IMPRESSÕES SOBRE A MONTAGEM "2ª GUERRA MUNDIAL" DE PAULO ALEXANDRE FILHO

ProfºCires Canisio Pereira (Uberlândia - MG) e Profª Maria Solange Marteleto (São Joaquim da Barra – SP)

Bomba sobre o Japão Agosto de 1945
O Professor Paulo Alexandre Filho, autor e divulgador de uma montagem sobre a Segunda Guerra Mundial, parte da premissa que grande parte dos alunos do ensino fundamental e do ensino médio tem dificuldades em compreender um tema tão complexo e “distante”, como a Segunda Guerra Mundial.  Para enfrentar esta dificuldade, o professor propõe o uso de uma linguagem que facilite o entendimento deste “público” como é o caso da linguagem usada nas redes sociais (“facebook”, Twiter, Youtube e outras), portanto uma linguagem predominantemente coloquial recheada por imagens.  

O Professor Paulo admite que tem feito uso desta estratégia de forma recorrente e que tem dado certo, segundo ele ajuda a compreender o tema e “facilita a interação com os alunos”. Uma destas montagens feitas pelo Professor Paulo encontra-se neste link: 


Queremos crer que o material é um complemento da apresentação feita ao longo das aulas, pois não se compreende um evento histórico simplesmente reportando como ocorreu. Pude depreender que a montagem feita refere-se apenas ao processo da Segunda Guerra Mundial entre setembro de 1939 e setembro de 1945. 

Pouco foi dito sobre os desdobramentos deste conflito, mesmo que em linhas gerais, exatamente para comprovar a natureza ou significado do evento histórico em destaque. Nada foi dito sobre os antecedentes do conflito, deste modo parece-me difícil, pra não dizer impossível, comprovarmos as motivações do evento e suas ligações com outros fatos tão ou mais relevantes do que a Segunda Guerra Mundial, como o colapso do liberalismo econômico no curso da retração econômica agravada entre 1929 e 1933. A sensação que ficou é de que se trata de um evento especial sem passado e sem futuro, logo o propósito do professor muito dificilmente seria alcançado, a compreensão de um evento pretérito pelos contemporâneos do professor, neste caso seus alunos, em particular e os internautas, em geral. 

A montagem sobre a Segunda Guerra é  “recheada” de escárnio frente aos eventos reportados, uma velha e surrada estratégia para prender a atenção do público. Cumpre muito bem um propósito, “prender a atenção até o fim”, como é típico de um filme de comédia que assistimos para “passar o tempo”, e só. Vemos com ceticismo a possibilidade de compreender um evento da História, valendo-se apenas da narração dos acontecimentos que compuseram o evento.

Somos refratários ao uso da linguagem coloquial no espaço acadêmico e nos recursos didáticos de uma forma geral, penso o seu uso reforça a “teoria do menor esforço” e mais refratário ainda ao uso de termos e ofensas, muitas reconhecidamente gratuitas, que estimulam não esclarecimento, mas a permanência do preconceito e a prevalência do mal entendido. 

Como estimular nossos alunos à leitura se corroboramos com os discursos coloquiais e carregados de palavras que deveriam continuar estranhas e impróprias no ambiente acadêmico? Termos que trazem sutilmente ou escancaradamente preconceitos, agressões, simplificações e generalizações. 

A relação ensino-aprendizagem deve acontecer tendo como base o respeito recíproco entre professor e aluno. Como invocaremos este respeito senão o adotamos no diálogo com nossas fontes contemporâneas e espacialmente distantes e pretéritas?

No nosso entendimento a História é uma ciência que analisa os dados colhidos para a construção de uma reflexão amparadora de um juízo, para que este juízo forme opiniões é preciso que as análises não percam de vista os aspectos constituintes de uma formação social no tempo e no espaço, a saber: social, econômico, filosófico, religioso, político e cultural.

Por fim destacamos a percepção do professor em relação ao tema abordado. O sequenciamento dos eventos reforça uma impressão, no nosso entendimento equivocada,  uma Guerra como obra apenas dos homens que estiveram à frente dos governos, das diplomacias e das forças armadas. As multidões de militares e civis espalhadas pelo mundo foram ignoradas, pois suas participações  ficaram reduzidas à mera coadjuvância. 
  
Mães assistem impotentes o embarque de suas crianças na Inglaterra
A narração de um evento sob apenas uma ótica é, de fato, uma verdade. Não parece ser possível a compreensão da História, tendo em vista o propósito imperativo do julgamento, valendo-se apenas de uma perspectiva ou de um só olhar. Também não foram considerados os eventos surpresas que poderiam ter alterado e os que alteraram o desfecho da Segunda Guerra. Pouca atenção ou nenhuma foi dada aos equipamentos usados e às estratégias de guerra. Pouco foi dito em relação às “armas” usadas que transcendiam a disputa meramente militar tais como: a propaganda, os embargos de ordem econômica, os blefes, os “serviços de inteligências”, as múltiplas resistências ao “Eixo”. 

Lembramos que a sensibilização é um dos passos iniciais para a compreensão da história , contudo o cotidiano dos civis e militares durante a guerra simplesmente foi ignorado na montagem, ora como vamos sensibilizar nossos alunos diante de um evento ou fato que não parece ter significação? 

Ao relatar a Segunda Guerra o autor não evidenciou suas implicações para as mudanças no mundo em todas as instâncias, nada foi apresentado em termos de implicações desta guerra para os dias atuais. Uma relação implicação importante tem sido o crescente grau de influência das forças armadas, da indústria bélica, dos bancos privados sobre os governos nas tomadas de decisões. Temos convicção que o Presidente dos EUA não apenas precisa da anuência do poder legislativo dos EUA para uma invasão no Afeganistão, mas também dos empresários dos setores citados. Parece-nos que o estudante e o internauta, diante deste trabalho, só verão uma "guerra" de vingança e homens se divertindo.

"Sobre a mãe sem vida"
A síntese apresentada pareceu-nos parcial e incompleta sobre um evento histórico relevante, valendo-se de um discurso que cativa os leitores e estudantes em geral, mas que não acrescenta ao leitor atento e ao estudante que tem procurado algo mais do que os manuais didáticos sugerem e que talvez esteja nas entrelinhas do dito. Muitas respostas às indagações que levantamos quando nos dispomos a estudar um tema são encontradas no “não dito” e nas entrelinhas. Pensamos que com este “recurso didático” este nobre propósito fica secundarizado ou até ignorado. 
As Histórias das sociedades dos lados de cá e dos lados de lá e do passado mais remoto ao presente mais perceptível podem cativar podem ensinar e podem instruir. Aborde, investigue, aprofunde, compare, aprenda, compreenda estas Histórias e transforme-as em referências para as condutas presente e futura, não se curve e igualmente não se agigante diante dela, simplesmente enfrente-a com cuidado e com respeito.

Reproduzimos a seguir, alguns fragmentos desta montagem sobre a Segunda Guerra Mundial concebida pelo Professor Paulo Alexandre Filho.
  
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