INDICAÇÃO DE LEITURA: "A MANSÃO DO RIO" DE PAT CONROY

Cires Pereira -Dezembro 2013



O romancista americano Pat Conroy lançou no Brasil pela Editora Record um romance intitulado “A mansão do rio”. Muito conhecido do grande público, pois um de seus romances foi adaptado para o cinema e fez muito sucesso no mundo inteiro - “O príncipe das Marés”. Este filme foi protagonizado por Nick Nolte e Barbra Streisand e, como era de se esperar, ambos fizeram jus ao texto e à sua adaptação para o cinema.

A "Mansão do Rio" pareceu-me um texto melhor, não somente pela complexidade mas principalmente pelas personalidades fortes dos personagens principais, a saber: Léo King, Lindsay King, Starla, Niles e Sheba. O cenário é, principalmente, Charleston no Estado americano da Carolina do Sul. Pat Conroy retratou de forma competente e sensível a cidade de Charleston provocando nos leitores uma vontade ainda maior em conhecê-la.

O livro aborda as relações dos adolescentes de Charleston no final dos anos 1960, e tem como pano de fundo o avanço dos movimentos jovens pela paz, por liberdade e pela afirmação da contracultura nos EUA. 

O debate sobre discriminação racial está presente no texto num contexto em que as comunidades afrodescendentes americanas começam a colher os primeiros frutos da nova legislação que passou a tratá-las em pé de igualdade perante a lei e perante o Estado. As leis aprovadas em 1964 e 1965 foram resultantes das pressões crescentes destas comunidades contra a discriminação e o segregacionismo ainda muito impregnado na sociedade americana.


A história de Léo King
 
O adolescente Léo King, havia sido condenado a prestar serviços à comunidade por uma acusação injusta. Nestas obrigações conhece muitas pessoas que passam a admirá-lo. Sua mãe Lindsay quem também é diretora da escola onde estuda o incumbe de ajudar um grupo de adolescentes de origens diversas, é o início de amizades que marcarão toda a trajetória de Léo.

Léo se torna amigos de algumas pessoas, como Starla e Niles Whitehead, os irmãos recém-chegados no orfanato local que tiveram uma infância marcada por traumas e tragédias familiares; os irmãos gêmeos Sheba e Trevor Poe, cujas condutas são incomuns e despertam todo tipo de preconceito; Molly Huger, Chad e Fraser Rutledge pertencentes aos extratos mais abastados e conservadores de Charlestones e Ike, afrodescendente e filho do treinador da escola.

Uma narrativa envolvendo vinte anos enfatizando as mudanças nos personagens a partir das situações que constituem as mudanças gerais na sociedade, na cultura e na política dos EUA. Uma narrativa consistente do início ao fim e muito carregada de emoções, marca registrada dos textos de Conroy. 

Muito bom se pudesse lê-lo  antes que "A mansão do rio" ganhe uma versão para o cinema e, como sabemos, muitos declinam da leitura pela comodidade da telona. Um texto lido é muito melhor do que uma adaptação deste texto para a linguagem cinematográfica. O ideal é ler o texto e depois acompanhar o olhar do cinema sobre aquele texto. 

Preocupa-me muito as impressões míopes sobre outras sociedades, geralmente difundidas pelas mídias de massas, construídas de forma superficial, simplista e preconceituosa. No Brasil também somos vítimas desta verdadeira agressão à inteligência. O "livro" seguramente é uma das principais armas no combate ao preconceito, à falsificação, à simplificação e à generalização. O "livro" é um dos melhores instrumentos para aprendermos o significado de muitas palavras e a melhor forma de sermos provocados para escrever. Os grandes escritores tornaram-se grandes porque também eram grandes leitores.

A leitura deste livro nos incita a conhecer um pouco mais sobre os EUA e os estadunidenses. Lamentavelmente deparamos diariamente com um antiamericanismo cultivado por uma grande parte da sociedade brasileira. Um sentimento que se compara, com igual nível de lamentação, ao ufanismo/americanismo e puritanismo/conservadorismo de uma parcela expressiva da sociedade estadunidense. Não quero, pelo menos aqui, abordar o mérito desta questão, o farei em outros momentos. Aos leitores devo reafirmar que o preconceito se retroalimenta da ignorância. A leitura, o conhecimento e a dúvida são fundamentais para mitigar o preconceito, no mínimo.

Boa leitura.
0