O NEOLIBERALISMO E SEUS ASSECLAS RASOS

Cires Pereira

Adam Smith e Karl Marx


Desqualificar ou invalidar metodologias de análises, conceitos e teorias pode comprometer o conhecimento e a criação que decorreria deste mesmo conhecimento. Um exemplo, não é recomendável ignorar/desqualificar o "materialismo histórico e dialético", uma metodologia concebida por Karl Marx em meados do século XIX, para a apreciação e a compreensão do sistema capitalista que naquela época encontrava-se em processo de consolidação. Hoje mesmo parece-me temerário prescindir tanto da metodologia de análise quanto das conclusões de Marx sobre o sistema capitalista, isto comprometeria o esforço intelectual até mesmo dos que se autoproclamam anti-marxistas ou liberais ou reformistas. 
 

Uma instituição de ensino respeitável em qualquer lugar no mundo e em qualquer época geralmente se desdobra para lançar aos seus "aprendizes" de todos os matizes étnicos e culturais, tendências políticas, profissões de fé e com objetivos variados um gama diversificada de leituras dos clássicos presentes e atuais. A verdade pra ser desvendada e compreendida e a teoria pra ser fundamentada sobre quaisquer fenômenos dependem do levantamento, da apreciação e do julgamento das interpretações feitas sobre os mesmos. Até mesmo certas interpretações ou leituras que, passado algum tempo, para uma parte da comunidade acadêmica perdem a "validade."

Rodrigo Constantino
, um anti marxista confesso, crê que isto seja possível, ao meu ver ele perde  a possibilidade de ser levado a sério como analista da sociedade. Então porque se preocupar com suas análises? Mesmo superficial e previsível na análise, seus escritos, potencialmente panfletários, tem tido uma expressiva repercussão, uma demonstração disto tem sido a quantidade expressiva de visualizações em seu blog além do fato de ser um dos colunistas da Revista Veja, hoje uma das principais referências da "direita" brasileira, defensora contumaz do ideário neoliberal.

Vamos aos fatos 

A Universidade Federal de Uberlândia (UFU) promoveu entre os dias 25 e 29 de novembro um Simpósio Internacional de Filosofia Política sob o título "Atualidade de Marx e Gramsci", foram convidados professores e pesquisadores brasileiros e de Portugal,  Itália,  EUA e França. Intuo que os organizadores devem ter partido de critérios bastante rigorosos e nobres para convidarem este grupo, alguns conheço um pouco como: Custódia Martins, dona de um belo texto sobre Rousseau que todos deveriam ler intitulado "Para uma genealogia do bem e do mal em Rousseau"; Michael Lowy, um dos principais estudiosos sobre os pensamentos de Karl Marx e de Marxistas como Rosa Luxemburgo e León Trotski; Rocco Lacorte importante leitor e ensaísta sobre os Estudos sobre Antônio Gramsci e Fábio Frosini estudioso sobre o Renascimento, particularmente sobre a obra de Leonardo da Vinci e Nicolau Maquiavel além de estudos sobre a relação entre filosofia e política de Karl Marx e de Antônio Gramsci.

 


Embora não tenha participado do "Simpósio", por conta de circunstâncias alheias à minha vontade, colhi impressões de quem participou e em linhas gerais o simpósio atingiu as suas expectativas. Parabenizo pela iniciativa da UFU e aguardo outros simpósios, sugiro que sejam realizados mais simpósios, sugiro abordagens sobre os pensadores liberais, a ideologia fascista, o keynesianismo, o neoliberalismo e que sejam convidados "as principais autoridades" nestes assuntos.
No dia 12 de outubro de 2013 o colunista  Rodrigo Constantino do site VEJA publica a sua impressão sobre o simpósio sob o título "Marx e Gramsci atuais? Só na UFU mesmo!". Num texto de poucas linhas critica as instituições públicas de ensino por gastarem porcamente os recursos do erário público, e dá como exemplo  a realização do Simpósio sobre Marx e Gramsci pela UFU no último outubro. Rodrigo Constantino alega que os jovens não deveriam aprender "porcaria" e que nossas instituições estão virando "antros de proselitismo ideológico". No argumento apresentado, Rodrigo Constantino registra que "estes filósofos" (referindo-se aos organizadores e convidados palestrantes), alheios ao fracasso da aplicação do pensamento marxista, insistem em "tentar uma vez mais uma revolução comunista e sacrificar no altar da utopia mais 100 milhões de vidas inocentes..."

Imagino como seria constrangedor para Smith, Ricardo, Friedrich Hayeck, Milton Friedman e outros ideólogos do liberalismo terem um militante das suas causas como Rodrigo Constantino. A impressão que tenho é que o liberalismo está cada vez mais carente de defensores bem preparados. Soa patético para não dizer repugnante acompanhar Constantino defender um teoria tendo como base a desqualificação do contraditório, no caso do marxismo. Em nenhum momento digna-se a elencar os procedimentos e objetivos do neoliberalismo que é, para ele,  o modelo mais apropriado ao sistema capitalista no início deste terceiro milênio.  Por tudo sito, Constantino não passa de um assecla raso do neoliberalismo

Como Rodrigo Constantino é dono de conclusões simplistas, resultado de uma leitura superficial e subjetiva dos "clássicos", qual seria então o objetivo deste texto em preocupar-se, "a priori", com alguém que escreve tão raso que não passa de um replicador de ideias? 

Simples, ele tem atraído a curiosidade, a atenção e o aplauso de muitas pessoas, isso é preocupante. Penso que todos deveriam ler Rodrigo Constantino mesmo tendo a "direita" defensores muito melhores. As forças politicamente progressistas sabem muito bem que o "senso comum" é uma eficiente arma destruidora de ideias e de movimentos que se articulam em torno destas mesmas ideias. 

O caso mais emblemático foi construído e aplicado pelo nazismo. Joseph Goebbels (1897-1945), encarregado do III Reich para comandar a  propaganda, afirmava que "uma mentira quando repetida mil vezes, torna-se verdade". Recorro ao evento produzido pelos nazistas em 1938 para deflagrarem o holocausto ou solução final contra os opositores em geral, e os comunistas e judeus em particular. Nos dias 09 e 10 de novembro de 1938 o governo alemão determinou que integrantes da S.A ou Tropas de Assalto (Sturmabteilung) S.A sem seus uniformes iniciassem tumultos em bairros judeus pra responsabilizá-los por estes mesmos tumultos,   propriedades de judeus foram saqueadas em todo o país, sinagogas foram queimadas, 30 mil  presos e 90 mortes.

Aos leitores atentos e de boa índole, não é minha pretensão apontar a melhor teoria. A melhor opção é ler sobre todos e tudo e destilar deste esforço intelectual um juízo que possa orientar a sua conduta. Saibam que Adam Smith, David Ricardo, Milton Friedmam são o suprassumo do pensamento liberal admiro-os não pelas conclusões e/ou teses defendidas, mas pela consistência dos seus argumentos. Ler e compreender Smith, Ricardo, Keynes, Friedmam e Haieck e tão imprescindível quanto ler Marx, Lênin, Trotski e Gramsci.
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