12 de abril de 2014

FÉ E RAZÃO- PARTE II

Cires Pereira – Outubro de 2014


Imprensa de Johannes Gutenberg - 1439
Nesta segunda parte procurarei explicitar as proposições e os argumentos mais significativos de movimentos e autores que, desejosos de uma providencial autonomia frente aos dogmas da fé, nos apontam e nos brindam com “outras verdades”, independentes de colidirem ou reafirmarem as “revelações da fé. Tratarei do Humanismo, do Racionalismo de Descartes, do Empirismo de Locke e Hume e, por fim da epistemologia de Immanuel Kant.

Em primeiro lugar devo reconhecer que a transmissão do conhecimento é tão importante quanto sua concepção, mais ainda quando se leva em conta o lugar e o período em questão. A Europa Ocidental na passagem do período medieval para o período moderno, portanto ao longo dos séculos XIV, XV e XVI.

O florescimento das cidades europeias, a ampliação das redes de instrução (escolas e institutos) e a multiplicação dos escritos em razão da invenção da Imprensa em 1.455 por Johannes Gutenberg em Mainz na Alemanha. Quanto maior for o número de pessoas instruídas, maior será a “massa crítica”, o debate se intensifica, as ciências ganham e a sociedade progride em todos os sentidos.


O Humanismo

O humanismo constituiu-se num movimento intelectual que se apropriou do conhecimento construído pelos filósofos e intelectuais orientais e clássicos e, tomando também como referência a realidade marcadamente mudancista, para apresentar uma nova concepção sobre a natureza, sobre o ser humano e sobre Deus.

Os humanistas não podem ser considerados anticlericais ou ateus, muito pelo contrário, eles pretendiam reforçar a crença e a fé por meio da compreensão e não da mitificação muito em voga. A investigação humana seria privilegiada, o homem racionalizaria através dos seus pensamentos a investigação dos diversos fenômenos naturais, sociais, culturais e míticos.

Graças ao humanismo o homem passou a ser visto como imagem e semelhança do seu criador, tornando-se a medida de todas as coisas. Os humanistas repudiavam o Teocentrismo (a ideia de que Deus era o centro de todo o universo e de toda a vida humana) e passaram a defender o Antropocentrismo (o homem como a medida de todas as coisas).

As inquietações e conclusões filosóficas dos humanistas foram gradativamente difundidas por meio da imprensa e pelo conjunto das obras literárias, artísticas e conclusões científicas associados ao renascimento cultural no “quattrocento” e no “cinquecentto” (séculos XV e XVI). Repercutiram também no debate que estimulou os cismas religiosos no século XVI, a reforma protestante.

Dois traços marcantes do humanismo e do renascimento precisam ser levados em conta pra compreendermos o processo de secularização que amparou todo o avanço das potencialidades humanas e de toda a sociedade. O primeiro foi o antropocentrismo que consistia na valorização do homem como ser racional. O homem passa a ser visto como a mais perfeita obra da natureza. Com capacidade para explicar o que está a sua volta, passa a desenvolver outra, a capacidade criadora volta. O segundo foi o racionalismo que consistia na possibilidade de descobrir ou esclarecer as coisas pela observação e pela experiência. A razão passa a ser a base do conhecimento, contrariando o saber revelado pela fé e pautado na autoridade, tradição e inspiração religiosa marcantes na Época Medieval.

É pertinente esclarecer que toda esta revolução em curso nos debates religioso, cultural e científico não ocorreria se não houvesse a possibilidade dele ser aplicado na sociedade, e sua aplicabilidade ou exequibilidade esteve associada ao desejo sentido pela mesma sociedade por mudanças. Ora somos produtos também do meio em que vivemos, e se este meio passa por mudanças em todos os sentidos, passamos a nos identificar com ideias e projetos compatíveis. 

A Igreja Católica simbolizava e representava as tradições, o conservadorismo, exercia ainda muita influência dobre homens poderosos e governos. Uma parte dos que eram mais refratários às mudanças e ao debate, envolvida direta ou indiretamente com a Igreja, optou por se resignar, outra menos conformada, enfrentou valendo-se comumente da repressão e censura às estas ideias e da eliminação de seus respectivos autores.

Era inevitável e previsível a secularização, neste caso no seguinte sentido, grosso modo, num processo de compreensão das coisas ou esclarecimento sobre as verdades resultante mais de uma investigação científica em detrimento de verdades até então produzidas pela crença ou pelos dogmas da fé. Secularização por outro lado não significa o abandono total da fé, é, também, a presença do religioso de forma não religiosa. Pode ser então a busca de uma nova religiosidade.


Detalhe de Pietá de Michelângelo 

Os renascentistas procuravam humanizar o que era sagrado. A obra “Pietá” de Michelangelo, ao meu ver, destaca a preocupação do artista em revelar o lado humano de quem até então era sempre endeusada e porque era pouco compreendida, em “Pietá”, Maria com o seu filho, jazendo em seu colo, se revela na dimensão humana ao sentir muito a perda de seu filho.


O Racionalismo de René Descartes 

Atentem para esta frase atribuída a Descartes, filósofo e matemático francês que viveu entre 1596 e 1650: “Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras quando comecei a concebê-las tornaram-se falsas quando quis colocá-las sobre o papel”. Ou então outra, mais famosa, inscrita no livro “O Discurso do Método”: “Penso, logo existo”.

Descartes valendo-se da dúvida e desconfiando das sensações como meios para o conhecimento e a compreensão e, posteriormente, do sonho, pôs dúvida na realidade externa. Numa figura de linguagem o filósofo sugeria que havia o gênio do mal que acaba nos enganando. Com isso chegou-se a uma primeira certeza, ou seja, concluiu que não podia duvidar do fato de que estava duvidando. Quando duvidamos, existimos, mas como o ato de duvidar é uma maneira de pensar, então confirmamos que quando pensamos tomamos consciência de nós mesmos ou então quando pensamos, existimos.

Para o meu raciocínio, tomarei então isto como um processo de secularização ou de busca de novas verdades contrariando as que se tinham como absolutas, uma busca que não seria possível sem o rigor da inquirição científica e da experimentação. 


O Empirismo de Locke e de Hume

Empirismo destaca a evidência, pois sempre é resultante de experiências. Considera imprescindível que todas as hipóteses sejam testadas ou experimentadas com o objetivo de irromperem os limites da revelação pura e simples, muitas vezes prisioneiras ou produto dos dogmas da fé ou da intuição que, tal como a razão, é inerente ao ser humano.

1- O inglês John Locke (1632-1704) 


No “Ensaio Sobre o Entendimento Humano”, Locke via nossa mente como uma “tabula rasa”, ao longo de nossa vida por meio de experiências preenchemos o que está cru ou em branco, construímos então um sentido ou uma explicação para as coisas, pois não nascemos com o conhecimento, apropriamo-nos dele em nossa vida.

Locke aponta as ideias simples e complexas e suas associações para que seja possível a abstração do fato ou a compreensão do concreto. O que existe é concreto e a ideia que criamos do que existe é a nossa abstração.

O legado de John Locke salta aos nossos olhos, senão vejamos, se nascemos como uma folha em branca, ao longo de nossa vida adquirimos conhecimento, a escola "latus sensus" torna-se então imprescindível e a educação como elemento modificador e dinamizador do mundo. Ao afirmar que o mal não fazia parte dos planos de Deus, o mal então era, neste sentido, resultante de um sistema construido pelos indivíduos, ficando então os indivíduos a incumbência de mudar ou manter este sistema.


2- O escocês David Hume (1711-1776)


David Hume entende que nossa ideias mais simples resultaram de nossas sensações e elas podem se relacionar tornando-se ideias mais complexas, possível por obra e graça da memória e da imaginação. Contudo nossas ideias mais simples se associam em ideias mais complexas, principalmente quando as comparamos verificando diferenças e semelhanças, congruências e incongruências, convergências e divergências bem como quando estabelecemos uma proximidade delas no espaço e no tempo e as consideramos na relação de causa e efeito.

Para Hume a religião não fundamenta nem é fundamentada pela razão ou pela ética. A religião é resultado de nosso instinto, os deuses que construímos ou passamos a crer aparecem em razão do medo que temos de morrer e a inquietação que se impõe acerca da nossa existência ou não-existência depois que morremos. Apesar de seu ceticismo, Hume não deu mostras de que não cria em Deus ou que era ateu. Chega a falar da existência de um “Ser supremo, bondoso, justo e severo, senhor da mãe natureza” 

O argumento mais conhecido e tradicional para a existência de Deus é o argumento teleológico, segundo o qual toda a ordem resulta da providência divina ou desígnio de Deus.


A Epistemologia de Immanuel Kant

Kant (1724-1804) em sua obra mais significativa A crítica da razão pura, Kant levanta três grandes indagações. "todo interesse de minha razão (tanto o especulativo quanto o prático) concentra-se nas três seguintes perguntas: 1. Que posso saber? 2. Que devo fazer? 3. Que me é dado esperar?"

A epistemologia ou a teoria do conhecimento de Kant está de algum modo vinculada a crítica que ele formula em relação ao ceticismo de David Hume. Para Kant o conhecimento divide-se em dois: os juízos analíticos (não acrescentam conhecimento) e os juízos sintéticos (acrescentam conhecimento).

A filosofia deveria se preocupar com o sujeito e não com o objeto, o que ele chamou de uma “filosofia transcendental”. O conhecimento é resultante da junção entre a experiência e o conceito, portanto irrompe uma espécie de “camisa de força”, que impedia ou dificultava o conhecimento, criada entre o empirismo de Locke e de Hume e o racionalismo de Descartes.

Em outra obra A Crítica da Razão Prática de 1788, Kant nos fala sobre a existência de Deus, entretanto o autor sustenta que esta necessidade moral é subjetiva, pois esta associada a uma carência, e não objetiva, isto é, em si um dever; “pois não pode haver o dever de pressupor a existência de seja o que for”, até mesmo Deus.
“Ora, era para nós um dever promover o bem supremo; logo, há em nós não apenas a justificação mas também a necessidade, como uma carência conectada ao dever, de pressupor a possibilidade deste bem supremo que, dado que só é possível sob a condição de existir Deus, conecta o pressuposto da existência de Deus inseparavelmente com o dever; isto é, é moralmente necessário pressupor a existência de Deus”.

Em resumo, Kant nos faz reconhecer que a faculdade de pensar e a experiência fenomênica, inerentes ao ser humano, pressupõem um complexo “sujeito transcendental” que em última instância preside o seu funcionamento, no concernente à sensibilidade, à razão; o conhecimento científico leva-nos, portanto à decisão ética, à apreciação estética e, por fim, à vontade imaterial ou religiosa.

Por fim apresento-lhes uma citação de Kant que sintetiza o que me parece fundamental no debate sobre Fé e Razão.

"É absolutamente necessário persuadir-se da existência de Deus; mas não é necessário demonstrar que Deus existe”.


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