GENOCÍDIO EM RUANDA: 800 MIL MORTOS EM CEM DIAS

Cires Pereira 

Cartaz do filme Hotel Ruanda 
Quando assistimos ao filme "Hotel Ruanda", uma produção multinacional dirigida por Terry George, ficamos horrorizados com tanta brutalidade e uma suspeita se impõe. 

Explico, o filme parece ter exagerado na dose de tantas privações e mortes, a princípio tais exageros nos levam a suspeitar que seus produtores estivessem querendo fazer fortuna amplificando em intensidade e em quantidade o que de fato aconteceu naquele hotel.
Mas neste caso, lamento dizer, o filme foi fidedigno aos tristes acontecimentos situados entre abril e maio de 1994 num pequeno país chamado Ruanda.

Hotel Ruanda é um filme que se baseia na história de Paul Rusesabagia, gerente de um hotel de uma empresa belga na capital Kigali. Paul, que é hutu, permitiu que 1.200 tutsis ficassem no Hotel Ruanda, local em que trabalhava.

Paul Rusesabagia fazia todos os esforços possíveis para proteger os tutsis abrigados no hotel. Com a ausência de tropas internacionais, os tutsis tinham apenas o hotel para se refugiarem, local protegido através de pagamento de suborno para a polícia, realizado por Paul Rusesabagia.Trata-se de um bom filme, pois sintetiza o drama e o desespero de um povo desprotegido e impotente diante da perversidade dos radicais armados.

Ruanda é um pequeno e montanhoso país localizado na região Centro-Oeste do continente africano tendo como nações vizinhas Uganda, ao norte, Tanzânia a leste, Burundi, ao sul e a República Democrática do Congo, a oeste. Sua capital é a cidade de Kigali. Seus 10,7 milhões de habitantes encontram-se espalhados numa área um pouco maior do que 26 mil km², área menor do que Alagoas, um dos menores Estados do Brasil.

Mapa de Ruanda 

CRONOLOGIA

Os colonizadores belgas, sucessores dos alemães que tiveram de ceder a região ao assinar o Tratado de Versailles em 1919, contando com a devida parcimônia da comunidade internacional, privilegiaram a elite tutsi na distribuição de cargos de comando em detrimento da maioria constituída pelos hutus, despertando rivalidades entre ambas as etnias.

Em 1959, sob circunstâncias misteriosas, o rei tutsi Mutara III acabou falecendo após tomar uma vacina. Seu sucessor, tambem tutsi, o Rei Kigeli V foi destronado em 1961, em seguida exilou-se na vizinha Tanzânia. Dominique Mbonyumutwa, líder hutu, assumiu o poder. 

No ano seguinte a independência frente aos belgas se consumou. Os belgas deixarem o país, após a independência e a tomada do poder pela maioria hutu até então oprimida. Os belgas não tiveram nenhuma preocupação em reparar o estrago criminoso que tinham feito, um pais divido e a beira de uma guerra civil.

Em agosto de 1973 o General Juvénal Habyarimana, mesmo sendo da mesma etnia, destituiu Grégoire Kayibanda, dissolveu a Assembleia Nacional e aboliu todas as atividades políticas, mantendo-se a frente do governo até abril de 1994.

Em 1990 o grupo rebelde, composto principalmente por refugiados tutsis e por hutus moderados e denominadoFrente Patriótica Ruandesa (RPF), invadiu o norte de Ruanda a partir de Uganda com o objetivo de destituir o governo conduzido pelo General Juvénal Habyarimana, amparado pelos hutus.

Os rebeldes tutsis tiveram o auxílio do governo de Uganda enquanto os governistas tiveram os auxílios da França e dos países de língua francesa na região. Diante as ofensivas dos tutsis, organizados na RPF contra o governo, Habyarimana reagia com programas genocidas contra os tutsis.

Em 1993 foi assinado um cessar-fogo entre o governo e a RPF, os Acordos de Arusha (Tanzânia). Em outubro do mesmo ano o Conselho de Segurança das Nações Unidas estabeleceu em Ruanda a Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda (UNAMIR). A missão da UNAMIR era assistir e supervisionar a implementação dos Acordos de Arusha, com um contingente de 2.500 "boinas azuis". O governo hutu do Presidente Habyarimana era acusado de propagar o ódio aos tutsis e de defender a tese do "hutu power", prova disto foi a formação de uma milícia não oficial chamada interahamwe, que significa “aqueles que atacam juntos” pra ajudar o governo. 


Abril de 1994: Os presidentes de Ruanda e do Burundi morrem após queda de aeronave 

Em 6 de abril de 1994, após o assassinato do presidente Habyarimana, em atentado ao avião em que viajava, (o Presidente do Burundi que estava a bordo também morreu) a Frente Patriótica Ruandesa intensificou a ofensiva. Nenhum dos grupos rivais reivindicou a autoria do atentado.

Romeo Dallaire, da UNAMIR, selecionou dez soldados boinas azuis, todos belgas, para protegerem a primeira-ministra que por 14 horas foi também chefe de Estado, Agathe Uwilingiyimana. Os soldados foram detidos pelos milicianos hutus da interahamwe. A primeira-ministra e seu marido foram mortos; mais tarde, no mesmo dia, os corpos dos belgas foram encontrados sem vida.

Boinas Azuis em Ruanda 

As tropas da ONU, basicamente constituídas por belgas e franceses, cientes da iminência de um massacre, passaram retirar os estrangeiros brancos de Ruanda, ignorando claramente os ruandenses. Romeo Dallaire, chefe da missão da ONU em Ruanda, chegou a fazer um apelo para que fossem enviados dois mil soldados da UNAMIR. Com um efetivo de aproximadamente 4 mil soldados bem equipados, ele acreditava que poderia parar com as mortes.

Mas o Conselho de Segurança da ONU não deferiu o pedido, uma vez que o presidente americano Bill Clinton, ainda assustado com a morte de soldados americanos mortos na Somália, em 1993, se negou a colaborar. A situação se deteriorou quando o mesmo Conselho decidiu pela redução do efetivo da UNAMIR em 90 %, passando para 260 soldados em Ruanda. Antes da matança começar quase todos os "boinas azuis" da ONU haviam deixado o país, sob a alegação de "falta de segurança". 


O GENOCÍDIO

Ao longo de 100 dias entre os meses de abril e julho de 1994, os confrontos entre os governistas e os tutsis custaram as vidas de 800.000. O conflito entre governistas e os interahamwe de um lado, e a FPR (Frente Patriótica Ruadesa), do outro, foi vencido pela FPR, derrotados os combatentes interahamwe evadiram para o Congo. A FPR passa a organizar um governo conciliatório sob o comando de Paul Kagane.


Vítimas do Genocídio 

Para compreendermos a extensão do genocídio, 13 % da população (90 % de tutsis) morreram, estima-se que 80 % das famílias perderam parte de seus membros, portanto praticamente todo a nação foi vitimada. Somente depois do massacre, a ONU, no mínimo constrangida, determinou a volta da UNAMIR à Ruanda, permanecendo até março de 1996. 

Foi instalado o Tribunal Criminal Internacional para a Ruanda (TCIR), na Tanzânia. O TCIR julgou e condenou pela prática de genocídio Jean-Paul Akayesu, responsável pela morte de milhares de tutsis na cidade de Taba sob seu governo em 1994. Apesar desta e de muitas outras condenações, o Tribunal tem sido alvo de questionamentos por parte dos governos de Ruanda e de outros países por conta de seus altos custos e morosidade, causando assim a sensação de impunidade.


A GUERRA NO CONGO: 1997...

A partir de 1997, os governos de Uganda, Ruanda e do Burundi resolveram apoiar os opositores armados do novo governo instalado no Zaire, agora República Democrática do Congo, comandado por Laurent-Désiré Kabila, antigo parceiro do líder independentista e socialista Patrice Lumumba. Kabila liderou a luta vitoriosa contra Mobutu Sese Seko, o ditador que liderou o Zaire por 32 anos. 

Do Lado do Governo Kabila posicionaram-se os governos de Angola e de Zâmbia. Um acordo foi firmado em 1998, atenuando os conflitos na República Democrática do Congo. As tropas estrangeiras se retiraram oficialmente no início de 2000, dando lugar aos capacetes azuis da ONU. Contudo em 2001 em razão do assassinato do presidente Kabila, seu filho Joseph Kabila assumiu. Os conflitos continuaram, até hoje os vizinhos são acusados de ajudar grupos rebeldes no Congo como o M 23, que em dezembro de 2001 tomou de assalto Goma, a principal cidade do leste do Congo e centro das operações da ONU.

Segundo a Enough, "O M 23 assumiu parte do lucrativo comércio de ouro, contrabandeado através de Uganda e Burundi e vendido para os Emirados Árabes Unidos, antes de ir para os bancos e joalherias que compõem 80% da demanda global de ouro". Estas informações fazem parte de um relatório emitido pela Enough, uma ONG que trabalha pelo fim dos conflitos na África subssaariana.

Em meio às suspeitas de que o Presidente de Ruanda Paul Kagane estimula e treina crianças para atuarem na guerra civil do Congo em apoio ao MR 23, os EUA anunciaram, agora em 2013, sanções contra o governo Paul Kagane. 


RUANDA HOJE

O governo atual, da minoria tutsi, insiste em uma política de “unidade e reconciliação”, e tem alcançado avanços importantes, dentre eles a implementação de uma forma de justiça baseada na cultura local, inspirada nas tradições daqueles povos, a Gacaca, agora restabelecida para lidar com as centenas de milhares de acusados de cometerem crimes durante aquele período de sua história. O governo também deu mais poder às mulheres por meio de reformas legais e ao promover sua participação no governo e inserção no crescimento econômico e na estabilidade política.


Refugiados ruandenses 

Mesmo que uma nova constituição tenha sido promulgada, o poder continua nas mãos de ex-líderes da FPR. A liberdade de expressão é limitada. As primeiras eleições depois do genocídio ocorreram em 2003, o ex-general e homem forte da FPR desde 2000, Paul Kagame elegeu-se para um mandato de sete anos, sendo reeleito em 2009.

Em junho de 2006, a organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW), e a Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH) pediram que o TCIR também julgasse os crimes de guerra e crimes contra a humanidade supostamente cometidos pela Frente Patriótica Ruandêsa, mesmo após o genocídio. Obviamente que o atual governo de Paul Kagane, da FPR, rechaçou prontamente esta proposta.


Presidente Paul Kagane da FPR 

Em 2013 o Parlamento Ruandês passou a contar com 64 % de participação feminina, era até então constituído por 50 % de mulheres. Nas últimas eleições os partidários do atual presidente e líder da FPR Paul Kagane conquistaram 76, 22% dos votos, assim controlam o Parlamento. 

É por tudo isto que o mundo não pode mais continuar refém de extremistas que, covardemente, espalham o terror pelo mundo eliminando indefesos e inocentes de todas as idades. Mas o extremismo só será contido se o mundo passar a ser regido por uma legislação que de fato imponha limites a todos e por uma ONU que precisa ser reestruturada. Não é mais suportável dependermos de um Conselho de Segurança cujos 5 membros fundadores (EUA, Rússia, China, Inglaterra e França) tendo direito de vetarem resoluções, legislando em causa própria e em detrimento das demandas legítimas por paz e segurança suplicadas pelos povos dos 4 cantos do mundo.
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