19 de abril de 2014

IMPACTOS SÓCIO-ECONÔMICOS DA ATUAL CRISE NA ARÁBIA SAUDITA

Cires Pereira 

Bandeira do Reino da Arábia saudita: Inscrição: "Não há Deus  senão Alá , e Maomé  é o seu mensageiro"

O Reino da Arábia Saudita possui a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, abriga 30 milhões de pessoas que vivem espalhadas pelos quase 2,2 milhões de Km², dos quais 92 % professam o islamismo. A estimativa para o PIB (Produto Interno Bruto) em 2013 gira em torno de 800 bilhões de dólares e uma renda per capita superior a 26 mil dólares.

O REGIME SAUDITA

O regime monárquico é absolutista,  o rei concentra os poderes em suas mãos. Sua autoridade, devidamente amparada pelos clérigos vinculados ao islamismo se sobrepõe à razão dos indivíduos ou súditos. As liberdades individuais e coletivas  não são asseguradas. 
Rei  saudita Abdallah e o Presidente dos EUA Obama

O governo não reconhece legalmente a liberdade religiosa, tampouco protege grupos que se reúnam em torno outras religiosidades. A prática pública de religiões não muçulmanas é proibida. A lei exige que todos os cidadãos sejam muçulmanos. De acordo com a "Sharia" (lei islâmica), deixar de ser um muçulmano configura uma apostasia e pode levar o "infrator" à morte é considerada um crime, caso não queira se retratar.. Os estrangeiros podem cultuar suas religiosidades, desde que em particular sem darem publicidade ao culto. O Rei Abdallah e seus antecessores sempre foram importantes aliados dos EUA numa região marcada por divergências quanto à aproximação ou não com o ocidente, o alinhamento ou não com a política estadunidense.

A ECONOMIA SAUDITA

O petróleo, cujas reservas beira os 290 bilhões de barris (as reservas brasileiras giram em torno de 10 % deste montante), é a maior fonte de riquezas do País, o turismo é outra importante fonte de riquezas, pois é na Arábia Saudita que se encontram as cidades de Medina e Meca, consideradas sagradas pelos muçulmanos, são visitadas por muçulmanos do mundo inteiro. As atividades agrárias tem sido muito estimuladas por conta do sistema de irrigação. O país tem aumentado os esforços nas áreas de geração de energia, telecomunicações, exploração de gás natural e petroquímica. Quase 6 milhões de trabalhadores estrangeiros desempenham um papel importante na economia do país, especialmente nos setores de petróleo e de serviços. Por tudo isso Arábia Saudita tem sido um dos locais preferidos por trabalhadores de outros países que por motivos alheios às suas vontades precisam migrar, são os casos de imigrantes africanos, indianos e da própria península arábica.

Hajj - peregrinação dos muçulmanos à Meca onde se encontra a "Kaaba"

A CRISE MUNDIAL AFETA ARÁBIA  SAUDITA.

A crise econômica iniciada nos EUA no 2º semestre de 2007 reverberou por todos os cantos do mundo, a Arábia Saudita também foi atingida. Os lucros provenientes do petróleo (10,5 milhões de barris de petróleo extraídos por dia) recuaram, assim os investimentos diminuíram provocando um aumento do desemprego. Neste ano (2013) o governo estima que 12,5 % da população estejam desempregados, este quadro explica as crescentes pressões dos trabalhadores sauditas por postos de trabalhos que até então tem sido ocupado pelos imigrantes, gerando então tensões sociais.

Para amenizar esta situação, o governo decidiu expulsar todos os imigrantes que não regularizarem sua situação em um prazo de três meses que, expirado em 01 de julho, foi prorrogado por mais quatro meses. Até o dia 01 de novembro quase um milhão imigrantes deixou o país. O governo informou que entre abril e novembro de 2013 informou 4 milhões de imigrantes, num montante de 8 milhões, conseguiram regularizar sua situação. O governo também reiterou que imigrantes flagrados em situação irregular poderão ser preso por dois anos além de terem que pagar uma multa de 27 mil dólares aproximadamente. Milhares de imigrantes nesta situação ainda não deixaram o país, muitos por não terem pra onde ir.

O prazo dado pelo governo expirou no dia 1º de novembro, os choques entre policiais e grupos de imigrantes tem sido recorrentes. Visando diminuir a tensão o governo anunciou que aceitará os registros entregues depois do prazo, por outro lado muitos imigrantes não tem como reunir esta documentação, muitos são refugiados de conflitos em seus países, um caso emblemático são os imigrantes etíopes.

Os imigrantes, especialmente os ilegais e clandestinos, até então ocupavam postos de trabalho que eram preteridos pelos trabalhadores sauditas. A situação na Arábia Saudita é bastante confusa, pois estas medidas contra os imigrantes clandestinos liberam postos aos sauditas, acontecem que os sauditas a princípio não estariam dispostos a trabalharem na coleta de lixo, na construção de estradas e em serviços domésticos.

As restrições aos imigrantes e o combate aos imigrantes clandestinos na Arábia Saudita repercutem repercutem principalmente no Iêmen e na Etiópia

 


1- Repercussão no Iêmen

O Iêmen é o país mais pobre da região além de apresentar os maiores contrastes sociais, quase metade da população sobrevive com até 60 dólares por mês e um terço tem fome crônica. Muitos iemenitas migraram para a Arábia saudita em busca de emprego e sobrevivência, sujeitando-se a quaisquer condições e salários, diante da situação criada pelo governo saudita, muitos imigrantes retornaram para o Iêmen, mesmo assim estima-se que 400 mil iemenitas clandestinos ainda estejam na Arábia Saudita.

Iemenitas exigem a renúncia de Ali Adullah Saleh
Após 32 anos exercendo de forma autoritária o poder o presidente Ali Abdullah Saleh  foi obrigado a deixar o governo no final de 2011, comprometendo-se a não disputar as eleições de 2012, obtendo em troca anistia para ele e sua família. Este foi o principal desdobramento dos protestos que se avolumaram no país inscritos no contexto da "primavera árabe" que tem "sacudido" os regimes autoritários na região e norte da África desde 2010. 

Os iemenitas, desde início de 2012, tem tentado com muitas dificuldades a estabilidade, o governo do presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi tem tido dificuldades diante dos choques armados entre  tribos rivais no norte e da ação de grupos terroristas como a Al-Qaeda. 

2 - Repercussão na Etiópia

Etíopes deixam Riad

Etiópia é um país localizado no extremo nordeste do continente africano, no chamado "chifre da África" conta com a segunda maior população do continente africano. Seus mais de 91 milhões de habitantes vivem numa área de pouco mais de 1,1 milhão de Km², com um PIB estimado em 105 bilhões de dólares e uma renda per capita de pouco mais 1.100 dólares, um dos menores do planeta e 25 vezes menores do que na Arábia Saudita. Cerca de 80 % da população vive da agricultura que responde por 90 % do PIB. São recorrentes os relatórios que indicam a grande maioria vivendo abaixo da condição mínima de sobrevivência castigada por conflitos regionais e por disputas internas.

Somente em 2012, cerca de 200 mil etíopes foram para o exterior trabalhar, sobretudo para o Oriente Médio, segundo dados do ministério do Trabalho e Assuntos Sociais. No exterior, vivendo na clandestinidade e em situação análoga à escravidão, sofrem com abusos físicos e psicológicos, duras condições de trabalho, discriminação e salários baixos, uma situação reconhecida pela OIT - Organização Internacional do Trabalho, vinculada à ONU.


O governo etíope estima que conseguirá até o final deste ano repatriar cerca de 80 mil etíopes que vivem na Arábia Saudita sem registros, um programa que deve onerar o governo em 2,5 milhões de dólares (muito considerando o orçamento deste que é um dos países mais pobres do mundo). Além destes 80 mil estima-se que ainda trabalham e vivem, sem a documentação exigida, 200 mil etíopes na Arábia Saudita.
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