12 de abril de 2014

INSTITUTO ROYAL 3: ROYAL FECHA SUAS PORTAS EM SÃO ROQUE

CIRES PEREIRA - 06 DE NOVEMBRO DE 2013



O Instituto Royal anunciou nesta quarta o encerramento de seu funcionamento a partir de hoje, dezenove dias após a "invasão" que resultou na retirada de 178 cães da raça beagle e na destruição parcial de aparelhos e arquivos que comprometeram, segundo os diretores do instituto, 10 anos de pesquisas.
 Lamentavelmente o senso comum levou mais essa, a vitória da intolerância/ignorância sobre a razão. Reitero que minha posição não é de defender esta ou aquela empresa, mas devo reconhecer que uma empresa fechada significa prejuízos para os seus controladores, prejuízo para o erário público municipal que deixa de arrecadar tributos, prejuízos para os trabalhadores e seu familiares. Mas no caso desta empresa, perdem também a ciência, a medicina e perdemos nós.

A seguir fragmentos da nota publicada pelo Instituto:

"Em assembleia geral extraordinária realizada entre seus associados, o Instituto Royal, por meio de seu Conselho Diretor, vem a público informar a decisão de interromper definitivamente as atividades de pesquisa em animais, realizadas em seu laboratório de São Roque.

Tendo em vista as elevadas e irreparáveis perdas e os danos sofridos em decorrência da invasão realizada no último dia 18 - com a perda de quase todo o plantel de animais e de aproximadamente uma década de pesquisas -, bem como a persistente instabilidade e a crise de segurança que colocam em risco permanente a integridade física e moral de seus colaboradores, os associados concluíram que está irremediavelmente comprometida a atuação do Instituto Royal para dar continuidade à realização pesquisa científica e testes mediante utilização de animais.

Por este motivo, o Instituto decidiu encerrar suas atividades na unidade de São Roque".

Todos os testes desenvolvidos no Instituto Royal atendiam aos princípios de boas práticas de laboratório (BLP) e também às normas para cuidados dos animais do CONCEA, estando também regulamentadas por protocolos internacionais, tais como o da European Medicines Agency e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

O Instituto Royal acredita que as ações violentas ocorridas no dia 18 de outubro são resultado de dois fatores complementares: as inverdades disseminadas de forma irresponsável - e por vezes oportunista - associadas à falta de informação pré-existente. As consequências dos atos advindos dessa equação resultaram não somente em prejuízo para a instituição, que fecha suas portas, mas também e mais gravemente para a sociedade brasileira, que assiste à inutilização de importantes pesquisas em benefício da vida humana.

É inquestionável o direito de todo cidadão ou instituição expressar suas opiniões e propor à sociedade brasileira o debate sobre temas de interesse público. Não se pode anuir, contudo, com as atitudes de violência que cercaram os episódios envolvendo o Instituto Royal. Uma sociedade organizada e civilizada não pode aceitar que a pesquisa científica seja constrangida por grupos de opinião que preferem o uso da força e da violência em detrimento das vias institucionais e democráticas para travar debates.

Termina a nota, afirmando:

O ambiente de insegurança gerou - e continuará gerando - prejuízos para a ciência brasileira, na medida em que não assegura aos cientistas um ambiente institucional adequado para o desenvolvimento de pesquisas cujo objetivo, em última análise, é o de salvar vidas. A consequência deste cenário de hostilidade é o desestímulo à fixação e permanência das melhores mentes científicas em nosso País.

O prejuízo causado ao Instituto Royal não é mensurável. Mas é certo que o Brasil inteiro perde muito com este episódio, lamentavelmente."


A seguir uma carta assinada pelo Médico Veterinário, presidente do CFMV Benedito Fortes de Arruda (Conselho Federal de Medicina Veterinária), extraída do portal do CFMV.

Experimentos em Animais


A perspectiva do mundo é a sua evolução constante. Para que isso ocorra o conhecimento necessita ser aprofundado, melhor dizendo, a ciência precisa buscar novos caminhos, novas opções para o crescimento econômico, social e político da humanidade. Sem a ciência não existe tecnologia. Sem a tecnologia não há desenvolvimento. Sem o desenvolvimento a humanidade talvez não mais existisse ou estaríamos em processo de autodestruição.

Não fosse as pesquisas realizadas no mundo todo, o leite, mel, ovos, carne, frutos do mar e outras fontes de alimentos de origem animal estariam promovendo enfermidades e mortes em todo o planeta por deficiências, toxi-infecções alimentares e pelas antropozoonoses. A agricultura e suas técnicas não são as mesmas da Idade Média. A televisão não é mais em preto e branco. O computador modifica continuamente. Os meios de transporte são mais velozes, enfim, tudo se transforma graças à aplicação continua da ciência em beneficio da humanidade.

O recente e rumoroso caso dos cães da raça Beagle desencadeou discussões calorosas nos meios de comunicação e na pessoas. Ativistas acusam o Instituto Royal de ter submetido os cães a maus-tratos. Assertiva esta que não ficou provada em nenhuma circunstância, pois o Ministério Publico do Estado de São Paulo, a Vigilância Sanitária, e Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal (CONCEA), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, apresentaram pareceres contrários à denúncia.

Penso que os referidos órgãos públicos, por terem em seus assentos, inclusive, representantes das sociedades protetoras dos animais, não seriam coniventes com as supostas irregularidades apontadas pelos invasores. Fico perplexo sobretudo quando vejo pessoas esclarecidas aplaudirem as ações dos ativistas, que ao meu ver, depõem contra princípios de obediência à lei e à ordem. Já disse em outras oportunidades que o nosso mal é acatarmos toda e qualquer informação ou “deformação” como sendo verdadeira, sem refletirmos. Na nossa língua portuguesa isso tem nome: generalização apressada.

Não estamos procurando saber quem está certo ou errado. O bem-estar animal, em todos os aspectos, é uma tônica mundial de que todos estamos conscientes de sua real importância e necessidade. Quando o assunto é a utilização de animais para pesquisas, nossa atenção deve ser redobrada. Cientistas de diversas áreas se debruçam sobre o tema, apontando soluções e buscando alternativas. É unânime que se deve reduzir, refinar, substituir a utilização de animais nas pesquisas, pois há de ser incansável a busca pelo bem-estar animal. Não creio que grupos radicais sejam, efetivamente, defensores dos animais. Creio sim que sejam produtos de má formação, péssima informação e desvio de comportamento. Esse assalto ao Instituto Royal é mais um eco das manifestações que eclodiram nas ruas do nosso país este ano, desde junho. Querer que não se utilize animais para pesquisas é demonstração inequívoca de falta de maturidade intelectual e de conhecimento da realidade. Não fosse as pesquisas levadas a efeito em animais, provavelmente muitos de nós não estaríamos aqui.

A expectativa de vida no começo do século passado mal ultrapassava 40 anos e hoje quase que dobramos esta idade. Sem a experimentação animal, estaríamos fazendo cirurgias sem anestésicos, e morrendo de qualquer tipo de infecção. A heparina não existiria e as cirurgias ortopédicas já teriam dizimado milhares de pessoas. A penicilina e outros antibióticos não estariam salvando vidas, e os remédios para pressão alta continuariam sendo um sonho. O transplante do coração e outros órgãos não seriam possíveis. Os medicamentos para enxaquecas seriam o repouso longe do barulho. A incubadora para bebês prematuros seria uma hipótese. Os 120 mil diabéticos brasileiros, hoje insulinodependentes, teriam poucas chances de sobrevivência. O tratamento para o Mal de Parkinson no controle dos tremores estaria sendo tão somente imaginado e as células-tronco que já vem sendo estudadas há mais de uma década não estariam criando perspectivas para curar doenças.

O que desejam os ativistas? Que voltemos à Idade Média ou que os testes sejam feitos em humanos? Quais são os primeiros ativistas ou defensores que se habilitam?

Peter Singer, em 2006, durante um debate com Tipu Azis, um neurocirurgião da Universidade de Oxford, recebeu a seguinte pergunta: “Qual sua opinião sobre um experimento com 100 macacos sobre a doença de Parkinson, sabendo que este estudo já beneficiou mais de 40 mil pessoas que sofriam da doença?”. A resposta de Singer foi de que a pesquisa era “justificável”, se não houvesse outra maneira de chegar ao mesmo conhecimento e salvar vida. Consultado pela Revista Época, Singer assim se manifestou : “Tudo depende do bem maior”. E o bem maior que está escrito na nossa Carta Política é a defesa de nossa espécie, ou seja, o Direito à Vida. Sabemos quanto é nobre a defesa dos animais, mas existe uma nobreza maior, que é a defesa dos Direitos Humanos. Sejamos conscientes e responsáveis com as nossas e as futuras gerações.

Med.Vet. Benedito Fortes de Arruda
Presidente do CFMV

Tomei o cuidado de pesquisar outros sites que pudessem dizer algo sobre este ataque às pesquisas e à comunidade científica. Nada encontrei nos sites do CFM (Conselho Federal de Medicina), do CREMESP (Conselho Regional de Medicina de São Paulo). Imaginei que por terem se notabilizado na mobilização por melhorias no atendimento médico-hospitalar, em particular no empreendimento das manifestações contrárias ao programa "mais-médicos" fossem mobilizar suas "bases" contra esta situação, até agora nada.

Enquanto isso na Câmara dos Deputados em Brasilia...
Luisa Mell e o Presidente da Câmara Henrique Alves, postado no facebook

A atriz e apresentadora de TV Luisa Mell e que participou da invasão ao Instituto foi recebida ontem (terça feira) pelos deputados e aproveitou para fazer um apelo para que o Instituto Royal seja investigado, diz ela: "Temos que aproveitar esse momento histórico do nosso País para evitar que os animais sejam massacrados", durante audiência pública da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara para debater as denúncias de abusos de animais nos testes científicos realizados no laboratório do instituto em São Roque, no interior de São Paulo.

"A reunião foi ótima!", referindo-se à reunião que teve com o Presidente da Câmara, que aproveitou para pedir a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Instituto Royal. Aproveitou também pra visitar o seu partido, o PMDB, é possível que aproveitará o momento para se lançar candidata a deputada. Alguns dias antes da invasão ao Instituto, ela filiou-se ao PMDB.

Segundo Luisa Mell é um momento histórico que precisa ser aproveitado. 

Honestamente prefiro esquecê-lo. A ciência, a medicina e a sociedade civil acabam de levar um golpe do senso comum. A ciência e a medicina porque é mais uma batalha que perdem para os que se reivindicam "defensores da vida e dos maus tratos dos animais" e a sociedade civil porque assiste inerte e impotente o seu fórum de representação (Câmara dos Deputados) "acolher" para ouvir uma cidadã que foi flagrada em delito (Luisa Mell) e que nem sequer ainda foi indiciada, quanto mais punida.
Postar um comentário