12 de abril de 2014

LA NEGRA, NUESTRA HERMANA

Cires Pereira





Mercedes Sosa ou "La Negra", como era carinhosamente chamada por um oceano de fãs, nasceu em São Miguel de Tucuman no noroeste da Argentina em julho de 1935. Aos 15 anos, sem o conhecimento e anuência de seu pai, começou sua carreira cantando em rádio, no circo e até em comícios feitos pelo PJ (Partido Justicialista) fundado pelo Presidente Juan Domingos Perón que governou a Argentina pela primeira vez entre 1946 e 1955. 






Em 1957, casou-se com o músico Oscar Matus, o casal estabeleceu-se por algum tempo em Mendoza, foi nesta época, mais precisamente em 1963 que Mercedes, Oscar Matus, Armando Tejada Gómez, Tito Francia e Juan Carlos Sedero fundaram o "Movimiento Del Nuevo Cancionero". Os propósitos principais do movimento eram resgatar as tradições folclóricas do conjunto das províncias argentinas sem perder de vista as novas tendências musicais externas e aprofundar o nível de consciência social, política e cultural dos setores populares.

Em seu segundo disco lançado em 1965, intitulado "Canciones con fundamento", Mercedes Sosa envereda por um caminho que, felizmente, é sem volta, colher a musicalidade do folclore latino-americano, lança-lo ao mundo e fazer disto mais uma "arma" para a unidade dos povos da região, juntando-se então ao esforço memorável feito por cantores e grupos espalhados por toda a América Latina, como Victor Jara, Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Ariel Ramirez, os grupos chilenos Inti-Illimani e Quilapayún, etc

Mesmo em meio à problemas afetivos, pois tinha acabado de se separar de Arturo Matus, La Negra não deixou de gravar, entre 1965 e 1967 foram três discos de grande repercussão tambem no mercado europeu.

Mesmo com projeção internacional seu trabalho era censurado na Argentina. O país novamente se encontrava sob regime ditatorial que foi conduzido pelos militares até 1973. No início da década de 1970 La Negra chegou a participar de algumas produções cinematográficas, o que ajudava a impulsionar seu trabalho como cantora. No ano de 1971 La Negra grava e lança um disco com composições da compositora chilena Violeta Parra, como "Volver a los 17" que havia se suicidado em 1967, este álbum reforçava mais ainda a marca de maior porta voz feminina da música latino-americana na época.

Em 1973 a ditadura militar argentina, acuada pelos protestos por democracia, permitiu que o Partido Justicialista voltasse a participar da vida política do país. Perón retornou do exílio na Espanha e assiste o seu partido vencer as eleições com a candidatura de Héctor Câmpora, alegislação eleitoral não havia permitido a candidatura de Perón. Câmpora, que havia prometido convocar outras eleições para o mesmo ano, convoca novas eleições para setembro para Perón se candidatar. O líder elegeu-se presidente com mais de 60 % dos votos. Porém faleceu alguns meses depois da posse e a presidência foi passada para Isabelita Perón (esposa e vice na chapa de Juan Perón). 

Dois anos foram suficientes para que os militares, amparados pela elite argentina e pelo governo dos EUA, pudessem retomar o governo aproveitando-se da crise econômica, da insatisfação de alguns setores das esquerdas e do próprio peronismo em relação ao governo de Isabelita. Assim entre 1973 e 1983 a Argentina se viu novamente refém de uma ditadura militar comandada pelos generais. La Negra que sempre militou nas hostes dos movimentos de esquerda novamente teve seu trabalho monitorado, reprimido e censurado pelos militares. Neste período Mercedes lançou alguns álbuns com destaque para "La mamancy" que reunia pesos-pesados da cultura latina como os chileno Víctor Jara e Pablo Neruda, o cubano Ignacio Villa e Milton Nascimento. Mercedes gravou "San Vicente" e Cio da Terra", ambas de Milton Nascimento. 

Durante um concerto em La Plata em 1979, um ano depois da morte de seu 2º marido, Mercedes Sosa, declarada opositora do regime de Jorge Videla, acabou sendo presa e permanecendo 18 horas na prisão. Libertada, decidiu deixar a Argentina, ficando na Europa até 1982, principalmente na Espanha. 

Voltou para Argentina em 1982, suas apresentações passaram a ter um forte componente de indignação contra a ditadura que já agonizava em razão dos protestos cada vez mais intensos e massificados. Por diversas vezes La Negra solidarizou-se com o movimento das Mães da Praça de Mayo que exigiam notícias dos paradeiros de seus filhos. O regime, muito desgastado também em razão do malogro militar contra os ingleses na disputa por "Malvinas", não teve outra opção senão convocar eleições presidenciais livres em 1983.

Já sob o governo de Raúl Alfonsín da UCR (União Cívica Radical) e com o reinício da democracia argentina, Mercedes volta a morar na Argentina e lança o álbum "¿Será posible el sur?". 

Foi então no dia 21 de dezembro de 1984 que Mercedes Sosa, León Gieco e Milton Nascimento se apresentaram no Luna Park para milhares de fãs, este show foi gravado e transformado num álbum intitulado "Corazón Americano" e lançado em 1985. Um dos maiores acontecimentos que a cultura latino americana pode proporcionar. Uma declaração de amor à América Latina, uma manifestação contundente de disposição em favor da nossa cultura, da liberdade e da integração dos latino-americanos.


É muito difícil apontar um momento do show Corazón Americano" de 1984 e/ou a faixa do álbum marcante, todo o show foi muito emocionante e muito significativo. Enquanto as mídias de ambos os países estimulavam, e continuam estimulando, a rivalidade entre brasileiros e argentinos num movimento patético e demente de mão-dupla, os presentes em Luna Park numa buena noche de Buenos Aires deram uma verdadeira lição nos chauvinistas e bairristas dos "dois lados". Cantaram em uníssono "Maria Maria" de Fernando Brant e Milton Nascimento assim que La Negra e León Gieco convidavam Milton para que pudessem cantar juntos no palco. Esta música na constava no programa mas o momento foi tão sublime que os produtores do disco mantiveram esta marcante homenagem de "nosotros hermanos". 

Depreendi naquele momento que também havia muitos do "lado de lá" que desejavam e desejam a integração como muitos do "lado de cá". Confesso que este foi um dos momentos mais emocionantes para mim, naquele ano milhões de brasileiros pressionávamos pela redemocratização do Estado Brasileiro e pela integração horizontal de todos os povos latino-americanos. Ouvia o disco que reunia músicas marcantes como:

"Cancion para Carito" de Antonio Tarragó e leon Gieco, "Volver a los 17" de Violeta Parra, "Cio da terra" de Milton e Chico, "Sueño con serpientes" do cubano Silvio Rodrigues, "San Vicente" de Milton e Fernando Brant, " Cuando tenga la tierra" de Toro e Petrocelli, "Solo le pido a Dios" de Gieco e "Corazon de estudiante" de Wagner Tiso e Milton.

Abaixo um vídeo com Gieco e La Negra cantando "Canción para carito" para a TV Cultura no Brasil, é magistral:


Particularmente adoro "Cancion para carito" cantada por Gieco, "Cuando tenga la tierra" com "Mercedes e Volver a los 17". 

Esta última sintetiza um desejo ou um sonho deste reles escriba: a unidade latino-americana, senão vejamos uma bela canção concebida por uma bela mulher chilena e interpretada por um belo dueto de duas belas nações que ficariam ainda mais belas integradas. Um belo dueto constituído pelo belo Milton e pela bela, belíssima LA NEGRA. 


Em 2000, Mercedes gravou "Misa Criolla", obra do folclore argentino, concebida por Ariel Ramírez. Este trabalho lhe rendeu o prêmio Grammy Latino de melhor interpretação. Mercedes faleceu em 2009 aos 74 anos e até hoje é reverenciada por todos os amantes da boa música latino-americana. 

Duas músicas argentinas são muito especiais pra mim, ambas ficaram imortalizadas com a interpretação de La Negra: "Luna tucumana" de Hector Chavero, mais conhecido como Atahualpa Yupanqui e "Alfonsina y el Mar" de Alfonsina Storni.

"LA NEGRA ES PARA MILLONES "LA VOZ DE AMÉRICA LATINA".
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