11 de abril de 2014

POEMA: O MOÇO NU

Cires Pereira



Um moço nu, com a orelha maculada, amarrado e sob olhares.

Uns (minoritários) misericordiosos.

Outros (majoritários) "aliviados".

As vísceras preservadas, a

vida mantida e a humilhação estampada. e espalhada.


O "recado" nu e cru no nu do infeliz.

Um "recado" que me fez lembrar Drumond.

"Há no país uma legenda que ladrão se mata com tiro".

Humilhados estamos, mas não vencidos.


Nu e amarrado este moço, de pele nem branca nem negra, é brasileiro.

Perdido sob os olhares igualmente perdidos dos supostamente

moços e moças de bem com suas peles igualmente nem brancas e nem negras.

Perdido estamos, mas não vencidos.


Como ele, sentimo-nos perdidos e impotentes.

Como ele somos agredidos impunemente.

A selvageria dos "justiceiros" ordena que nos curvemos.

Mas não fomos (nem seremos) vencidos.


Repilo a diagnose "pequena" de uma suposta ausência de autoridade.

Repudio a claque dos nescios e a indiferença dos que se dizem letrados.

Tanto quanto as vozes, indiferentes ao clamor da razão, que aplaudem

em letras garrafais vertidas num telejornal de alcance nacional.

Vozes movidas por uma convicção extraída da "pena" fascista.


Chaplin bem disse "o sol vai rompendo as nuvens que se dispersam."

Quase oitenta anos depois, muitas ainda são estas nuvens travestidas de socos.

Travestidas de pontapés, de "balas", de açoite

Travestidas de um (até então) inocente cadeado de uma bicicleta qualquer.
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