12 de abril de 2014

UCRÂNIA CAPÍTULO II: "CRIMEIA AGORA É RUSSA"

Cires Pereira 
Um domingo (diferente) de Referendum

 A Defesa de Sebastopol (1942) - Alexander Alexandrovich Deyneka (1899-1969)  Acervo do Museu Estatal Russo - São Petersburgo
Ivan com os seus 53 anos, ainda excitado pelos acontecimentos iniciados em Kiev que repercutiram em toda Ucrânia incluindo a “autônoma” Crimeia, saiu bem cedo para votar, na esperança de ajudar a materializar um sonho de grande parte de seus familiares de origem russa, voltar para os “braços da mãe Rússia”.

Mesmo receosos quanto aos desdobramentos desta mudança, que significa voltar a ser parte constitutiva da Rússia, Ivan e seus dois filhos, também em condições de votarem no Referendum neste domingo (16 de março de 2014), tem deixado transparecer a satisfação de não mais serem tutelados pela Ucrânia que, em tempos de soberania, revelou-se uma nação constituída por uma expressiva fração de homens e mulheres angustiados e temerosos quanto aos seus futuros. Outros um milhão e quinhentos mil crimeanos e trezentos mil eleitores da cidade autônoma de Sebastopol também foram convocados. Assim que votaram os três foram se encontrar com amigos para comemorarem a acachapante vitória da tese de reintegração à Rússia, pois as pesquisas desde sexta feira sinalizam para isto com 90 % contra 10 % dos que não querem.

Manifestação dos crimeanos partidários da ruptura com Ucrânia
O crimeano Ivan Bondaruk Morozov sempre se sentiu mais russo do que ucraniano, os contatos com os seus parcos parentes maternos sempre foram muito efêmeros, muito provavelmente por conta do falecimento precoce de Elena Bondurak, vitimada por um tumor inclemente no início do ano de 1960. Ivan jamais se regozijou de “pertencer” à Ucrânia, ao contrário sempre se pautou na defesa de uma reintegração à Rússia. A perda de seus dois irmãos ainda adolescendo e as mortes naturais de seus pais (Victor morrera cinco anos após Elena) haviam deixado em Ivan uma sensação de não pertencimento ao passado, mas por outro lado era um abnegado defensor dos ideais stalinistas de seu avô Ivan Morozov e, por conseguinte, nutria mais apreço pela Rússia. 
Seu avô, o venerado camarada-capitão Ivan Morozov, um militar que por muita sorte passou incólume aos ataques dos alemães nas trincheiras durante a Grande Guerra, ingressara desde 1918, nas fileiras do Exército Vermelho comandado por Leon Trotsky. Partícipe relevante da campanha vitoriosa contra as forças contrarrevolucionárias abrigadas no Exército Branco durante a Guerra Civil, Ivan foi alçado ao posto de capitão. Após três anos de enfrentamentos, o conflito deixara um rastro terrível de muitas perdas materiais e, principalmente, humanas. Vitoriosos na Guerra Civil, os “vermelhos” ajudaram a consolidar o novo regime na URSS e a “reintegrar” Ucrânia (e Crimeia) ao “Gigante Vermelho” erigido por Lênin, Trotsky, Stálin e outros.


O capitão Ivan Morozov, estabeleceu-se em Yalta como chefe do destacamento do Exército Vermelho instalado para guarnecer, ao lado do destacamento similar em Sebastopol,  a costa sul da Crimeia além de assegurar uma normalidade conveniente à nomenclatura soviética na cidade. Em Yalta teve seu único filho Victor Morozov que praticamente foi criado pela mãe em razão de sua morte seis anos depois, vitimado por uma pneumonia, no dia anterior ao Acordo de não agressão celebrado entre os governos Stálin (soviético) e Hitler (alemão). Victor soube aproveitar-se da influência do “camarada-capitão” Ivan Morozov para minar qualquer resistência que pudesse haver no clã Bondaruk quanto às suas intenções em casar-se com a bela Elena Bondaruk naquele primeiro sábado do mês de maio de 1945.
Ivan Bondaruk Morozov sempre encontra tempo, entre fazer e comercializar pães na padaria que seu pai Victor havia-lhe deixado como herança, para ler os jornais de circulação crimeana além de ser um assíduo leitor dos clássicos da literatura russa como Puchkin, Checóv e Tolstói, este último muito adorado. Em razão de seus dotes literários e de sua boa memória sempre foi incitado pelos amigos a falar sobre a história da região desde a época dos Romanov (família que comandou por muitos anos o Império Russo e desalojada do poder pela convulsão revolucionária em 1917). Nestas conversas informais aproveita para corroborar uma tese questionável (e superada) que consiste em atribuir ao governo Stálin a afirmação do “Estado Soviético e Socialista” tal como fora concebido e alardeado por Vladimir Lênin. Mais uma prova inconteste de sua adoração ao avô morto em 1939.

Mas hoje Ivan sabe que seus amigos querem ouvi-lo, afinal de contas tem sido muito requisitado para expressar sua opinião sobre a crise na Ucrânia agudizada no final do ano passado e  culminando na destituição do presidente Viktor Yanukovich no último dia 22. Num misto de orgulho e insegurança, Ivan sabe que terá que falar para uma “plateia” maior do que o grupo de amigos que raramente excedia meia dúzia. Um sinal, mesmo que pequeno, do que se avizinha na região e, quem sabe, em todo o mundo. 

Sergei Aksyonov - primeiro ministro crimeano
Afinal de conta este referendum, convocado pelo parlamento e pelo primeiro-ministro da Crimeia Sergei Aksyonov e amparado pela Rússia de Putin, não é reconhecido pelo novo governo ucraniano. O governo ucraniano teme que a integração da Crimeia pode estimular movimentos semelhantes no leste ucraniano cuja maioria deseja a volta de Viktor Yanukovich asilado em Moscou e pró-Russia ao governo da Ucrânia.

Ivan Olhou para os que queriam ouvi-lo desejando cruzar com os olhos de Iryna Choma, em vão. Imediatamente caiu em si ao lembrar daquela tarde do primeiro sábado do ano de 1994 em que soube que o recém nascido não era seu filho. Iryna, expulsa de casa, rumou para Kiev com algumas peças de roupas, objetos pessoais e o pequeno Iuri esperançosa de encontrar com o verdadeiro pai daquele rebento e resignada de que não teria a compreensão e o perdão também de seus dois filhos mais velhos.
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