegada de Iryna foi pra cunhada um alívio, era hora de partir o ganhar a vida ou “conquistar a América”. Como jamais escondeu o seu desejo de “ocidentalizar-se” e de se lambuzar com as benesses da economia de mercado, aproveitou os novos tempos da Ucrânia para juntar suas economias e, com um bom reforço financeiro de seu irmão (seu único parente), partiu para Atlanta no sudeste da “América”. Karla escolhera esta cidade em razão de uma proposta de emprego que recebera do proprietário de uma pequena rede de fast food nos estados da Geórgia e da Carolina do Sul, que já havia empregado dois de seus colegas de escola em Kiev. 

Iuri, com seus 11 anos era um garoto muito popular e querido entre os amigos de rua e da escola pública, suas boas notas sempre foram motivos de tranquilidade para os pais e orgulho para a instituição, era muito bom em matemática. Mal esperava a hora de recolher seus objetos escolares para correr rumo ao casarão onde Oleg e Iryna embalavam a caçula de apenas 3 meses. O garoto não fazia ideia como eram os seus irmãos mais velhos por parte de pai que haviam ficado em Yalta. Oleg e Iryna não comentavam a situação, entretanto estranhava as viagens feitas por sua mãe à Yalta que pareciam não trazer alegria, ao contrário sempre aumentava a sua irritação. Anos depois, após ter deixado as viagens, soube de sua própria mãe que todas as viagens haviam sido feitas com propósitos que não foram alcançados. Iryna jamais foi recebida pelos seus irmãos e o seu antigo esposo. As feridas não cicatrizaram, restando a Iryna a resignação e tristeza pelo que perdera e a esperança de amparo e solidariedade junto à Oleg e filhos.

Iuri notava que Oleg sempre se ausentava nos finais de tarde e só retornava um pouco antes do fechamento do restaurante que ficava entregue a Iryna. Oleg era muito conhecido no Bairro pelo fato de ser um vibrante orador e entusiasmado agitador político. Um dia contou a Iuri um pouco do seu passado de lutas, recorrendo aos tensos anos finais de 80. Mesmo tendo cursado engenharia decidiu não exercê-la, a princípio em razão da enfermidade do pai que mantinha às “duras penas” o restaurante, depois por convicção. Assim que o pai faleceu fechou temporariamente o restaurante para assumir o posto de cozinheiro-chefe num hotel em Yalta (onde conheceu sua mãe), onde permaneceu até 1993. Com o dinheiro que sobrou Oleg e Karla reabriram o restaurante do falecido pai. Mas jamais deixara a militância por uma nova Ucrânia.

As cinzas mortais de Chernobil
Oleg nasceu para a militância na noite de um sábado, era final de abril e notícias chegaram até Kiev dando conta de um vazamento de material radioativo na Usina Nuclear de Chernobil no norte da Ucrânia, fronteira com a (também) República Soviética e Socialista da Bielorrússia. No norte da Ucrânia – ainda uma federação soviética e socialista – o vazamento continuou até o 6º dia de maio. O governo soviético organizou uma gigantesca operação de limpeza envolvendo cerca de 500 mil pessoas, entre militares funcionários e voluntários. Os helicópteros eram enviados para o foco central das explosões com cargas de areia e chumbo para enfrentar o fogo. Quase 50.000 pessoas tiveram que ser retirados da região do desastre. Era muito material, era muita contaminação, eram muitas as incertezas. Este desastre que ceifou 15 mil vidas, segundo o governo, ainda revela suas cicatrizes quase trinta anos depois. Hoje os níveis de radiação baixaram e o governo da Ucrânia permite a visitação da área abandonada. A cena ainda hoje é horripilante, as marcas do desastre e os signos da nomenclatura soviética.

Oleg tomou aquela tragédia como um marco na mudança de sua vida, decidiu que lutaria para que suas aspirações por uma Ucrânia livre da Rússia fossem satisfeita, engrossaria então os movimentos que convergiam para este propósito. O ambiente parecia ser cada vez mais propício, eram frequentes os choques entre manifestantes e policiais em todo o “país de outubro”, na poderia ser diferente na Ucrânia. Os ventos da Glasnost sopravam e o frio da União Soviética parecia cada vez menos sentido em razão do calor gerado pelos movimentos cada vez mais consistentes e frequentes dos corpos.

Yeltsin e Gorbachev
A Glasnost ou transparência do reformista-moderado Mikhail Gorbachev servia para amparar o outro eixo de seu governo – a Perestroika. Suas teses foram acolhidas no XXVII Congresso do Partido Comunista da União Soviética no início de 1986. Legitimado pelo acolhimento de suas proposições Gorbachev assumiu o comando de um país mergulhado numa crise econômica que comprometia indicadores sociais provocando pressões de toda parte e de toda espécie. 

As liberdades individuais e coletivas concedidas pelo governo acabaram por facilitar a queda do próprio governo. A liberdade concedida à imprensa fez com que esta mostrasse claramente as lacunas e os graves problemas econômicos e sociais (como o alcoolismo, a poluição, as habitações degradadas, a fome, os elevados índices de mortalidade) que o governo tinha tentado ocultar até então. O desastre de Chernobyl, a custosa campanha militar no Afeganistão e a corrupção vigente passaram a ser muito explorados pelas mídias e setores oposicionistas cada vez mais organizados. 

Os conflitos entre regiões e etnias intensificaram-se, as vísceras da URSS estavam expostas, não sendo mais possível fechá-las. Dentro do PCUS, os setores (conservadores) mais refratários aos procedimentos de Gorbachev e à forma como reagia ao avanço das oposições e dos movimentos autonomistas nas Repúblicas, decidiram destituí-lo. Foi na sequência deste mesmo golpe que Gorbachev se demitiu, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se desmembrou e Boris Yeltsin ascendeu ao poder.

Referendum em dezembro de 1991
Na Ucrânia, Oleg se envolvia cada vez mais na luta pela autonomia da Ucrânia. Vibrou quando o Parlamento anunciou a Independência no dia 24 de agosto. As lideranças principais, representando a majoritária parcela dos que lutaram pela independência como Oleg, desejavam um Estado democrático e uma economia de mercado. O Referendum foi realizado no final daquele ano com ampla adesão, sacramentando uma base indispensável para pavimentar o caminho por um Estado Democrático que só se confirmaria depois do retorno de Oleg à Kiev em 1996.

Leonid Kravchuk membro da burocracia comunista e ex-secretário de ‘Questões Ideológicas’ do PCUS na Ucrânia – abandonou a foice e o martelo e se tornou o primeiro presidente da Ucrânia. A desmontagem do aparato cultivado por décadas pelo PC acabou beneficiando os ex-membros da nomenclatura da colapsada República Socialista e Soviética da Ucrânia, tornando-os uma fração importante e influente da elite endinheirada do país.

As dificuldades para o entendimento refletiam a colcha de retalhos que era a política partidária ucraniana, eram poucas as chances de um governo de união nacional que pudesse executar um programa mínimo de consenso. A crise econômica avançava e comprometia os indicadores sociais ainda sofríveis, em suma o ambiente era pouco propício ao entendimento entre as agremiações. 

Oleg não pode acompanhar de perto as ações de governo do agora “não mais camarada” Kravchuk em razão de sua mudança “pró-tempore” para Yalta. Seu retorno à Kiev em 1994 tinha três propósitos, esquecer Iryna que havia lhe negado partir com ele, reorganizar o restaurante e ajudar Leonid Kutchma nas eleições no verão daquele ano. 

Alcançou dois destes propósitos, Leonid Kutchma foi eleito e o restaurante reorganizado...
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