12 de abril de 2014

LOBÃO NO "RODA VIVA"

Cires Pereira - Dezembro de 2013

Lobão exibe seu mais novo livro de cabeceira. Foto: "Coluna do Constantino"

Maquiavel escreveu há exatamente 500 anos, seu principal livro, "O Príncipe". Dentre as ideias lançadas, Maquiavel usou uma figura de linguagem para reiterar sua posição favorável a uma ordem social onde a autoridade de quem governa deveria se sobressair.

 “Tendo o príncipe necessidade de saber usar bem a natureza do animal, deve escolher a raposa e o leão, pois o leão não sabe se defender das armadilhas e a raposa não sabe se defender da força bruta dos lobos. Portanto é preciso ser raposa, para conhecer as armadilhas e leão, para aterrorizar os lobos”.

O cantor Lobão, recém acolhido pela Revista Veja para integrar o seu corpo de colunistas, esteve nesta semana no Programa "Roda Viva" da TV Cultura de São Paulo. O programa de entrevista é comandado por Augusto Nunes. Não me valerei da citação acima para sugerir que o governo precisa "reagir" portando-se com a sagacidade de uma raposa e a virilidade de um leão para aplacar a "ira de um lobo ou Lobão". Tal sugestão seria previsível e exequível se estivéssemos num país sob um regime politicamente arbitrário, como foi o governo conduzido pelos militares no Brasil entre 1964 e 1983. 



Poderia então o leitor atento questionar, porque citar Maquiavel?, Pode parecer algo intimidatório? Seria se Lobão não tivesse, numa elucubração tacanha, indultado o regime militar brasileiro. É de Lobão a seguinte exclamação "A Revolução (sic) de 64 safou o Brasil de algo bem pior", o pior neste caso seria os regimes stalinista e castrista na URSS e em Cuba, respectivamente  e o governo chavista na Venezuela.

Lobão sugeriu ainda que ex-presidente João Goulart preferiu fugir, por isso não se pode dizer que ele tenha sido deposto. Disse que se arrepende de ter votado em Lula para a presidência em 1989. Outro ponto importante de sua fala diz respeito à Presidente Dilma Rousseff, vista como um "neurônio solitário".

Segundo Lobão, “Dilma é completamente inapta, não sabe falar, não sabe fazer nada. É de uma estupidez galopante” (...) “nem tomar sorvete na testa ela vai conseguir, porque não vai conseguir mirar a própria testa.”

Na mesma noite após a entrevista, Rodrigo Constantino que também é colunista da Revista Veja, não se conteve e escreveu um artigo intitulado "Análises de um liberal sem medo da polêmica". Começou dizendo que  a entrevista foi "muito boa", o argumento amparador deste juízo sobre a entrevista de "seu colega de coluna" replico na íntegra:

"Até o rótulo de defensor de ditaduras ou torturas tentaram colar no músico, mas sem sucesso. Deixou claro que o foco era derrubar o mito de que aqueles comunistas lutavam por democracia, e que o golpe militar não veio do além, sem uma força que jogava o país na direção de um regime comunista para transformar o Brasil em um “Cubão”.

Rodrigo Constantino concluiu seu artigo, afirmando:

"Essa é uma das maiores virtudes de Lobão, entre tantas outras. É muito bom para os defensores do capitalismo liberal poder contar com um músico popular que recusa a patrulha da esquerda caviar e coloca os pingos nos is. Quem perdeu, tente ver a reprise."

Em outro texto (publicado neste blog) critiquei Lobão por ter aderido ao bloco dos colunistas da revista Veja. Entendia que a atitude de Lobão era contraditória em razão de um passado marcado pela criticidade em suas músicas e pela militância em defesa da sua categoria composta pelos músicos e cantores. Demonstrei no texto um misto de insatisfação e frustração, mesmo assim era preciso dar um tempo ao tempo, pois ainda restava-me um fio de esperança de que ele fosse usar o espaço na revista de forma crítica, honesta e consequente. Infelizmente Lobão tem mostrado todas as suas unhas afiadas, revelando um reacionarismo de dar inveja ao militante mais emperdenido do fascismo.

Lobão surpreendeu até na intensidade da grosseria usada contra a Presidenta do Brasil num claro afronta à vontade da maioria dos eleitores que, democraticamente, a acolheu para dirigir o governo até janeiro de 2015. 

Em segundos defendeu a pertinência da ordem arbitrária, por considerá-la um "mal menor" e acusou  ex-presidente João Goulart de ter sido, no mínimo, pusilânime. Lobão, devo intuir, provavelmente pensa o mesmo em relação ao Salvador Allende. Não seria mais surpresa para mim se Lobão concordasse com a tese do suicídio de Salvador Allende em 11 de setembro de 1973. 

Para Lobão, em suma, o Brasil encontra-se à deriva na medida em que falta ao nosso país um governo conduzido por alguém que, ao contrário de Dilma, tenha mais neurônios, que tenha aptidão para governar, que faça algo, que saiba falar.

Lobão está à procura de um governo competente, o restante parece ser prescindível. Pois muito bem, os militares sabem falar, fazem algo, são bastante aptos. 

O positivismo no século XIX "orientou" Pórfírio no México, Pedro II no Brasil, Avellaneda na Argentina, etc. Continuou orientando, mais recentemente, os regimes  militares com os seus "governos de reparação, de redenção e de segurança nacional", na América Latina no contexto da "guerra fria". Lobão acabou se  revelando, o seu desejo é tomar esta "turminha" como referência e, quem sabe, ostentar o estandarte da volta ao passado, do resgate das tradições, do apelo chauvinista. O neo integralismo parece ter encontrado o mascote ideal, um "lobo" e não um "porco" como mascote.
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