SÍRIA 4: A GUERRA E BASHAR CONTINUAM SOB AS BENÇÃOS DA ONU DE OBAMA E PUTIN

CIRES PEREIRA - 02 DE NOVEMBRO DE 2013
Inspetores da OPAQ (ONU) na Síria


Segundo a OPAQ (Organização para a Proibição de Armas Químicas) "A Síria acabou de inutilizar suas instalações de produção e montagem de armas químicas". A OPAQ foi incumbida pela ONU de supervisionar o programa de eliminação de armas acordado entre o governo sírio, a ONU e os governos dos EUA e de Rússia. Foram visitados 21 dos 23 locais declarados e 39 das 41 instalações nesses locais. O governo Bashar al-Assad informou que os dois remanescentes estavam desativados e, por questões de segurança, os inspetores da OPAQ optaram em não visitá-los. 

Christian Chartier, afirmou pela OPAQ que os depósitos foram lacrados sem a possibilidade de violá-los. "São 1.000 toneladas de agentes químicos e 290 toneladas de armas químicas", acrescentou Chartier, que indicou que as armas permanecem "nas instalações", já que ainda não se está na "fase de deslocamento". A OPAQ tem uma reunião no dia 5 de novembro para decidir quando, onde e como será destruído o arsenal. 

Lakhdar Brahimi, destacado pela ONU para acompanhar os entendimentos que visam por termo à guerra civil procura obter uma ampla participação em uma conferência de paz para a Síria, conhecida como "Genebra 2". Pretende reunir representantes do regime de Bashar e da Oposição para negociações que levariam ao fim uma guerra civil que já contabiliza ao longo de 30 meses, 120.000 óbitos numa média 4 mil óbitos por mês ou 130 óbitos por dia, segundo a OSDH - Observatório Sírio dos Direitos Humanos, cuja sede fica em Londres. Estimativas da ONU indicam um número de refugiados podem chegar a mais de 3 milhões até dezembro de 2013. ExIstem importantes divergências entre os opositores do regime quanto à participação nestas reuniões. Muitos exigem a saída incondicional de Assad, mas Assad se recusa a sair. A guerra continua. 

Quadro atual na Síria após 3 meses de guerra civil

Neste final de semana os combates entre governistas e oposicionistas, dentre os quais muitos jihadistas (defensores de um regime islâmico na Síria), se intensificaram. A OSDH sinaliza que o número de mortos já passam de 200 pessoas. Segundo a OSDH, as forças do regime tem o apoio de milícias apoiadoras de Bashar e de combatentes do Hezbollah (grupo islâmico que atua no Líbano contra Israel e que sempre contou com colaborações do governo sírio). Também no norte, especialmente na província de Hassaké, em meio ao recuo recente das forças do governo, os curdos estariam enfrentando oposicionistas jihadistas na região. Esta participação dos curdos nos combates teria como objetivo a viabilização de um território autônomo para os curdos que vivem na Síria.

Combatentes do regime de Assad
O primeiro ministro russo Dmitry Medvedev afirmou nesta sexta feira que Bashar al-Assad não deixará o poder sem ter clareza e garantias quanto ao futuro de seu país e de sua vida pessoal. Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Rússia "o amargo conflito nacional na Síria agrava a situação humanitária em várias regiões do país. Várias cidades perto de Damasco, controladas por forças antigovernamentais desde meados de 2012, são usadas por extremistas como base para ataques terroristas". 

Percebam com a afirmação acima como o governo russo se esforça para justificar o injustificável, isto é em defender o regime de Assad, a todo instante insinua que os rebeldes não são "flor que se cheira", o que é também verdade. A Rússia tem se posicionado muito claramente em defesa do fim da guerra civil, mas acima de tudo com um desfecho favorável a Assad, o que se pode chamar de apoio condicional, acima de tudo "apoio".
  

O próximo e mais difícil passo: mudar o governo e desmantelar o regime Assad

Está se desenhando para o final de novembro um encontro que já teria recebido a alcunha de "Genebra 2" (alusão ao encontro de Genebra que decidiu sobra as armas químicas), os países árabes e ocidentais contrários a Assad anunciaram que deveria haver em Genebra "uma só delegação do regime sírio e uma só delegação da oposição, da qual a CNS (Coalizão Nacional Síria) deveria ser o coração e liderança, como representante legítima do povo sírio". O governo russo discorda, pois vê a CNS como apenas uma parte da oposição, e sugere que várias delegações, inclusive de personalidades radicadas em Damasco e toleradas pelo governo, deveriam representar a oposição. Disso se pode depreender que o governo russo se empenhará para que Assad e seus asseclas não sejam alvos de processos na Síria e tampouco no mundo. 

A Forbes publicou esta semana uma nova lista dos mais poderosos do mundo, nela Obama é desbancado do topo da lista pelo Presidente russo Vladimir Putin. Muito embora isto não corresponda fidedignamente a realidade, não se pode ignorar o fato de que se trata de uma sinalização das hesitações do governo americano.


Os escombros deixados até agora pela guerra civil na Síria aliado aos mais de três milhões de refugiados e mais de 120 mil mortos e a permanência de um tirano inescrupuloso a frente do governo da Síria, nos ajudam a compreender que quanto mais intensos forem os conflitos regionais e as disputas internas em nações pelo mundo afora, mais se justificam os avanços da lucrativa indústria bélica e as posturas arrogantes dos líderes das principais potências. 

É insuportável deparar com uma situação* que parece estar longe de ser resolvida, uma situação de caos e barbárie na distante Síria. Não fossem as hesitações de Obama, o oportunismo de Putin resultante de conveniências espúrias da Rússia e a pusilanimidade da ONU, reveladores em última instância das faltas de vontade política e da ausência de qualquer sensibilidade,  este quadro já teria sido resolvido.

OBAMA e PUTIN

*Em 14 de setembro escrevi um texto logo após o acordo em Genebra, prevendo esta situação, acompanhe o final deste texto e tire suas conclusões:
"Se detivermos um pouco mais na fala de John Kerry, fica subentendido que, se o governo Assad “colaborar”, a comunidade internacional continuará reconhecendo-o como presidente da Síria, a despeito do que parece desejar a maioria do povo sírio. 

O que me pareceu claro até agora foi um o estabelecimento de “limites” para os abusos cometidos pelos dois lados, ou seja, está vedado o uso de armas químicas.
Outros tipos de armas, que também matam e destroem, podem? Assad continua no governo? 

Intuo o que deve estar passando na cabeça destas lideranças, e penso que nem precisaria comprovar isto por razões muitíssimo óbvias. Para Kerry, Lavrov, Putin, Obama, Assad e Idris outras armas podem e poderão ser usadas."
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