SÍRIA 1: A CRISE NA SÍRIA E A IMINÊNCIA DE UM ATAQUE DA OTAN

Cires Pereira - 01 de setembro de 2013

Leitores, recomendo as leituras dos dois textos abaixo (clique nos links abaixo)
Síria 2

Síria 3
http://www.escritaglobal.com.br/2014/04/siria-3-eua-e-russia-fazem-um-acordo.html

Síria 4
http://www.escritaglobal.com.br/2014/04/siria-4-guerra-e-bashar-continuam-sob.html 

Uma retrospectiva histórica


País situado no Oriente Médio, a Síria faz fronteiras com Turquia, Iraque, Líbano, Jordânia e Israel. A sede político-administrativa da Síria é Damasco. Com uma população de 22,5 milhões espalhada nos seus 185 mil Km², é um país de maioria muçulmana (75 %), mas que conta com 10% de cristãos. O turismo, as atividades agrárias e o turismo são a base de sua economia.


A região, desde a Antiguidade foi Habitado por povos semitas, ao longo de sua história os sírios foram subordinados aos persas, macedônios e romanos. Dentre os atrativos turísticos, certamente as marcas ou ruínas destes domínios sempre foram as mais visitadas.

No século XVI, a região foi ocupada pelos Otomanos. No século XIX a região voltou a despertar interesse dos europeus, sobretudo dos franceses. (A Síria havia sido conquistada por “cruzados” cristãos na Baixa Idade Média, o que explica uma parcela significativa, embora minoritária de cristãos). A Síria permaneceu sob domínio militar francês até 1840, ano em que os Otomanos a reconquistam.

Em 1860 em razão das hostilidades entre maronitas e drusos, os franceses voltaram a intervir para protegerem os cristãos, os otomanos tiveram que ceder, permitindo um governo cristão do “Pequeno Líbano”. 

Terminada a “grande guerra” em novembro de 1918, o Império Otomano foi esfacelado, assim as regiões da Síria e do Líbano ficaram sob tutela francesa e as regiões do Iraque, Jordânia e Palestina sob domínio britânico.

Durante a 2ª Guerra, a França ainda estava parcialmente ocupada pelos nazistas, sírios e libaneses elegeram governantes que tinham tendências nacionalistas ou anti-francesas - Chikri al-Quwatti elegeu-se presidente da Síria e Bechara al-Kuri como presidente do Líbano. Bechara ao defender uma reforma na Constituição que implicaria no fim do domínio francês, por isso destituído e preso pelos franceses o que resultou na retirada das tropas francesas em 1946, determinada pela ONU.

Em 1958, um plebiscito aprova a fusão da Síria e do Egito na República Árabe Unida, materializando parcialmente o sonho do líder egípcio Gamal Abdel Nasser de união entre os árabes. Esta fusão durou pouco. 

Em 1963 o Partido Baath lidera uma mobilização popular e assume o governo sírio. Em 1970 o general Hafez al-Assad assumiu o poder e introduziu reformas nas estruturas econômicas e sociais. O Partido Baath, optou por "acelerar os passos para a transformação socialista nos diferentes campos", esse modo de pensar foi institucionalizado sob a nova Constituição, aprovada em 1973.

O país teve participação fundamental nas guerras árabe-israelenses travadas em 1967 (Guerra dos Seis Dias) e em 1973 (Guerra do Yom Kipur), durante as quais as forças israelenses ocuparam as Colinas de Golã. Em 1978, as facções síria e iraquiana do Partido Baath mantiveram conversações para a unificação entres a Síria e o Iraque, mas o projeto fracassou.

Ao longo dos anos 90 as relações entre o governo sírio e o ocidente tornaram-se menos tensas, o governo de Hafez al-Assad voltou a negociar com o governos Israelense e dos EUA (a Síria colaborou com as incursões militares da OTAN na Operação Tempestade do Deserto no Kwait para a retirada das tropas iraquianas). 

Em 1995, uma nova rodada de negociações com o governo israelense sobre as Colinas de Golã fracassou em seguida um confronto entre o Hezbollah (grupo muçulmano que atua principalmente no sul do Líbano) e tropas israelenses complicou a retomada das negociações.


O Partido Baath perde forças na Síria

Em 2000, com a morte do ditador Hafez al-Assad, o Partido Baath aceitou que seu filho, Bashar al-Assad, assumisse a presidência em julho. Neste momento a Síria completava a retirada de suas tropas de Beirute, um ano após a retirada das tropas israelenses do sul do Líbano. Em outubro de 2001 a Síria conseguiu um assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas, com forte apoio dos países da Ásia e da África, derrotando a oposição por parte dos Estados Unidos e de Israel. Logo em seguida Bashar anuncia a libertação de prisioneiros vinculados à “Irmandade Muçulmana”

A partir de 2002, Bashar anuncia mudanças brandas nas áreas econômica e política para acalmar as crescentes mobilizações oposicionistas. Em 8 de março de 2004, o Comitê de Defesa das Liberdades Democráticas e Direitos Humanos na Síria organizou um protesto sem precedentes em Damasco para exigir democracia e liberdade para os demais preso. As eleições na Síria sempre foram muito manipuladas pelo Baath. Um forte exemplo, em 2007 Bashar foi “referendado”, para mais sete anos de governo, por 97 % dos votos.

A Guerra Civil e a iminência de uma intervenção estrangeira

Desde 2011 os protestos populares tem-se intensificado contra o governo de Bashar al-Assad, evoluindo para os confrontos armados que até fevereiro de 2013 tinham vitimado mais de 70.000 pessoas e provocado a evasão de meio milhão de sírios.

Tem havido várias denúncias sobre o uso de armas químicas nesta guerra civil que já se arrasta por dois anos e meio, sendo a mais grave delas na semana passada, quando a oposição acusou o governo de ter matado centenas de civis durante a noite em um ataque com gás sarin ou similar em Damasco. Tanto o governo quanto a oposição negam com veemência o uso de armas químicas. 

A Rússia de Putin, que tem interesses econômicos e estratégicos na região, é a principal aliada do governo sírio e tem vetado resoluções sobre a Síria no âmbito do Conselho de Segurança. Assad conta ainda com as simpatias dos governos chinês e iraniano.

O governo dos EUA informou nesta manhã que já existem provas do uso de gás sarin. Em entrevista à CNN, o Secretário de Estado Kerry disse que os EUA obtiveram amostras independentes e que o governo do presidente Bashar al-Assad ordenou o ataque químico. "Sabemos que o regime ordenou o ataque, sabemos que eles prepararam. Sabemos de onde vieram os mísseis. Sabemos onde caíram. Sabemos o estrago que foi feito”. Fica muito evidente que a partir de agora fontes do governo americano irrigarão os jornais com argumentos que justificam a contraofensiva ao regime de Bashar al-Assad.

O governo Obama, certo de que não obterá permissão para um ataque, junto ao Conselho de Segurança da ONU (Rússia, China já teriam se oposto), e igualmente certo de que terá as chancelas da OTAN e do Congresso dos EUA, já prepara para o ataque de consequências imprevisíveis, certo mesmo é que Bashar está com os seus dias contados, a dúvida recai sobre com ficará a Síria depois da ditadura Assad/Baath. Quem deverá governar ? Conseguirá uma coalizão harmoniosa que tenha transito junto ao Ocidente? Como ficarão as relações com Irã, Rússia e China ?


Os EUA tem se limitado a oferecer apoio não letal aos rebeldes sírios e a fornecer ajuda humanitária. Os EUA sabem que intervir na Síria significa reduzir as chances de Bashar contra seus opositores. A maior incógnita continua sendo a seguinte: até que ponto é a força, presença e influência dos militantes islamitas com vínculos com a rede terrorista da Al-Qaeda?
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