12 de abril de 2014

LITERATURA RUSSA DO SÉCULO XIX: PÚCHKIN, DOSTOIÉVSKI E TOLSTÓI

Cires Pereira 

Kushevsky Yury "Evgeny Onegin com Tatyana Larina"
A literatura russa é pouco conhecida pelos brasileiros e pouco difundida no Brasil. Hoje, mesmo com todos os recursos tecnológicos que dispomos, ainda desconfio que o interesse pela literatura russa continue baixo. Mas nem sempre foi assim, o processo revolucionário no Império Russo no início do século XX, cujo desdobramento foi a edificação do primeiro regime de caráter marxista da história, despertou o interesse em todo o “Ocidente” pela cultura deste “gigante”.

É notável a diversidade cultural no Império Russo, mesmo tendo sido um gigante governado de forma ditatorial e centralizadora pela Dinastia Romanov até a irrupção do processo revolucionário. Por “Império Russo” considerem o período caracterizado pela expansão e tutela de vários territórios por parte do Estado Russo. Esta expansão se intensificou no governo do Czar Pedro I (1.689-1725) também chamado de Pedro “O Grande” e estendendo-se até o governo do último Czar, Nicolau II (1894-1917). Além da Rússia, o Império era constituído pela Polônia, Ucrânia, Bielorrússia, Moldávia, Letônia, Estônia, Lituânia, Finlândia, Uzbequistão, Quirguistão, Turcomenistão, Tadjiquistão, etc. 

Congregava várias religiosidades, como o cristianismo ortodoxo, o cristianismo católico, o cristianismo protestante, o judaísmo, o islamismo, etc. Amparado e amparador da Igreja Cristã Ortodoxa, o regime não poupava recursos para perseguir as demais religiosidades, os movimentos autonomistas nas regiões russificadas e os movimentos sociais que, no final do século XIX, proliferavam em todo o Império contra o regime ou então por reformas que pudessem reduzir a miséria que acometia homens e mulheres. A população girava, no início do século XX, em torno de 130 milhões de habitantes, sendo que quase 100 milhões viviam na Rússia. 

Foi a partir do século XIX que o “Ocidente” passou a ter mais contato com a “literatura russa”, até então se encantava com a profundidade musical de compositores como Piotr Ilitch Tchaikovsky (1.840-1.893).

É impossível esquecer personagens encantadores e apaixonantes como Onegin, Tatyana, Raskólnikov e Anna Karenina. Fui busca-los nas páginas de três grandes nomes da “Era do Ouro” (século XIX) da literatura russa.

PÚCHKIN

PÚCHKIN
Aleksandr Púchkin nasceu em 1799 e faleceu em 1837, ao longo de sua vida muito breve escreveu grandes obras, como o poema "Ruslan e Ludmila" em 1820. Um poema que nos remete à Rússia Medieval. Foi com este seu primeiro trabalho que Púchkin ganhou notoriedade e respeito. Muito perseguido em razão de suas ideias liberais e “avançadas” para aquela época. Considerado como um dos precursores, no Império Russo, do Romantismo-realismo, seus maiores e mais significativos trabalhos foram: “Yevgeni Onegin”, “Boris Gudonov”, um drama histórico, “Poltav”, “A filha do Capitão” e a “Dama das Espadas”.

“Yevgeni Onegin”, a meu ver o mais importante e brilhante de seus trabalhos, este texto recentemente ganhou fama em razão de um espetáculo de dança concebido e apresentado, competentemente, pela Cia de Dança Deborah Colker intitulado “Tatyana”. Um texto arrebatador devido à profundidade e à complexidade de personagens como Onegin, Lensky e, principalmente, Tatyana. A intensidade da trama me induz a compará-lo com os grandes textos de Willian Shakespeare, o maior escritor do renascimento literário dos séculos XV e XVI.

DOSTOIÉVSKI

DOSTOIÉVSKI
Fiódor Dostoiévski nasceu em 1821 e faleceu em 1881. Suas obras mais célebres foram: “Crime e Castigo”, de 1866; “O Idiota” de 1869 e “Os Irmãos Karamazov” datada de 1881. O romance “Os Irmãos Karamazov”, ficou conhecido no Brasil por ter sido fonte de inspiração para uma Telenovela da extinta Rede Tupi em 1976/1977. 

A maioria de seus leitores considera “Crime e Castigo” como o seu mais importante romance, cuja narrativa, dirigida por Joseph Sargent foi transposta para o cinema em 1998. O texto narra a trajetória Rodion Românovitch Raskólnikov destacando a redenção obtida por meio da dor ou ressentimento deste personagem depois de ter cometido dois assassinatos e o seu intenso envolvimento com Sonya Semyonovna, filha mais velha de uma família pobre que foi obrigada a se prostituir para sustentar a família. Sonya personifica a inocência e a pureza ao estimular Rodion a se redimir contando para as autoridades o seu crime. Eles são claramente atraídos um pelo outro, provavelmente por conta das suas diferenças, Rodion em crise pelos crimes e descrente e Sonya apegada à fé cristã.



TOLSTÓI

Liev Tolstói e Máximo Gorki

Liev (León) Tolstói nasceu em 1828 e faleceu em 1910. Suas obras mais famosas foram “Guerra e Paz”, de 1869 e “Anna Karenina”, de 1877. Tornou-se, em 1847, senhor de vastas terras por herança , em razão disto era também chamado de Conde de Tolstói. Depois de ter participado da Guerra da Crimeia contra o Império Turco, viajou por vários países europeus, em seguida voltou pra Rússia administrar suas terras e dedicar-se à literatura. Em 1861 conheceu Joseph Proudhon, importante pensador progressista francês, tido como precursor do anarquismo. Perseguido pelas autoridades e excomungado pela Igreja, tornou-se um importante ativista social e político.

Em “Guerra e Paz” publicado em partes entre 1865 e 1869, o texto é dividido em quatro livros (quinze partes) e dois epílogos. Enquanto a primeira metade da obra restringe-se a personagens ficcionais, as partes finais consistem substancialmente de ensaios não ficcionais sobre a natureza da guerra, no caso a guerra entre Rússia e França de Napoleão Bonaparte no início do século XIX, o poder político e a História. A história percorre os corredores de São Petersburgo e e prisões moscovitas, palácios e campos de batalha . 

Do texto "Guerra e Paz" emana uma filosofia extremamente otimista que atravessa os horrores da guerra e a consciência dos erros da humanidade. Esta visão de mundo "romântica" constitue a principal mensagem da obra. É, sobretudo, uma crônica da vida de cinco famílias aristocráticas, tendo como pano de fundo a Revolução Francesa e o expansionismo bonapartista que tentou, sem êxito, submeter a Rússia.

Em “Ana Karenina”, Tolstói conta a trajetória de um amor difícil e controvertido vivido por Ana que, mesmo casada, vai atrás do seu amante Vronski, mas envolvida por uma intensa paixão proibida, resvala cada vez mais para um abismo de mentiras e destruição. Tolstói, neste romance enfatiza e discute o significado da vida e da justiça social tendo como pano de fundo as crises familiares e a crítica ao regime político czarista e à aristocracia russa e suas convenções.

Seus escritos filosóficos influenciaram os aparecimentos de comunidades alternativas e de uma corrente política denominada anarquismo-cristão, que teve adeptos na França, nos EUA, na Holanda e na Rússia. Suas ideias influenciaram importantes pacifistas do século XX como Mahatma Gandhi, lider da emancipação indiana depois da 2ª Guerra Mundial. Aos 82 anos, muito dividido entre a sua postura política e a riqueza material da sua família, e também devido aos constantes atritos com a esposa – que se opunha a desfazer-se de suas posses – Tolstói, acompanhado pelo seu médico e pela sua filha caçula, deixou sua casa no meio da noite. Muito enfermo, morreu três dias depois. No filme intitulado "A Última Estação", do diretor Michael Hoffman, esses momentos finais da vida do escritor são destacados sob a ótica de um jovem contratado para ser secretário de Tolstói.

PS: Reconheço que omiti outros grandes nomes da literatura russa como Gogol, Turgueiniev e Chekhov, certamente não faltarão oportunidades pra falar destes escritores também do século XIX e de outros igualmente grandes da literatura russa do século XX como Máximo Gorki, Vladimir Maiakovski e Boris Pasternak.
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