MÉXICO UMA APRECIAÇÃO HISTÓRICA

Cires Pereira – setembro de 2013


Ao longo de 300 anos o território compreendido pelos estados do sudoeste dos EUA e toda a área do México atual, foi conquistado e colonizado pelos espanhóis que também colonizaram quase toda a América Central, ilhas no Mar do Caribe e a porção oeste da América do Sul. Os espanhóis, portanto dividiram com os portugueses os maiores e, supostamente, os melhores territórios nas Américas e Caribe.


A EMANCIPAÇÃO MEXICANA

No final do século XVIII eram crescentes os descontentamentos em todas as colônias espanholas. Em razão da exitosa campanha emancipacionista das colônias inglesas no litoral leste da América do Norte e da disseminação princípios liberais estes descontentes começavam a se organizar para lutarem contra o sistema colonial. Após tentativas mal sucedidas de emancipação por volta de 1810/1815 (Padre Miguel Hidalgo foi fuzilado em 1811 e José María Morelos y Pavón fuzilado em 1815), o movimento ganha força e passa a ser conduzido por lideranças mais identificadas com os interesses da “elite criolla” e consegue alcançar a emancipação. Em 182, o processo é consumado tendo a frente Agustín de Iturbide. Agustín foi eleito pelo Congresso Nacional e coroado na Cidade do México como Agustín I de México. Mas em 1823, Agustín I é destituído e, em 1824 é preso e executado. Antônio López de Santa Anna torna-se o primeiro presidente da recém-proclamada República.

Ao longo do período em que Santa Anna comandou “de fato” os destinos do país, mesmo que por alguns anos não fosse o presidente, o México contraia dívidas junto aos credores externos. Em 1845 o Texas que havia se desvencilhado do México aderiu aos EUA, o que provocou a guerra entre EUA e México. Derrotado, Santa Anna assinou o Tratado Guadalupe-Hidalgo que cedia aos EUA o território que, atualmente, corresponde ao Arizona, ao oeste do Colorado, ao Nevada, ao Utah, ao Texas, à Califórnia e ao Novo México. 


A CONSTITUIÇÃO DE 1857 E O GOVERNO JUÁREZ

No Governo do liberal moderado Ignácio de Comonfort (1855/61) foi promulgada a nova constituição mexicana em 1857 que permitiu abolir definitivamente os vestígios da colonização e reduziu a forte influência da Igreja Católica sobre o governo e a sociedade. Um ano depois, as divergências entre os conservadores, que se opunham à Constituição, e os liberais deram início à guerra civil. Em 1861 a guerra terminou com a vitória dos liberais. Todo o país passou a ser governado pelo liberal radical Benito Juárez, de origem indígena.

Benito Juárez 
Juárez lutou pela implantação da democracia liberal e representativa no México, contra a monarquia e o poder da Igreja. Um dos seus grandes feitos foi o de suspender os pagamentos dos juros referentes a diversos empréstimos contraídos por governos que o antecederam, o que provocou a intervenção.

Maximiliano de Habsburgo foi colocado no trono por realistas mexicanos (Assembleia de Notáveis), após ter sido indicado pelo imperador francês Napoleão III. Os conservadores viram em sua pessoa a possibilidade de manter um sistema político que lhes era cômodo e que lhes parecia seguro por contar com o apoio da França, da Inglaterra e da cúpula católica. Em 1866 sem o amparo das tropas francesas, tornou-se presa fácil para a resistência nacionalista comandada por Juárez que contava com o apoio dos EUA. Após um cerco em Santiago de Querétaro, Maximiliano foi capturado, aprisionado, julgado por uma corte marcial e fuzilado.

Juárez faleceu em 1872 e Sebastián Lerdo de Tejada assumiu a presidência levando a lógica liberal, já solidificada, às últimas consequências. Essa radicalização fez com que Porfírio Diaz liderasse uma conspiração armada contra o presidente. Na prática, os seguidores de Porfírio Diaz já estavam descontentes com o longo tempo de poder de Benito Juarez.


O PORFIRISMO

Porfírio Diaz 
No poder entre 1876 e 1911, o general Porfírio Díaz abriu a economia ao capital estrangeiro e procurou favorecer os grandes latifundiários em detrimento dos interesses da maior parte da população mexicana.

Desejoso pela prosperidade a qualquer Porfírio fez do México uma terra de oportunidades para investidores estrangeiros, principalmente americanos e britânicos, que passaram a explorar os recursos naturais do país por meio de empresas de mineração e de nascente indústria petrolífera. Florescem no México instituições bancárias, ferrovias e comércio. Mas a indignação avançava, pois era intensa a exclusão social entre indígenas e camponeses expulsos de suas terras. As empresas internacionais asseguravam melhores postos de trabalho e melhores salários aos estrangeiros. Esta situação também desagradava uma parte do empresariado nacional que, tanto quanto os trabalhadores que se sentiam excluídos em seu próprio país.

Porfírio era visto como um ditador, pois sempre era suspeito de manipular resultados e reduzir os direitos dos oposicionistas para ser reeleito até que em 1910, esta situação se esgota após o anúncio de mais uma tentativa de reeleição. Neste momento surgiu uma alternativa em torno do líder oposicionista Francisco Madero, um fazendeiro do norte. Madero, antes de se candidatar à presidência, foi preso a mando de Porfírio e as eleições ocorreram normalmente. Porfírio se reelegeu com fortes indícios de manipulação.


A REVOLUÇÃO DE 1911

Madero abandona a prisão domiciliar e evade para o Texas onde conclama, via Plano San Luis de Potosí, a sociedade mexicana a se levantar contra o presidente reeleito a partir do dia 10 de novembro de 1910.

Grupos descontentes aderiram ao plano, sobretudo as camadas populares. No sul e no centro os camponeses eram liderados por Emiliano Zapata que propunha a reforma agrária e a devolução dos ejidos (terras comunais apropriadas pelos fazendeiros) aos indígenas. No norte, lideranças como Pascual Orozco, Carranza, Obregón e Francisco “Pancho” Villa. Em maio de 1911, Porfírio não suportou a pressão e as perdas militares e renunciou.

Em novembro de 1911, Madero elegeu-se presidente. Mesmo tendo promovido algumas mudanças de natureza mais democrática como o direito a livre organização dos trabalhadores, o fim da censura à imprensa, seu governo pouco ou nada realizou no plano social que agradasse as lideranças populares. Decidido a obrigar o novo governo a cumprir seus compromissos sociais, Zapata lança o Plano de Ayala.

A CONTRARREVOLUÇÃO

Concomitantemente os porfiristas – Exército, Igreja e setores conservadores – articulavam tentativas de golpe, encorajados pela possibilidade de um apoio dos Estados Unidos. Madero acabou traído pelo seu comando militar na ocasião conduzido pelo General Victoriano Huerta, que havia combinado com os porfiristas e emissário do governo dos EUA. Em fevereiro de 1913, Huerta proclamou-se governante, Madero é assassinado, foi o início do governo contrarrevolucionário.

A RETOMADA DA REVOLUÇÃO


Pancho Villa e Emiliano Zapata 
Zapata organiza o “Exército Libertador do Sul” e declarara guerra ao governo de Huerta. No Norte, o governador do estado de Coahuila, Venustiano Carranza, apoiado por Obregón, Plutarco Calles e por Villa, também não reconheceu Huerta, em 26 de março de 1913, lançou seu Plano de Guadalupe, convocando o povo a derrubar o governo contrarrevolucionário, era o movimento constitucionalista. Com exceção de Villa os demais lideres nortistas tinham uma posição liberal moderada e não viam com bons olhos a liderança de Zapata no sul, porém era uma espécie de mal necessário. A unidade norte-sul surtiu efeito e Huerta foi derrotado e destituído.

Também em 1913, Woodrow Wilson, novo presidente dos EUA, decidiu não mais reconhecer o governo Huerta. Isolado, o presidente renunciou em julho de 1913. Com aval do governo dos EUA, Venustiano Carranza assumiu a presidência da República. Como Carranza e Obregón defendiam um novo México tendo por base a Constituição de 1857, os lideres populares Villa e Zapata, defensores do Plano de Ayala, acabam afastando-se de Carranza e organizam um governo popular que durou poucos dias entre novembro de 1914 e janeiro de 1915. Os constitucionalistas ou carrancistas retomam a capital. Uma guerra civil durou quase dois anos entre as tropas do governo de Carranza, comandadas por Obregón, e as forças revolucionárias de Villa e Zapata.


Carranza 
Em setembro de 1916, com os radicais debilitados Carranza convoca uma Assembleia Constituinte. A nova Constituição foi aprovada em janeiro de 1917. Uma constituição progressista, pois acolhia parte das aspirações populares. A ala mais liberal da elite mexicana entendia que era mais prudente para amenizar a tensão social pós-guerra civil. Venustiano foi então reconduzido ao governo ficando até 1920.

No entanto, em vez de colocar em prática as medidas progressistas previstas pela nova Constituição, Carranza fez um governo profundamente conservador. Devolveu terras expropriadas aos seus antigos donos, reprimiu os movimentos sindicais e enviou leis ao Congresso que propunham a revisão dos artigos mais avançados do texto constitucional. 

Além disso, para acabar de vez com os últimos focos de resistência ao seu poder, Carranza conseguiu capturar e eliminar Zapata em abril de 1919, Villa fez um acordo e abandonou a luta armada contra o governo.

Descontente com a postura moderada e elitista de Carranza, Álvaro Obregón se lançou candidato em junho de 1919, apoiado por socialistas, sindicalistas e até por alguns líderes zapatistas remanescentes. Em 1920, Carranza entrou em choque contra Obregón, Carranza foi eliminado e Obregón assumiu a presidência após ter sido eleito.


O DUUNVIRATO OBREGÓN / CALLES

Álvaro Obregón 
Os quatro anos de governo de Álvaro Obregón ficaram conhecidos pelas reformas agrária e anticlerical e pelo estabelecimento de boas relações diplomáticas com os Estados Unidos, baseadas na venda de petróleo mexicano no mercado dos Estados Unidos.

Obregón apoiou Elias Calles nas eleições presidenciais de 1924, eleito Calles manteve o discurso nacionalista, ampliou a reforma agrária e ampliou o controle sobre o movimento operário, já sob o comando de lideranças adesistas ou pelegas. O Banco do México foi criado, imprimindo a partir de então uma crescente participação estatal na economia. 

Calles implantou as leis Anti Clericais, o que provocou a reação de militantes católicos contrarrevolucionários e fanáticos. O conflito entre a Igreja e o Estado transformou-se num enfrentamento armado com a rebelião dos cristeros, fiéis defensores do clero católico que se estendeu por três anos (1926 - 29), até seu esmagamento pelas forças do Estado.

Os Cristeros 
Em 1928, Obregón, recém-eleito presidente acabou sendo assassinado pelo seminarista José de León Toral, simpático à luta dos cristeros contra o governo.

A crise política interna, a instabilidade gerada pela guerra contra os cristeros e a crise americana (quebra da Bolsas de Valores de NY) que também atingiu a economia mexicana foram responsáveis pela formação de uma grande aliança política envolvendo os “callistas”. Em 1929, Calles congregou diversas facções políticas e formou o Partido Nacional Revolucionário, que a partir de 1938 adotou o nome de Partido da Revolução Mexicana e por fim, em 1946, Partido Revolucionário Institucional (PRI). Em 1930 Calles autoproclama-se “jefe máximo” do México.


O CICLO POPULISTA (1934-1982) 

Lázaro Cárdenas 
Nas eleições de 1934, Lázaro Cárdenas elegeu-se presidente. Calles exigiu que o novo presidente colocasse os callistas em seu governo. Por isso, Cárdenas se desentendeu com Calles e o expulsou do México, em seguida todos os callistas foram demitidos do novo governo.

Dá um forte impulso na reforma agrária, fomenta o sindicalismo, reduz a taxa de analfabetismo e fortalece o processo de industrialização do país. Em 1938 nacionaliza o setor petrolífero e funda a PEMEX (Petróleos Mexicanos). Crítico contumaz do fascismo europeu, acolheu muitos espanhóis que deixaram o seu país por conta do ditatorialismo de Francisco Franco. 


A DERROTA DO PRI

O PRI continuou elegendo seus candidatos até 1994, mas nas eleições de 2000 e 2006 o PRI sofreu reveses com as vitórias do PAN (Partido da Ação Nacional) Vicente Fox e Filipe Calderón, respectivamente. Estes reveses estiveram vinculados à adoção de programas de ajustes econômicos tendencialmente neoliberais pelos últimos governos priístas (Miguel de La Madri, Carlos Salinas Gortari e Ernesto Zedillo) desde 1983.

Miguel De La Madri e Gortari 
O colapso do priísmo refletiu, em certa medida, o desmonte da máquina estatal-priísta pelos presidentes Salinas e Zedillo, numa evidente adaptação ao Consenso (neoliberal) de Washington. 

As privatizações, a flexibilização de direitos trabalhistas, a pressão da sociedade por eleições mais limpas e a crise econômica agravada em 1995 deixaram sequelas no imaginário popular, que já vinha desde 1988 contestando o poder do PRI nas urnas.

Ao sair finalmente do poder, em 2000, o PRI havia mudado radicalmente seus projetos desde sua origem em 1910.

Vicente Fox (PAN) toma posse, ao lado Ernesto Zedillo (PRI) 
Mesmo que não mais dirigido pelo PRI, o México continuou sob gestões neo liberalizantes. As eleições realizadas em 2006 evidenciaram a crise política que se abateu sobre o país. O PAN / Presidente Vicente Fox (direitista – neoliberal – pró-EUA) apresentou a candidatura de Felipe Calderón que saiu vitoriosa com apenas 0,5 % de vantagem sobre o PRD de López Obrador (candidato de esquerda moderada que se posiciona em favor de uma postura mais soberana em relação aos EUA). 

A “vitória” de Calderón em 2006 representou um grande alívio para Washington. A onda de governos hostis à política unilateralista de Washington, demonstrou perda de força com esta vitória de Calderón

Peña Nieto (PRI) e Calderon (PAN) 
Em 2012 o PRI retomou o governo, derrotando ao mesmo tempo o PAN e o PRD, até agora não demonstrou sinais de que pretende governar diferente do PAN, isto é uma gestão em sintonia com o modelo econômico hegemônico – o neoliberalismo. Peña Nieto vem enfrentando protestos contra a sua política, protestos que tem como condutores as lideranças do PRD de Obrador e Cárdenas. O México encontra-se ainda simetricamente dividido entre o neoliberalismo e o keynesianismo, o unilateralismo pró EUA e o multilateralismo.
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