SÍRIA 2 INTERVENÇÃO NA SÍRIA: O QUE ESTÁ EM JOGO?

Cires  Pereira 03 de setembro de 2013

Prezados Leitores, recomendo as leituras dos dois textos abaixo, que constituem com este a trilogia sobre Síria.

Síria 1
Síria 3




É iminente uma intervenção militar comandada pela OTAN, aliança militar comandada pelos EUA desde o final da década de 1940 quando foi fundada. Obama sabe que não obterá chancela do Conselho de Segurança das Nações Unidas, pois os governos russo e chinês são aliados do regime ditatorial comandado por Bashar al-Assad e, como se sabe, Rússia e China na condição de membros permanentes deste Conselho tem direitos a voto e veto.

Por outro lado o Presidente Barack Obama (Democrata), alheio às resoluções deste Conselho, não deverá encontrar dificuldades em obter a anuência dos demais membros da OTAN (talvez o Reino Unido possa criar alguma dificuldade diante da resolução do Parlamento Inglês contrária a uma intervenção militar) para as operações. Certamente Obama terá que ser bastante convincente com o Senado e com a Câmara dos Representantes nos EUA pra esta autorização. Todas as participações dos EUA em conflitos pelo mundo depende da autorização do poder (bicameral) legislativo dos EUA. Não podemos esquecer que, embora isto não tenha um peso tão fundamental, o então Senador Barack Obama havia se posicionado contrário às intervenções militares dos EUA ao longo do Governo de seu antecessor, o Republicano George W. Bush. Muitos eleitores de Obama certamente ficarão frustrado com esta mudança de comportamento. Obama parece optar pelo pragmatismo que caracterizou a gestão do último Democrata, Bill Clinton (1993-2001), mas isto embora surpreenda muitos eleitores nos EUA, não me surpreende.

Protestos contra a postura do governo Obama 

Obama encontrará reticentes e até opositores a esta aprovação entre Democratas e entre Republicanos, afinal de contas o que ganhariam os EUA com a queda de Bashar al-Assad? Qual será o montante gasto nesta operação na Síria? É possível prever que apenas uma operação de alguns meses, seja suficiente para a destituição de Bashar al-Assad? Os EUA, afinal de contas, querem o fim do governo de Bashar al-Assad?

Estas são algumas indagações que os congressistas nos EUA fazem antes de resolverem. Mas a máquina pública nos EUA é muito poderosa, o suficiente para passar uma espécie de "rolo compressor" no Senado e na Câmara, onde tem maioria.



Ainda parece-me precoce apontar qual será a operação na Síria, duas opções existem, a saber:

  • Ataques com mísseis disparados de bases e de aparelhos estacionados na vizinhança onde muitos são aliados dos EUA (Israel, Jordânia, Arábia Saudita, Omã, Kwait, Emirados, Iraque, etc), mesmo que ocorra uma resolução da Liga Árabe rechaçando a Operação. 
  • Ataques aéreos seguidos de uma ocupação por terra em conjunto com a oposição armada ao regime.

Obstáculos poderosos

Obama e Putin em recente encontro
O ministro das Relações Exteriores da Rússia Sergei Lavrov, após ter conversado por telefone com o secretário de Estado dos EUA John kerry, advertiu que “se a hipótese de ataque militar à Síria for efetivado haverá consequências muitos graves, uma vez que o Ocidente acusa a Síria sem ter provas deste país ter feito uso de armas químicas. Por outro lado, uma intervenção militar sem a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas seria uma grave violação do direito internacional.”

A China também se opõe a uma “guerra humanitária” da OTAN. Wang Yi, ministro das Relações Exteriores, alertou os países ocidentais pedindo “mais cautela em julgar os elementos da crise na Síria, uma vez que quando se fala de armas químicas todas as partes deveriam ser questionadas”. A China defende a negociação para resolver a crise na Síria. 

O Irã também advertiu os Estados Unidos, o comandante das Forças Armadas, Massoud Jazayery, que afirmou: “Os Estados Unidos conhecem as limitações da linha vermelha na frente síria. Se Washington vai violar essas limitações, então a Casa Branca vai sofrer sérias consequências por tê-lo feito.”

O regime de Assad é amparado por uma coalizão comandada pelo Partido Baath, composto de sunitas, as Forças Armadas, dominada por cristãos e alauítas, e as elites de Damasco e Aleppo, de maioria sunita. 

Bashar al-Assad tem como aliados na região (Oriente Médio) o governo xiita do Irã, que não quer perder seu último aliado poderoso na região, depois da ascensão dos regimes sunitas no pós-Primavera Árabe. Os atuais governantes xiitas do Iraque e o movimento xiita libanês Hezbollah (Partido de Deus).

A maior incógnita é a oposição ao Bashar al-Assad , pois estamos falando de um verdadeiro mosaico ideológico. Embora 90% seja sunita, com membros conservadores e religiosos, a Coalizão Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias é composta de mais de 1.000 grupos armados, com várias facções inimigas entre si. Destaque para os membros da Irmandade Muçulmana que tem o apoio do Qatar. Facções salafistas contam com o apoio da Arábia Saudita e de parte do Golfo Pérsico. Por fim os jihadistas da Frente Nusrah (Jabhat al-Nusra), o tentáculo sírio da al-Qaeda.

Reitero que a manutenção de Bashar al-Assad no governo significa a continuidade de uma guerra que em dois anos ceifou 100 mil pessoas, tirá-lo pode ser o primeiro passo do estabelecimento de um governo que a princípio, por depender dos EUA para reconstruir o país, apoia os EUA. Ocorre que a disputa pelo espólio desta vitória estaria só no começo e considerando as forças da Irmandade Muçulmana na Síria e dos Jihadistas vinculados à Al qaeda, nada garante que estes não consigam alcançar o governo, um cenário pavoroso para os EUA.
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