11 de abril de 2014

LORCA, UMA CANETA PERIGOSA

Cires Pereira - Setembro de 2013




“Há coisas encerradas dentro dos muros que, se saíssem de repente para a rua e gritassem, encheriam o mundo”. 

Federico García.Lorca (1898 - 1936)


Federico García Lorca logo depois de ter completado 38 anos foi capturado pelos falangistas, acabou sendo morto com requintes de crueldade. Lorca era Espanhol da cidade de Granada em Andaluzia, em sua curta jornada entre os mortais tornou-se um exímio poeta e dramaturgo. Politicamente progressista e homossexual assumido, logo se envolveu com o movimento liderado pela Frente Popular antifascista na Espanha que venceu as eleições em 1936. 

Adolf Hitler e Francisco Franco

A guerra civil havia começado, pois os fascistas espanhóis não reconheceram a vitória eleitoral da Frente Popular de Esquerda e iniciaram as hostilidades. O general Francisco Franco vitorioso nesta guerra graças às colaborações dos governos Hitler e Mussolini, assume o governo e implanta uma ditadura militar e direitista. Neste momento a Europa e o Mundo começavam a ser "sacudidos" pela Guerra.

Lorca formado em Direito mudou-se para Madrid onde conheceu os artistas Salvador Dali e Luis Buñuel e, até 1928 seus trabalhos, enfatizavam mais as coisas de Andaluzia, da cultura regional e da vida ciganas. Viveu por um breve período em Cuba e nos EUA, mas retornou para Espanha no início da década de 30. Fundou um grupo de Teatro e logo tornou-se alvo dos conservadores e puritanos por conta de suas posições políticas e de sua conduta afetiva, . Em Agosto de 1936, foi preso pelos nacionalistas (falangistas), na prisão foi torturado e morto com um tiro nas costas. Para muitos o tiro nas costas se refere ao fato dele ter sido homossexual.

As peças de teatro constitutivas de uma trilogia, “Bodas de Sangue” de 1933, “Yerma”, escrita em 1934 e "A Casa de Bernarda Alba", esta concebida em 1936, ganharam muita notoriedade, e respeito da crítica. São tragédias ambientadas no mundo rural da região de Andaluzia. 

Embora tenha vivido pouco tempo sua obra é vasta e de muita qualidade e sensibilidade, o que lhe rendeu a referência de grande escritor espanhol do quilate de Miguel de Cervantes, este referenciado como o maior escritor da Espanha de todos os tempos.

Convido vocês leitores a apreciarem toda obra de Federico García Lorca, mas este é um convite óbvio. 

Acrescento outros dois convites.

O primeiro convite é a leitura do livro “O Retorno” da escritora e jornalista inglesa Victória Hislop, publicado pela Editora Intrínseca. 

Envolvente e consistente, o livro mergulha no passado de Granada. Numa prosaica conversa num bar em Granada entre Sônia, turista inglesa de origem espanhola interessada em dança flamenca, e o dono deste bar. Esta conversa é sobre a história extraordinária da Guerra Civil Espanhola e da vida de alguns personagens de Granada, como toureiros, dançarinas, músicos e, claro o poeta Federico García Lorca.

Em 1936, o Bar “El Barril” presencia as piores atrocidades do golpe militar liderado pelo general Francisco Franco. A família se vê diante da disputa entre republicanos e nacionalistas. Divididos pela política e pela tragédia, todos escolhem um lado e travam uma batalha pessoal numa Espanha cada vez mais esgarçada pela guerra civil.

Victória Hislop narra "pari passu" os horrores típicos de uma guerra civil devastadora. A guerra espanhola durou um pouco mais de três anos e ceifou milhares de vidas além de ter abortado um governo identificado com o socialismo e de ter posto fim à incipiente democracia. O desfecho foi igualmente tenebroso, pois Espanha se viu refém por 36 anos de um regime ditatorial conduzido pelo Generalíssimo Francisco Franco, chefe de um governo que foi amparado por grande parcela das elites políticas e econômicas, pela cúpula da Igreja Católica e pela direita em geral.

O segundo convite é a música “Conheço o meu lugar” de um dos maiores nomes da MPB, o cearense Belchior.


Belchior
Leiam o verso que mais me causa impacto nesta música: 

“Era uma vez um homem e seu tempo... (Botas de sangue nas roupas de Lorca). Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca. Não há motivo para festa: ora esta! Eu não sei rir a toa!”

Neste verso Belchior faz alusão a um fato histórico – o assassinato de Frederico Garcia Lorca pelos nacionalistas ou falangistas que, vitoriosos deram a Francisco Franco as condições para conduzir uma ditadura fascista por 36 anos. Com este fato, Belchior faz uma analogia entre a ditadura franquista e a ditadura militar brasileira, ambas, segundo ele “histórias porcas”, no sentido de construírem mentiras para uma série de torturas, desaparecimentos e assassinatos.

Enumera as condutas típicas dos ditadores “(botas de sangue nas roupas de Lorca)” e “(Deus fez os cães da rua pra morder vocês que sob a luz da lua, os tratam como gente – é claro! – a pontapés.)”, o também poeta Belchior nos remete tanto a farda do soldados que fuzilaram Lorca e se mancharam do sangue de sua roupa, quanto aos militares no Brasil que covardemente, torturavam nos porões da ditadura e “sob a luz da lua”.

Contrariamente ao poeta Lorca, que fora fuzilado de costas e de olhos vendados, Belchior olha “de frente a cara do presente”, no qual não encontra nada a comemorar (“Não há motivo para festa: ora esta! Eu não sei rir à toa!”), mesmo que a musica estivesse sendo concebida num momento, 1979, em que uma branda abertura era anunciada pelo Estado ditatorial em nosso País, logo depois da aprovação da Lei da Anistia. Provavelmente Belchior estivesse se referindo ao fato de que esta Lei assegurava salvo conduto para os torturadores e as autoridades envolvidas com a ditadura em geral.

Abaixo um link da música e a letra desta obra prima de Belchior "Conheço o meu lugar"


Conheço o meu Lugar

O que é que pode fazer o homem comum
neste presente instante senão sangrar?
Tentar inaugurar
a vida comovida,
inteiramente livre e triunfante?

O que é que eu posso fazer
com a minha juventude
quando a máxima saúde hoje
é pretender usar a voz?

O que é que eu posso fazer
um simples cantador das coisas do porão?
Deus fez os cães da rua pra morder vocês
que sob a luz da lua,
os tratam como gente - é claro! - a pontapés.)

Era uma vez um homem e seu tempo...
(Botas de sangue nas roupas de Lorca).
Olho de frente a cara do presente e sei
que vou ouvir a mesma história porca.

Não há motivo para festa: ora esta!
Eu não sei rir à toa!
Fique você com a mente positiva que eu
quero a voz ativa (ela é que é uma boa!)
pois sou uma pessoa.

Esta é minha canoa: eu nela embarco.
Eu sou pessoa!
(A palavra "pessoa" hoje não soa bem - pouco me importa!)

Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!

Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!

Você sabe bem:
Conheço o meu lugar! (4x)
Postar um comentário